Em defesa da Filosofia

 
 
 
Revista VEJA: “Ensino obrigatório de Filosofia e Sociologia nas escolas públicas: Em vez de empreender um esforço para melhorar o quadro lastimável da educação brasileira, o governo se empenha em tornar obrigatórias disciplinas que, na prática, só vão servir de vetor para aumentar a pregação ideológica de esquerda, que já beira a calamidade nas escolas.” (Ed. 2236 – 28/09/2011-Pg.93)
 
“O objetivo da filosofia é o esclarecimento lógico
do pensamento. A filosofia não é umadoutrina,
mas uma atividade.” – Wittgenstein
 
 

 

Pensar é perigoso. Todo regime autoritário tem a tendência de enquadrar não apenas o indivíduo em sua dimensão de liberdade física, mas também na esfera das ideias, que, contestadoras, logo são censuradas. A filosofia é, antes de tudo, pensamento, reflexão. Muitas vezes, pensar, em um ambiente tradicionalmente bem-comportado no campo das ideias, é pensar contra. A filosofia carrega este conteúdo questionador, esse potencial crítico, que é extremamente estimulante para o desenvolvimento do pensamento abstrato. “Pensar é o contrário de servir.”[1] Dizer, portanto, que a filosofia tem uma tendência contestadora por formação é dizer que ela deve ser peça fundamental na desmontagem dos mecanismos de poder e dominação tradicionalmente efetivos na sociedade. A filosofia se mostra requisito indispensável para fornecer aos estudantes a possibilidade de articulação entre conhecimento, cultura, discursos e experiência [2]. E ainda mais, não apenas a articulação desses elementos, mas, principalmente, o desenvolvimento do pensamento questionador sobre esses elementos. A filosofia, como bem se sabe, pode auxiliar o aluno crítico a formular questões e objeções de uma maneira organizada, e o quanto mais rigorosa conceitualmente. Essa formação crítica vai de encontro à necessidade de realização total do indivíduo, pode representar sua emancipação. Afinal, faz parte da essência do ser humano ser sujeito consciente de sua própria história. O trabalhador, por exemplo, no sistema do capital, é barrado, muitas vezes, do espetáculo do conhecimento. Tende, como consequência, a pensar e agir de maneira fragmentada, assistemática, não crítica, ou seja, dentro dos limites do senso comum [3]. À dominação econômica corresponde a dominação ideológica [4]. A filosofia deve ser um modo de superação do senso comum, uma capacidade de reflexão rigorosa, crítica e sistemática sobre os problemas da realidade. Deve ser crítica da ideologia dominante para a superação da alienação. Em outras palavras, a filosofia, nos tempos atuais, tem uma tarefa: detectar os discursos prontos, os discursos ideológicos e denunciá-los, de modo que, ao expô-los à luz, verificar o que resta, o que ainda pode ser de utilidade para a explicação da realidade. A formação do indivíduo deve ser a mais completa possível, o que inclui uma formação problematizante que implicaria em um questionamento, a todo momento, dos seus próprios atos. O estudo de filosofia nos parece ser essencial para essa formação crítica indispensável que todo indivíduo deve ter para realizar sua essência humana. Talvez seja justo dizer, como o faz Olgária Matos, que a filosofia põe em movimento o pensamento, imprime uma dinâmica que desestabiliza a apatia da razão, o torpor dos hábitos e a inércia do preconceito [5]. A posição apresentada pela reportagem da Revista Veja (Ed. 2236 – 28/09/2011-Pg.93), assim, a de que a filosofia representa um perigo porque doutrina o jovem a uma perspectiva de esquerda, põe em jogo, de certa forma, o essencial da questão. Uma filosofia bem ministrada nas escolas que preparam nossos futuros adultos tem a potencialidade de formar pessoas mais críticas, tendentes a analisar problema e pensar por própria conta e risco. Se Wittgenstein estava certo, a filosofia não é, em si, basicamente de esquerda ou de direita. Basta olhar, para isso, o universo de nossos filósofos profissionais que escrevem regularmente no espaço público midiático. Esse espaço é visivelmente ocupado pelos ideólogos do que, por falta de designação melhor, poderíamos chamar de direita. Agora, o que a Revista Veja reconhece é o potencial crítico, o instrumental teórico abstrato capaz de dar conta de análises da sociedade e, assim, tentar mudar o que não se mostre justo. Mas, então, o que quer a Revista Veja? Será que está disposta a sustentar o discurso de que é melhor para nosso país que os jovens não sejam, futuramente, homens e mulheres críticos? Será que acreditam que a crítica somente pode ser de esquerda? Porque se assim for, em um Brasil injusto, desigual e altamente conservador, ser de esquerda é, efetivamente, um valor a ser perseguido. E, se o problema for uma pregação ideológica possível, a coisa caminha em outros termos. Dizer que a filosofia não pode ser ministrada nas escolas porque implicaria em formação partidária é, profundamente, tacanho. Estudar a história da filosofia, problematizar questões profundas do ser humano, criar a sensibilidade para o belo, são tarefas extremamente necessárias e dizer que tudo isso seria feito para aumentar a pregação ideológica de esquerda é diminuir a filosofia. O preocupante é que todo regime autoritário tem a tendência a suprimir a filosofia do currículo das escolas, como já foi feito no Brasil. Ela seria, em sua atividade contestadora por natureza, descartada como indesejável. O mesmo argumento, o da pregação de esquerda, já foi usado contra a filosofia no passado recente brasileiro. Em um ambiente democrático, a filosofia não pode significar um risco, não pode jamais ser entendida como um problema. Pelo contrário, ela seria altamente aconselhável na medida em que tem, em si um potencial de libertação. NOTAS: [1] MATOS, Olgária. “Para que filosofia?” In: Vestígios – escritos de filosofia e crítica social. São Paulo: Palas Athena, 1998, p. 147.   [2] FAVARETTO, Celso. “Filosofia, ensino e cultura” In: Filosofia: caminhos para seu ensino. Rio de Janeiro: DpcA, 2004, p. 48.   [3] SILVEIRA, René José Trentin. “Teses sobre o ensino de filosofia no nível médio” In: Filosofia no ensino médio: temas, problemas e propostas. São Paulo: Loyola, 2007, p. 90 e 91.   [4] “Que demonstra a história das idéias senão que a produção intelectual se transforma com a produção material? As idéias dominantes de uma época sempre foram as idéias da classe dominante.” (MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 57.)   [5] MATOS, Olgária. op. cit., p. 148.

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