Entrevista com Filmes de Plástico

1. O que pretendiam quando surgiu o coletivo e o que mudou no percurso?

Prentendíamos primeiramente assinar nossos filmes com algum nome para que se criasse uma identidade, uma unidade ou algo parecido que pudesse nos caracterizar. Também, foi uma vontade de nos unir, pois trabalhamos, Gabriel, André e Maurílio, muito bem juntos. Outras coincidências apareceram, como o fato de todos usarmos chinelos havaianas azuis, todos torcermos pelo Cruzeiro e todos morarmos em Contagem. Com o tempo estamos percebendo positivamente que não há exatamente uma unidade estética, mas uma grande variedade. Ainda nos une uma vontade de produzir que é diferenciada na prática de outros grupos. Somos minimalistas, gostamos de equipes menores, de simplicidade. Mas isso, claro, depende de cada projeto.

Fantasmas

2. O que faz de um grupo um coletivo de cinema?

Nós não nos consideramos exatamente um coletivo. Sempre pensamos a estrutura de uma produtora que funcionasse não só para o cinema mas para vários trabalhos, nosso meio de vida e ganha pão mesmo. E acho três pessoas pouco para caracterizar um coletivo. Temos muitos amigos próximos, como o pessoal da Sorvete Filmes e outros companheiros. E vejo este grupo, que constantemente se encontra para ver filme como uma espécie de coletivo informal. Inclusive fizemos um filme a 8 mãos Estado de Sítio. Talvez o que faça de um grupo um coletivo seja uma mínima organização objetiva, idéias partilhadas e a vontade de movimentar de alguma forma o cenário cultural.

3. Neste momento é possível falar de um novo movimento de cinema no Brasil?

Não sei dizer exatamente. A idéia muito falada sobre “Novíssimo Cinema” soa como uma necessidade de enquadrar, de organizar, que historicamente sempre acaba deixando vários realizadores de fora e ainda tende a empobrecer individualmente alguma obras. Isso no plano estético. Na prática acho que  vem ocorrendo nos últimos anos uma democratização muito grande da produção audiovisual por fatores que incluem, dentre várias coisas, o enorme acesso a ferramentas de produção, um olhar de alguns festivais e curadorias para  novos realizadores e a internet enquanto mecanismo de troca. O contato entre realizadores é muito maior, e sem dúvida uma rede vem se criando que pode resultar em mobilizações cada vez mais concretas, mais diretas e efetivas, politicamente interessante para o meio.

4. Como se caracterizam politicamente e como caracterizam de modo geral este novo cinema que está surgindo?

O contato mais frequente entre realizadores tem gerado uma maior vontade de mobilização por parte de alguns, principalmente devido ao abismo existente entre o volume de produção e o acesso desta produção aos meios de exibição no país. O cinema ainda é pouco compreendido pelo poder público, e parece existir cada vez mais uma vontade – estimulada a meu ver principalmente pela internet – de organização e difusão de informação. Nos filmes, acho que tem existido cada vez mais uma ampliação de propostas narrativas e temáticas e uma investigação cada vez maior dos formatos digitais.

No final do mundo

5. Quais as principais referências cinematográficas do grupo?

Do nosso grupo é muito difícil definir pois elas vão de James Gray a Trapalhões. Nos interessamos por absorver filmes que flertam com o mundo de uma maneira não óbvia, e que pensem o cinema enquanto uma arte particular. Mas entre nós da Filmes de Plástico existem, claro, referências individuais, discordâncias, enfim…

6. Como lidam com a “tradição” do cinema brasileiro?

Não compreendo bem o que exatamente querem dizer com “tradição”. Vejo a história do cinema brasileira com altos e baixos que devem ser estudados e compreendidos pois eles dizem muito respeito ao estado de várias coisas atuais. Infelizmente, é um cinema pouquíssimo preservado e ensinado.

7. Qual a avaliação que vocês fazem hoje dos festivais e da crítica no Brasil?

São muitos festivais, com diferentes propostas e, por isso, cada um detentor de suas potências e fraquezas. Acho que exercem um papel fundamental no que diz respeito ao encontro entre realizadores, produtores, críticos, pesquisadores, e é para muitos o único local onde seu filme pode ser exibido em uma sala de cinema. Ainda assim, achamos que deve ser cada vez mais potencializado o encontro com o público, com as pessoas que não convivem frequentemente e não trabalham com filmes. O festival não pode ser um congresso de cinema somente, mas uma exibição de propostas diferenciadas para diversos públicos. Claro que essa vontade de ver os filmes não cabe só ao festival, mas muitas vezes tenho a sensação de que é criado ainda um abismo muito grande entre realizador e público. A crítica, assim como os festivais, não pode ser analisada como uma coisa só, pois também se forma por vontades completamente distintas e meios totalmente distintos.  A crítica impressa, de jornais, nos interessa muito pouco (a mineira não me interessa nada). A internet hoje favoreceu a existência de vários projetos que parecem mais interessantes pela forma como o cinema é tratado de maneira mais compromissada e aprofundada.

8. O cinema dos novos coletivos é predominantemente urbano. Por quê?

Creio que seja porque as discussões, os encontros, as retrospectivas, mostras e exibições ocorrem predominantemente em centros urbanos. Moro na divisa de Contagem com Belo Horizonte. Se dependesse do que acontece no meu bairro, ou na própria cidade de Contagem, minha formação de cinema ou seria péssima ou não existiria. Por mais que internet dê acesso a obras, textos e discussões, o encontro pessoal, face a face, ainda é fundamental para a construção de projetos.

9. Como avaliam o compartilhamento de filmes e a “pirataria”?

Sou totalmente a favor de disponibilizar obras, pois o mercado hoje já não dá mais conta da produção mundial. Não compro artigos piratas pois tenho a possibilidade de baixá-los, então prefiro não gastar dinheiro. O mundo está caro e a distribuição por meios “alternativos”, “ilegais”, é a meu ver a única maneira hoje de manter as pessoas informadas e interessadas. Acho um crime uma obra não atingir uma pessoa por falta de dinheiro da mesma.

10. É possível uma arte pública em  uma sociedade capitalista?

O acesso à arte, você diz? Não sei. Vejo hoje quase tudo pautado por uma lógica de mercado, de valor, de hierarquia, de segregação. Sou um eterno otimista, mas vejo uma sociedade que está com cada vez menos revolucionária e mais passível de adaptação. Assunto complexo.

Projeção de Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides

11. Arte e utopia – como construir este encontro?

No meu fazer, a arte é uma tentativa de entender a utopia, seja tentando materializar um desejo, seja tentando entender a utopia no nosso mundo, as pessoas e seus anseios, o caminho para onde estamos indo.

12. Em frente uma encruzinhada: Uma estrada leva ao cinema desconhecido, o cinema da aventura. a outra para o cinema do terceiro mundo, um cinema perigoso, divino e maravilhoso. Qual o caminho a trilhar?

Voar por cima destes dois caminhos, insuficientes para definir a aventura do cinema.

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