Entrevista Coletivo Ceicine – Coletivo de Cinema de Ceilândia

1. O que pretendiam quando surgiu o coletivo e o que mudou no percurso?

O Coletivo de cinema de Ceilândia (CEICINE) surgiu no ano de 2006 quando assinamos os primeiros videoclipes de alguns grupos de RAP da CEILÂNDIA. Depois disso assinamos três filmes e alguns outros videoclipes.  Pretendíamos uma junção de pessoas da cidade das mais diversas áreas para a produção e a reflexão daquilo que pensávamos ser um cinema de periferia. O que nos movia era uma angústia, uma indagação: como poderíamos produzir nossos trabalhos com outras referências, possibilidades e experiências que não fossem àquelas que nos eram dadas de maneira mais direta e que não conseguíamos estabelecer um diálogo? Estas experiências mais diretas, de maneira geral, eram as do cinema brasiliense. Pretendíamos acima de tudo criar possibilidades reais de produção. Éramos um grupo sem nenhuma infraestrutura, não tínhamos câmeras, equipamentos de montagem, nada.  Com o tempo e com o encontro de pessoas de Ceilândia com angústias em comum estas condições apareceram.

Neste período o grupo foi se transformando, houveram muitas concordâncias e parcerias, todavia muitas discordâncias também aconteceram. A mudança principal da ideia inicial está na perspectiva interna do grupo. Percebemos e experimentamos conflitos internos, muitas vezes motivados pelo assédio estatal, a cooptação das instituições governamentais locais. A mudança principal hoje, creio, está no desafio de oxigenar o grupo, de entender outro momento que se configura tanto na cidade quanto no  conceito que inicialmente motivou a formação do coletivo: periferia.

O que seria um cinema de periferia? Onde realmente  experimentamos a periferia? O cinema que fazemos é cinema periférico?

Dias de Greve

2. O que faz de um grupo um coletivo de cinema?

Achamos que a idéia de um coletivo de cinema passaria por várias pessoas pensando e produzindo cinema e audiovisual. Indivíduos interessados nas várias características do cinema: técnicos que dominam som, fotografia, montagem,  roteiro… pessoas que se interessem em refletir e escrever sobre cinema e outros que queiram discutir dentro da esfera pública políticas de cinema. O coletivo partiria da idéia agregadora de várias pessoas fazendo filmes e experimentando os espaços da cidade. Desta experiência, uma outra forma de fazer cinema surgiria. Desta experiência  se legitimaria um coletivo.

3. Neste momento é possível falar de um novo movimento de cinema no Brasil?

Sim, principalmente pensando na forma dos filmes, motivados por várias questões que vão desde as possibilidades técnicas, nunca antes tão acessíveis, até a consciência que outras narrativas são possíveis de serem produzidas e distribuídas (possíveis e necessárias).

Daí surgem filmes mais “soltos”, livres da necessidade de se conformar e se enquadrar em gramáticas esquizofrênicas de um “cinema industrial”.

4.Como se caracterizam politicamente e como caracterizam de modo geral este novo cinema que está surgindo?

Politicamente, esse cinema que surge, trabalha com questões mais subjetivas, fugindo dos “grandes acontecimentos” e tendo um visão menos totalitária e determinista da história. Um cinema que consegue se desvencilhar de grupos políticos mais rigorosos e que muitas vezes enxerga a produção de cinema como mais um braço da militância. Somente isso: mais um braço a serviço da militância.

De modo geral é um cinema mais solto, menos preso a rigores do roteiro tradicional (cujo processo de decupagem é o centro referente de todo o filme). Um cinema que privilegia a criação e as experiências que vão surgindo dentro do próprio processo de construção do filme. Obviamente que tudo isso ocorre, em grande parte, por conta das novas possibilidades técnicas, equipamentos mais leves.

A Cidade é uma só?

5. Quais as principais referências cinematográficas do grupo?

O nosso grupo, de forma geral, não é um grupo de cinéfilos. Este fato de forma alguma pode ser colocado como uma virtude. Muito pelo contrário: quase sempre reflete negativamente nas relações do gurpo. Todavia é uma deficiência que carregamos, temos consciência e gradativamente vamos refletindo sobre suas consequências.

Essa “falta de referências” é explicada pela própria constituição geopolítica da cidade. Somos uma cidade de quase oitocentos mil habitantes que não possui uma única sala de cinema. Até os anos 1980 existia uma sala de cinema conhecida como sexkaratê. Ou seja, tinha uma sessão pornô, depois outra de Bruce Lee (e não temos problemas em afirmar que esses filmes são também nossas referências).  Hoje buscamos, através da prática cineclubista, ter acesso a outros filmes. Porém o que assistimos e debatemos ainda passa por descobertas há muito experimentadas pela maioria dos cineclubistas: Os Russos, O Neo-realismo, o Cinema Marginal brasileiro… Também cineastas que são importantes para a nossa formação e que admiramos, influenciados pelos Festivais de Brasília, ao menos até o ano passado. Desta lista vem: Carlos Reichenbach, Sganzerla, Coutinho, Marcelo Gomes…

6. Como lidam com a “tradição” do cinema brasileiro?

Essa tradição, grosso modo, não nos seduz. Apesar de muitos deles serem ainda de grande relevância, a forma de fazer os filmes desta tradição não é o nosso norte como referências (pensando que a pergunta quer definir tradição como cineastas brasileiros que conseguiram produzir filmes em 35mm para salas de cinema nos últimos anos). Todavia, eles têm a sua importância e alguns deles tem trabalhos relevantes e que ainda podem ser boas experiências para refletirmos. Mas são raros aqueles que fazem parte da “tradição” que mantiveram a coerência. Somos tributários das excessões.

