Entrevista Coletivo Alumbramento

1. O que pretendiam quando surgiu o coletivo e o que mudou no percurso?

O mais importante para nós era sair de um isolamento involuntário e se juntar com pessoas com as quais nos identificávamos. Já éramos amigos e todos queríamos trabalhar com arte. Se juntar foi uma maneira de tornar isso possível. De lá para cá é claro que muito mudou, mas a base que impulsionou a criação do Alumbramento continua a mesma: fazer arte com pessoas que admiramos buscando uma troca de experiência intensa e depois levar isso para outras pessoas.

2. O que faz de um grupo um coletivo de cinema?

Cada coletivo tem a sua maneira de funcionar. Não dá pra dizer com certeza o que caracteriza um coletivo. No caso do Praia do Futuro, nosso projeto mais coletivo, eram 18 realizadores que fizeram 15 curtas que iriam compor em conjunto um longa em episódios. Na fase final todos assistiam aos filmes uns dos outros e faziam comentários que em muitos casos levavam o realizador a fazer mudanças em seu episódio. Foi um momento de troca muito bonito.

Estrada para Ythaca

3. Neste momento é possível falar de um novo movimento de cinema no Brasil?

Movimento no sentido em que há muitos jovens se movimentando para conseguir realizar os seus filmes.  Dá pra dizer que é um bom momento no Brasil para se fazer filmes e que os cineastas estão aproveitando as oportunidades.

4. Como se caracterizam politicamente e como caracterizam de modo geral este novo cinema que está surgindo?

Fazemos política com os nossos filmes. Nossa postura perante o mundo e a nossa vontade de repensar o seu modus operandi estão lá em Estrada para Ythaca, Os Monstros, Flash Happy Society, Longa Vida ao Cinema Cearense, etc. Pode ser ideológico, mas ainda acreditamos que a arte muda o mundo, mesmo quando o alcance dela é pequeno. Quanto aos filmes que vêm surgindo nos últimos dois ou três anos percebo como traço comum entre eles uma vontade de encontro com o outro. Acho que podemos dizer isso de filme tão diferentes como Pacific e Os Residentes.

5. Quais as principais referências cinematográficas do grupo?

São muitas referências que passam pelo grupo e elas vão além do cinema. Nosso novo filme lida com teatro, Ythaca se amparava na poesia do Kaváfis e Iessiênin, Os Monstros faz uma declaração de amor ao free improv (estilo de música que vem do encontro do free jazz americano com a música da vanguarda européia). Mas o amor por filmes é imenso e nesse amor cabe boa parte da história do cinema, de irmãos Lumière a John Hughes, de John Ford a Eric Rohmer, de Jean Renoir a Julio Bressane, etc. Todos esses diretores são referências e influências para a realização de nossos filmes, cada um de um jeito muito particular e específico.

6. Como lidam com a “tradição” do cinema brasileiro?

De forma muito leve. Haroldo de Campos ensinou via Ezra Pound a idéia crítica e criativa de Make it New. A tradição nesse caso não é motivo de medo, espanto ou opressão, mas sim de releitura, descoberta e fascínio. No nosso filme Estrada para Ythaca exploramos bastante a idéia de make it new não só com o cinema brasileiro, mas também com a música brasileira.

Vida longa ao cinema Cearense

7. Qual a avaliação que vocês fazem hoje dos festivais e da crítica no Brasil?

Pergunta que exige uma resposta enorme e que dificilmente será esgotada algum dia. O que podemos dizer é que os filmes do Alumbramento nunca foram feitos com os festivais em mente, simplesmente aconteceu como conseqüência de um enorme desejo de entrar em contato com outras pessoas que amam e trabalham com cinema. A crítica de cinema no Brasil tem sido muito importante para levantar discussões mais abertas sobre tudo que está acontecendo, além de aprofundar e revelar muitos dos problemas e das inquietações que os cineastas têm hoje em dia, e para isso, eles precisaram ir lá atrás no cinema clássico, mas também no cinema de Andy Warhol, por exemplo.

8. O cinema dos novos coletivos é predominantemente urbano. Por quê?

Talvez porque são filmes feitos com um enorme sentimento de urgência, que pressentem os danos e os riscos de uma grande cidade de forma complexa, sem nunca cair num reducionismo maniqueísta. O cinema brasileiro está repleto de filmes diferentes entre si que lidam de maneira muito intensa com a questão do urbano como Permanências de Ricardo Alves Junior e Recife Frio de Kléber Mendonça Filho.

9. Como avaliam o compartilhamento de filmes e a “pirataria”?

O compartilhamento de filmes é uma revolução. É como Tsai Ming-Liang, Hou Hsiao-Hsien, Jia Zhangke, Hong Sang-Soo, Apichatpong, Raya Martin, entre outros que moram tão longe, chegaram à Fortaleza.

A pirataria é um mercado onde tem gente ganhando dinheiro e outros deixando de ganhar. Existem questões éticas mais delicadas, a discussão é mais complexa. Mas de qualquer forma é uma maneira do cinema chegar às pessoas. O ingresso tá muito caro, o cinema tem que voltar a ser popular. O mercado pirata é uma reação a isso. Se teu filme tá no piratão é porque tem muita gente querendo ver. Quer ganhar dinheiro, pirateia os próprios filmes.

As corujas

10. É possível uma arte pública em  uma sociedade capitalista?

Sim, é possível. É nadar contra a maré, mas o esforço pode valer a pena. Estamos vivendo um momento interessante onde parece impossível prever o que vai ser o futuro. Coisas novas e impensáveis estão se tornando realidade. A internet é uma grande novidade e ainda estamos aprendendo a lidar com ela.

11. Arte e utopia – como construir este encontro?

Não existe arte sem utopia, sem sonho. A arte, mais do que “retratar” seu tempo, pode transformar o mundo. Acreditar nisso é que faz as pessoas dedicarem suas vidas a arte. Como disse Eduardo Galeano a utopia serve para fazer a gente caminhar.     

12. Em frente uma encruzilhada: Uma estrada leva ao cinema desconhecido, o cinema da aventura. a outra para o cinema do terceiro mundo, um cinema perigoso, divino e maravilhoso. Qual o caminho a trilhar?

A do cinema do terceiro mundo, desconhecido, cinema de aventura, perigoso, divino e maravilhoso. Não há caminho certo. O que existe é o cinema feito com paixão e filmes feitos com objetivos obscuros.

Os monstros

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