Dubiedade – Reflexões Sobre Parati – Prosa

Lembro da primeira vez que te vi. Uma noite antes da véspera de um ano novo, suas ruas de pedras cheias de quedas, a água do mar invadindo as vias como se a mostrar que apesar de nuas, aquelas grandes e pesadas pedras, seriam para sempre suas. O encontro foi breve, uma noite em um bar para aguardar o nascer do sol e com ele a travessia de barco para o destino originário. Uma praia selvagem escondida entre as suas encostas, distante do seu clima do passado. Neste mesma oportunidade, na volta da praia paradisíaca, um dia de passeio por suas ruas estreitas, lotadas de transeuntes, todos a andarem a esmo pelos labirintos que te formam, parecendo não notarem que é justamente a história que exala de sua arquitetura é que traz a graça do mistério do achado que te consome.

Depois disso, nunca mais te vi. Li e reli notícias em jornais, fotos de amigos que a visitaram e mantinham em suas próprias memórias as histórias que os marcaram. Sempre que me defrontava com estas notícias a vontade de vê-la novamente era latente e somente crescia. Quando tu foste escolhida para ser palco da literatura – paixão que marca a minha infância e define a quadratura do passo e compasso que sinto quando o assunto é escrita e leitura – aquela mera vontade, acabou se tornando desejo, mais forte, um esboço que além da vontade trouxe o medo, racionalmente inexplicável, mas à altura da expectativa da minha saciedade.

