Eles sabem o que fazem e ainda assim o fazem

“Eles sabem o que fazem, e ainda assim o fazem”. É esta a nova face da ideologia, como indicaria o filósofo Žižek. Algo que podemos ver em tempos conturbados como os nossos, quando em nome da esquerda, defende-se o que há de mais retrógrado como o padrão FIFA, leis de exceção, especulação imobiliária e até mesmo, colocar uma torcida organizada contra a população de seu bairro. Foi esta a natureza da mensagem twitada pelo ideólogo Emir Sader.

Esta frase de Žižek é uma atualização do que Marx havia dito sobre a ideologia nas páginas de O Capital, quando a ideologia ainda era um  modo de prática que operava na estratosfera da superestrutura.  Marx, parafraseando a imagem de Cristo na cruz, dizia que os homens não sabiam o que faziam, mas o faziam. Tempos em que os homens agiam apoiados na mão invisível das leis do mercado. No fim das contas, acabavam por orientar suas ações sob estas regras de modo inconsciente. Capitalistas e trabalhadores, enfim, atuavam no tabuleiro do capitalismo.

Assim, a divisão de classes era o trabalho de séculos do capitalismo. Bastava ao crítico trazer à luz a natureza desta divisão de classes para que se despertasse uma consciência de classes que orientaria, enfim, uma revolução nas estruturas sociais. Era essa a aposta de Marx.

Quando Žižek subverte o mapa da ideologia com a imagem do cínico que age sabendo o que faz, aponta para a nova função do ideólogo. Ele não é mais aquele que atua sem saber do preço a ser pago por sua ação. É como o executivo de uma empresa que sabe do efeito do desemprego, mas ainda assim, não hesita em fechar uma fábrica em nome da saúde financeira da empresa. Como também é o discurso contemporâneo de uma defesa do status quo e do padrão Fifa a todo custo.

Entre Ronaldo e Emir, não há diferença de fundo do fenômeno: para ambos, tinha que descer o cacete nestes vira-latas que se manifestam por direitos sociais.

Claro, há diferença de retórica. O caminho que Emir faz não é o do brasileiro que nunca desiste – imagem que faz de Ronaldo um garoto de sucesso de marketing. De outro modo, Emir procura ocupar o papel de intelectual orgânico das estratégias do governo Lula e Dilma. Com isso, é preciso reconhecer que as peças que orientam sua retórica não são os direitos sociais versus direitos econômicos. Não se trata pois de defender a festa da Copa em nome da cordialidade nacional, ou em nome dos interesses do mercado. Trata-se de defender a todo custo um projeto social inaugurado há dez anos pelo governo petista.

Emir – e este é apenas um caso exemplar de outros intelectuais orgânicos que surgem aos montes em tempos eleitorais – tem uma retórica mais afinada. Trata-se de opor direito social versus direito social. Como se, manifestar-se contra a herança da Copa fosse contrariar todos os projetos sociais de redução da pobreza, e não avançar sobre isso.

Adorno falava do pensamento de ticket. Como se aceitar uma proposta fosse o mesmo que comprar um pacote inteiro. Ser fascista é comprometer-se com o racismo, e logo, com grupos de extermínio, com políticas que assegurem a ordem em detrimento da vida, aceitar a fala de Sherazade, manifestar-se contra a Copa e contra a corrupção, etc.. Ser de esquerda, por sua vez, é assumir políticas de direito social, defender um governo dos trabalhadores, aceitar suas decisões – ainda que controversas: Es un gobierno de mierda, pero és mi gobierno, diziam no Chile de Allende.

Um FlaXFlu que fazia sentido até certo tempo. Mas que agora se encobre na cortina de fumaça que torna indiferente quem se manifesta contra o quê. Se hay manifestantes, soy contra – eis a nova retórica dos ideólogos do poder, como o sr. Sader.

No entanto, não é culpa dos movimentos que elementos fascistas saiam às ruas. Mas sim de um governo que não soube ouvir as ruas antes de tudo acontecer, entrando de salto alto nas eleições com uma oposição partidária pífia e reduzida a pó.

Vejamos: o MST acusa ausência do governo Dilma no processo de Reforma Agrária. Os Sem-teto em marcha indicam ainda o elevado déficit de moradia. Professores ainda exigem dignidade em sua profissão. Nunca antes na história desse país se encarcerou tanta gente. Quantos hectares foram homologados aos grupos indígenas? Muitos desses movimentos estavam nas ruas. Poucos deles foram de fato ouvidos pelo governo.

Quando Emir procura colocar a Gaviões da Fiel contra a ocupação em Itaquera é um modo astuto de colocar em risco os direitos sociais que seu governo foi incapaz de ouvir. No silêncio, o cacete. Para alguém que sempre buscou saber onde estava o poder, finalmente o encontrou. Sim, ele sabe o que faz, e ainda assim o faz.

No fim, vale ao trabalho crítico, a recente suspeita de Nuno Ramos: “O que é o máximo? O que é o mínimo? De onde o horror não passa? Dessa vez chega? Qual o limite?” Esta é a voz das ruas à qual alguém que se diz de esquerda não pode fazer ouvidos moucos, não pode vociferar como “poodle do poder”, bem treinado para latir em segurança, e para bater em retirada quando a casa está a ruir.

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