Sonetos de Selito SD – Poesia

MINHA PALAVRA Minha palavra parece comigo De corpo e alma é ela bem preta Reta, direta, ela quer qual marreta Expressar aquilo que penso e digo   Minha palavra rejeita o perigo Esse imputado ao boi da cara preta Que um caraíba um dia quis capeta De criancinhas raptor, inimigo   Minha palavra reflete meu gesto Minha angústia, inquietação E meus desejos d’um modo sincero   Minha palavra é meu manifesto Ela é minh’arma, é insurreição… Por isso a expresso do jeito que quero!   DA DITA DURA QUE SEGUE PERENE Coisa sabida é que a dita foi dura; que mais que dura a tal dita foi vil; que foi milica e, decerto, civil; causou desdita – terror e paúra.   Coisa esquecida é que a bandida apura, no hostil processo de vulgo Brasil, riscando indígena e negro à buril, sua centenária arte da tortura.   Nuns vinte anos do cento passado, numa, então, breve cisão temporal, fez a tal dita tocar intocáveis,   que gritam o grito dos inconsoláveis… Mas que ainda hoje ajuízam normal não-brancos terem seu sangue drenado!     INSTANTÂNEO (SONETO PARA CRISTINA) Foi um inebriante e charmoso bom dia Encantou-me, ouriçou-me, a simplicidade Feitiçou-me outrossim a espontaneidade O sorrir gracejante… Mais pura magia   Vestes claras cobriam-Lhe a figura esguia E Lhe desentranhavam e Lhe expunham a beldade E forjavam-Lha Deusa da felicidade Ela que fez meu dia ser bem mais que um dia   E a jornada que prenunciava-se dura E perpétua cativa da besta rotina Reverteu-se e encheu-se então de brandura   Emanada, exalada da Mulher-Menina Cujo negro sorriso de negra brancura Fez-se fotografado por minha retina      NÃO É BOBAGEM, AS ROSAS FALAM     ”Quem não se movimenta,          não sente as correntes          que o prendem.” R. L.   Não é bobagem. Sim, as Rosas falam Não se permitem ser silenciadas Mesmo que biltres as queiram caladas Teimosas flores. Rosas que não calam   Não é bobagem. Falam, sim, as Rosas E não se curvam e se curvadas voltam À sua postura – retas, tesas… prosas? Olor de sangue por seus poros soltam   Não é bobagem. Rosas não são mudas As Rosas gritam, sabem os poetas São vigorosas, Rosas são parrudas   E dentre as Rosas tem Rosas discretas… Mas não se enganem, falam todas elas Palavras de Rosas… Fortes e belas!

     

        [E todo dia é 8 de março!]

    BAGUNÇA ORGANIZADA (À HÉLIO BAGUNÇA) Foi sim Sambista do maior quilate Nobre linhagem, bastião da Cultura Foi o passista maior dessa parte Da malandragem, lendária figura   Mestre, a dança legou-nos qual arte Sobrou na ginga – jogo de cintura Andou andanças, se fez baluarte Driblou mandingas e mostrou bravura   Lutou mil lutas por paixão profunda Venceu disputas pela Barra Funda Cuja Camisa ostentou suada   Hélio, nascido, Romão, e, de Paula E que da vida-missão nos deu aula Se foi Bagunça, mas… organizada!     E HOJE NÃO HÁ MACHISMO Hoje qualquer um, qualquer, se esbanja em homenagem. Até o que de bandagem vibra em vestir… a Ester?   Desafio a quem quiser, provar que digo bobagem. Não parece maquiagem tanta festa pra mulher?   Sei que há muito a festejar. Pra chorar há muito mais. Nem sou guru do niilismo.   Mas há muito o que avançar pra que, da moça, os ais não resulte do machismo!   D’UM TUPINIQUIM KLANISMO Nossa Ku Klux Klan brasuca não enforca ou cresta cruz. De boina, quepe ou capuz, mata a tiro. Estoura a cuca.   Valente, não erra nuca. E à sua fama bem faz jus. Traiçoeira. É podre. É pus. É, p’ra negrada, arapuca.   Quanto tempo e morte mais, rubro plasma e pranto e ais? Já não basta de holocaustos?   Quantas mais sortes letais desejarão os chacais, os grão-mestres vis e faustos?  

Canta: Selito SD e Mov. Cult. PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco

Selito SD: sambista, compositor e pesquisador ligado ao Movimento Cultural Projeto Nosso Samba de Osasco, Geógrafo pela USP, um dos editores desta revista e integrante do Coletivo Zagaia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *