Dossiê OCUPM – Serviço Nacional de Desinformação

Há, ao menos, dois modos de tratar um evento de que não se concorda. Um primeiro é simplesmente deixá-lo desaparecer, silenciar a respeito, mencioná-lo brevemente quando for impossível ocultá-lo – é o que se faz a respeito da calamidade dos presídios, sem-tetos, camponeses, indígenas – populações subterrâneas ameaçadas pelos centros de violência, repressão e poder nos rincões do país.

Mas há um segundo, que procura monopolizar a narrativa, tipificar seus personagens, jogando na inconsequência a posição adversária. Aliado a isto, está também a ideia de escutar o “senso comum”, sem trazer vozes dissidentes, isolando a oposição como “baderneira” que não quer falar, que é contrária à própria mídia. Eis a posição adotada pela mídia hegemônica no que diz respeito aos confrontos entre policiais e os estudantes da USP.

A primeira questão que fica é: por que não adotou a primeira estratégia, do isolamento?

Não é de hoje que estes centros de informação(?) vêem o movimento uspiano como adversários do imaginário “São Paulo maravilha”. Nas reivindicações de professores, funcionários e estudantes em greves cíclicas o que se denuncia é a decadência contínua dos processos de formação, dos pólos de pesquisa ou mesmo dos processos privatizantes que fazem da vida acadêmica uma verdadeira “corrida de ratos”. Trata-se, enfim do processo de precarização dos espaços públicos de conhecimento no estado de São Paulo. Lugar bem diverso da grande imprensa, extremamente privatizada (lembremos as poucas famílias que detém o latifúndio midiático) que arrogam o direito de falar pela “opinião pública”, proliferando a informação e as imagens de um senso comum raivoso, contraditório, viciado na lógica da moral e bons costumes de uma sociedade extremamente repressiva e hipócrita.

Portanto, não é mais possível à mídia hegemônica deixar de lado o seu oposto, isolando-o. Na luta pelo espaço público, é preciso destruir a imagem de seu inimigo. Daí, a expressão (em diversos graus) de ódio, por vezes cínica, manifesta na segunda estratégia adotada em massa pela cobertura atual dos eventos. Lembrando aqui outra estratégia da mídia “censurada” na época da ditadura, eis a receita do bolo: junte um imaginário regado à Padilha e seu herói nacional, misture alguns litros de ódio do senso comum do pacato cidadão contra baderneiros, pervertidos e drogados sem propósito; mexa tudo, muito bem, para que no fim as informações se desencontrem. Deixe aquecendo até que o caldo entorne. Pronto, agora é só servir e deixar manifestar a opinião pública desinformada.

Desde o início, a polícia militar no campus foi retratada como o agente da ordem (qual?) e da segurança (de quem?). Aos poucos, viu-se que as principais vítimas dos abusos policiais eram a própria comunidade USP (sobretudo, negros e homossexuais). Ora, trazer a polícia (uma das mais violentas, segundo órgãos de Direitos Humanos) para o campus significou trazer o que há de pior nestes serviços públicos. Isto não é surpresa: a PM apenas reproduz aquilo que sempre praticou: quando a proteção dos cidadãos de direitos passa a ser a arbitrariedade das suspeitas pautada em preconceitos seculares contra todo sujeito que não siga o ritmo normal da vida. Estes abusos foram deixados de lado pela mídia que se alia, temporariamente, com o inimigo de seu inimigo.

Sustentada a imagem da PM incorruptível, é possível verificar duas táticas de destruição imaginária dos inimigos. Primeira, a mais comum, utilizada pela mídia impressa tradicional. Configurar o inimigo incontrolável, indeterminado deste núcleo da ordem e do progresso. É o que se fez com os “baderneiros” do MST nos tempos áureos do ex-professor e ex-presidente Fernando “tapa na pantera” Cardoso. Mas há uma segunda tática, que se utiliza dos meios modernos como twitter, facebook etc. Um exemplo disso pode ser encontrado no twitter de Marcelo Taz (o queridinho da mídia e de muitos graduandos em jornalismo). Em um modo mais covarde, o mídia-man apenas aproveitou a onda perguntando: “O que os alunos da USP devem fazer após a ocupação?”; bem, não é preciso reproduzir a enxurrada de preconceitos contra o meio universitário que o senso comum de seus seguidores respondeu. Digo que é mais covarde do que a primeira tática, posto que na pergunta, o jornalista mantém sua integridade: não coloca sua opinião, apenas abre o espaço para que os outros se declarem. Nada mais tradicional e positivista do que este modelo cínico de jornalismo aparentemente “modernético”, que jamais mostra sua verdadeira face, mascarada na neutralidade e no “além do bem e do mal”.

Os jornalistas reclamam, por sua vez, que os alunos não conversam com eles; muito embora eles estejam no local dos acontecimentos, preparados para qualquer eventualidade. Aves de rapina ou anjos da informação? Estariam os alunos equivocados em não se declarar para a grande imprensa?

Ao que tudo indica, o silêncio com a grande imprensa é a melhor relação. Dada a imagem construída sobre o movimento, qualquer declaração (e, como a história ensina, até mesmo vindo de um professor notável) estaria distorcida pela disputa de antemão da mídia em vistas do monopólio do espaço público. Quebrar com a mediação da imprensa parece ser a melhor estratégia. O alvo é a opinião pública e seu imaginário, habitado por capitães Nascimento, ameaças da ordem de uma “São Paulo maravilha” que nunca existiu. Explodir os muros da USP pode ser o primeiro passo para reverter esta fantasia. Neste sentido, a questão talvez seja mais do que ocupar, mas abrir espaços.

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