Surgiu a nova oportunidade. No início, nem dei muita atenção, como se a tentar não dar vazão à emoção e à conseqüente inexatidão quando os desejos estão prestes a se realizar. E assim, sem muito planejar, ao chegar, a chuva veio me recepcionar. Percebi que se a água do mar não mais invade as suas ruas – fruto do trabalho humano – a chuva não deixa de dar o seu recado molhado dando a vastidão do escorregar àqueles que percorrem sua superfície sem nem notar os teus caprichos. Superfície formada por pedras disformes, duras, pesadas e com a cara do passado, que como conta a história, foram colocadas pelas pequenas mãos dos filhos dos escravos, o que me torna clara as irregularidades das suas formas, pois carregam o sofrimento e a subjugação de outrora. Para mim, a sensação de escorregamento é para mostrar que todos – grandes, pequenos, homens, mulheres, brancos, negros, moradores, viajantes – estão sujeitos à queda do mesmo jeito. Puro resultado da fragilidade da infância aviltada, que encontra assim um meio de soar o grito de inconformidade ao fazer todos os que ali passam, terem que prestar atenção ao seu traçado, cheio de medo e coragem. O primeiro passo é quase sempre desavisado, o pé vai de encontro sem cuidado e somente ao perceber a possibilidade da queda é que os olhos olham para baixo e fitam tentando encontrar um jeito de andar sem o perigo, buscando a estabilidade que não existe. E aí, o recado já está dado, é como se todas as pequenas mãos que um dia foram responsáveis por aqueles desenhos encontrassem um breve momento de escuta, de justiça, de aconchego. Nos dias que se seguiram, as belezas naturais me afastaram das tuas entranhas, uma praia selvagem ao sul com cachoeira à parte e um passeio de barco pela tua baía, me fizeram ver-te apenas no escuro da noite, andando perdida pelas suas ruas, como se a procurar o que eu nem mesmo conhecia… Mas foi no terceiro dia que eu tomei coragem e sai à luz do dia a te desbravar, como um bandeirante na paisagem desconhecida, pressentindo o cheiro da vida e a olhar com curiosidade e expectativa tudo de novo que diante de mim surgia. Foi um ritual mergulhar na sua paisagem para dela sentir a tua essência, tentar te definir, encontrar alguma razão para esta tua aparência dissimulada e inesperada de menina e senhora, como se o tempo para ti fosse mero acaso, incorporado ao mar tranqüilo que abriga teus barcos no cais do porto, todos parados. Os nomes neles inscritos me deram a idéia do infinito que abriga a tua identidade. Banzai, Sétimo Céu, Orpheu, Ponta Grossa, Maria Maria, Nativo, Corina, Albatroz, Caminante, Terra à Vista, Sonho Meu, Estrela da Manhã, Antígona, Sete Mares, São Benedito, Rei Cigano e o que para mim restou mais claro e enigmático – Sem Destino – como a mostrar que aquela minha vontade de defini-la era mesmo apenas uma ilusão sem porto de chegada, um desatino. O canal que te corta, com as pontes a ligar as duas bordas e os barcos a transitarem sem parar nas tuas águas é como uma veia a pulsar teu sangue de um órgão para o outro para levar a vida aonde ainda não se tem nada além do lodo. Lembrança de mangue, simulacro de lama que mostra a origem da terra que te sustenta e dá forma. Andar pelas tuas sinuosas ruas, dar de cara com a Praça da Matriz, bonita e imponente com os casarões gravados com os símbolos estranhos que não compreendo, mas que me mostra a razão do teu apreço, figuras coloridas a enfeitar a paisagem do recomeço. A chuva fina intermitente me dá a sensação eterna do escorregamento e me lembro das crianças. Elas não me saem do pensamento. Olho para a porta da Igreja da Nossa Senhora dos Remédios e nela entro, quando avisto o seu interior, a surpresa me invade e as lágrimas rolam na face. Simplesmente, não entendo. As cores são tão estranhas, tão diferentes que combinam com a Ave Maria que soa lá dentro. Azul turquesa, amarelo ovo e o rosa salmão das flores de plástico espalhadas pelo salão. Bonecas de crianças a imitar anjos, de todas as cores, loiros, morenos, negros e ruivos, a formarem arcos em volta do altar. Anjos crianças a brincar. É como se os filhos dos cativos que haviam feito o calçamento, tivessem naquele momento se transformado e lá estavam sorridentes, esquecidos da sua dor, da sua imaginária corrente e eram símbolos da pureza latente, sempre presente na agonia, não importa a sua patente. Saio emocionada e ainda sem entender direito a experiência do teu beijo vejo outra igreja e decido nesta também entrar para sentir novamente o seu toque no meu coração. Esta é a Igreja da Nossa Senhora do Rosário, dizem que era a igreja dos escravos. Lá é tudo mesmo pequeno, diminuto, como se a tortura e o preconceito estivessem escarrados nas pedras das paredes. O amarelo também está presente, porém mais fraco. A impressão de luz ausente, do grito paralisado e as imagens que lá estão, são ícones da perfeita incompreensão da história da escravidão, memória que ainda não encontrou forma para ser tratada com acerto e precisão neste país tão ambíguo e sem direção. Sentir o ar que te rodeia é respirar profundamente o peso das histórias vividas, o marco das vidas sofridas, o indício da riqueza usurpada, o símbolo perfeito do país dividido entre o que foi e o que o ampara, a confusão da sua própria essência de valente e ausente, altivo e doente, corajoso e impotente. No Largo do Rosário, me sento perto de uma árvore e o fim abrupto do calçamento, a dar margem para o canal, mostra mais uma vez como os seus limites são surpreendentes, inesperados e emolduram de forma perfeita a fotografia da imagem de um cartão postal. Uma harpa soa ao longe e a música dá mais vida ao lugar que cheio de histórias, vidas e passado mostra seu cansaço e a disposição de descansar. Deixar de ser imagem parada para dar vida àqueles que buscam na sua beleza a inspiração para suas vidas. Pessoas que como eu, sedentas de identidade e referências, no fundo não vêem conhecer as tuas histórias, mas compreender as suas próprias memórias, do beijo mal fadado, do hálito amargo, da dor do abandono inexplicado e da necessidade de compreensão do olhar solitário. Do Largo do Rosário não foi fácil me afastar. O seu clima de verdade e aconchego conquistou a vontade de me encontrar, mas um chamado externo me fez voltar às tuas ruas. Meio a vagar, sem saber que direção tomar, andar e olhar, prestar atenção nos nomes, nas casas, nas cores, nas árvores e claro, nas pedras a pisar. Durante algum tempo, ainda permaneci a caminhar. Mas já havia me perdido definitivamente, não havia meio de me encontrar em ti. A chuva voltou forte, quase um dilúvio e me escondi em um café. O momento havia passado e eu sabia que ele não voltaria mais. Não naquele dia, naquela frente fria. Talvez em outra via, no futuro da dureza da sua impaciente nostalgia. Foi aí que entendi o teu recado. Era o que tu tentavas me dizer de bom grado e eu, surda e ensimesmada, me neguei a ouvir, sem nenhum afago. Tu não poderias me dar a resposta do encontro, pois isso significaria a abstinência do abandono do meu corpo para as suas ruas, a incontinência do desespero da minha tristeza a desaguar nas tuas águas paradas e cruas. Compreendi então que a tua mensagem de dubiedade, de indefinição de essência é a tua maior riqueza. Era ela que me dava a certeza da inexistência de clareza e assim da certeza da sua eloqüência. Querida menina Parati, te agradeço por sentir o seu hálito. A tua voz e beleza irão ecoar nas minhas lembranças exatamente com a dubiedade que me ensinastes a sentir, velha dama, eterna senhora para mim.

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