7. Qual a avaliação que vocês fazem hoje dos festivais e da crítica no Brasil?

Os festivais têm a função primordial de divulgação dos filmes brasileiros.  É também  através deles que os filmes se legitimam. É  também através deles que podem surgir outras possibilidades estéticas e viabilidade econômica de fazer novos filmes. Existem muitos festivais interessantes no Brasil, onde esta outra produção que está fora dos circuitos, da miséria que nos é dada enquanto salas de cinema, pode ser vista. Portanto, eles são fundamentais, têm um papel crucial na divulgação dos filmes brasileiros e devem, cada vez mais, ocupar outras cidades no Brasil. Sem eles, a nossa “distribuição”, que já é capenga, estaria ainda mais reduzida.  Em sua grande maioria, estes festivais mostram um panorama interessante da variedade de cinemas no Brasil. Obviamente que muitos deles, principalmente os mais tradicionais, estão gradativamente sendo ocupados por pessoas que julgamos reacionárias, que querem abafar um cinema forte e profícuo que surge no Brasil em prol de velhas formas do nosso esquizofrênico e capenga “cinema industrial”. O festival de cinema de Brasília, infelizmente, é um desses exemplos .

A cidade é uma só?

8. O cinema dos novos coletivos é predominantemente urbano. Por quê?

É verdade. Se pensarmos nos filmes, pelo menos naquele que temos acesso, eles são oriundos dos centros urbanos. Não saberia afirmar, todavia acho que o urbano favorece essas possibilidades maiores de encontros, principalmente entre os desencontrados, os deslocados, os insatisfeitos com o panorama de cinema no Brasil. É destes tipos de pessoas que nascem os coletivos de cinema. Todavia, é só uma desconfiança, uma sensação. Podem haver outros coletivos que estão surgindo em locais não-urbanos que a nossa parca visão “centralista” não consegue enxergar. O vídeo nas aldeias, o cinema que os indígenas vem fazendo, poderia ser um coletivo?

9. Como avaliam o compartilhamento de filmes e a “pirataria”?

Os filmes são feitos para circular.  Desta forma, compartilhá-los, disponibilizá-los se faz necessário. Quem não quer que seus filmes sejam vistos? Os filmes que fazemos dificilmente terão circulação no circuito tradicional brasileiro. Infelizmente, não há o interesse, nem políticas públicas para exibição. Os poucos espaços, na maioria cinemas de shoppings, estão nas mãos de poucos distribuidores.

 Então onde  dar vazão aos nossos trabalhos? Cineclubes, internet, escolas e festivais: este é um caminho possível de compartilhamento de filmes. A “pirataria” é outra forma dos filmes chegarem ao público. A circulação, quando intermediada por essas pessoas, é eficaz.

Todavia, não podemos ter ilusões. Mesmo na “pirataria” há uma ordenação de quais filmes estarão “mais disponíveis”. Há, por exemplo, relatos de músicos que pagam para o “pirateiro” dar mais visibilidade aos seus trabalhos. A não ser que você já esteja dentro de um esquema de mídia tradicional, dificilmente terá possibilidades de que seu trabalho simplesmente circule. Além disso, não haverá o mínimo retorno econômico. Mas, por outro lado, o filme pode ter uma circulação e uma visibilidade, coisa que nos modelos tradicionais dificilmente vamos conseguir.

10. É possível uma arte pública em  uma sociedade capitalista?

Creio que sim. A arte deveria ser sempre pública. Deveríamos lutar para isso. O capitalismo nos obriga a fazer consessões, mas quanto mais produzimos percebemos que existem brechas a serem exploradas. E uma vontade das pessoas de vivenciar experiências críticas, sair da zona de conforto. Cabe a nós, a estas redes que estão se formando, pensar talvez um novo circuito. Novas formas de exibição e discussão. A internet é um exemplo disso. Foi aqui no blog desta Zagaia que a gente conseguiu colocar nossa posição ao abandonar, em um ato político de protesto, o último festival de Brasília. Até então a grande mídia ou ignorou nossa posição ou distorceu nossos motivos. Existe uma nova movimentação crítica e libertária, e nosso cinema pode dar voz a todo este imaginário esperando por explodir por trás de todo o marasmo e senso comum que toma conta da cultura “oficial”.

Prêmio de melhor filme no Festival de Tiradentes por "A cidade é uma só?"

11. Arte e utopia – como construir este encontro?

Em uma busca honesta, de todos os dias repensarmos nossos horizontes sem acomodação e resignação. Foi a muito custo que uma nova geração conseguiu abrir novos caminhos. Cabe não retroceder um milímetro. Ao contrário avançar num “salto livre sob o céu da história” (não é assim que diz o manifesto da Zagaia?). E romper cada vez mais com os grilhões das instituicionais que nos tornam um híbrido de burocratas-realizadores.

12. Em frente uma encruzinhada: Uma estrada leva ao cinema desconhecido, o cinema da aventura. A outra para o cinema do terceiro mundo, um cinema perigoso, divino e maravilhoso. Qual o caminho a trilhar?

A idelogia dominante apresenta sempre um caminho único, como se nenhuma destas escolhas fossem mais possíveis. Mas, ao contrário, há muitas escolhas e opções a serem feitas, perguntas sem respostas e buscas em aberto. Somos e seremos sempre o cinema do terceiro mundo, perigoso, divino e maravilhoso. E sua renovada luta por caminhos.

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