Dossiê OCUPM – a USP, a polícia e os estudantes: Notas de um confronto

O problema está mal colocado. Encontramos, nos discursos prontos sobre o assunto, inúmeras razões para não concordar, inicialmente, com a atitude dos estudantes da USP de invadir a reitoria. Primeiramente, aparece o discurso da lei e ordem. Segundo tal linha argumentativa, os alunos que fumavam maconha na FFLCH seriam indivíduos desviantes e mereciam os rigores da lei. Existe até quem, neste caso, diga que Universidade é lugar de estudar, não de se drogar… Para este tipo de raciocínio, a presença da polícia na universidade é salutar. Ela impediria os crimes, entre eles, o de fumar maconha nos estacionamentos da faculdade. Os alunos estariam, para quem pensa dessa maneira, errados em defender uma liberdade que a lei não proporciona. E a resposta dos homens de poder – colocar a polícia no campus – seria mais que acertada.

Sobre esse primeiro problema, meramente aparente, sejamos sinceros.

Os alunos sabem perfeitamente que o ato de fumar maconha não é permitido. Quando se juntam e pressionam a polícia de modo a tentar inviabilizar a ação dos policiais, eles estão fazendo mais que proteger seus colegas. Estão fazendo um ato político. Discordar é um ato político. Todos sabem, no fundo, do que se trata. Estes alunos, muito provavelmente, são partidários da legalização da maconha. E, em um Estado que permite a livre circulação de idéias, não há nada de errado com isso. A cena, para quem acompanhou, não poderia ser mais interessante. De um lado, a polícia com suas armas de tiro de borracha, suas bombas de gás e, de outro, os alunos apontando livros para os policiais. É um diálogo que, certamente, não pode dar certo.

Agora, o problema da invasão da reitoria.

É preciso, sim, respeitar o ambiente acadêmico e impedir a truculência.

Só que, neste caso, respeitar a academia é justamente invadir a reitoria, tomar os espaços, se fazer ouvir. A academia, e isso deve ser colocado de maneira intransigente, é o espaço da diferença, do diálogo, do debate. Ou seja, ela tem um caráter político por excelência. Colocar a polícia para resolver o conflito é despolitizar o debate. Isso porque as coisas se configuram como se as reivindicações fossem criminosas. Abrir a Universidade para a polícia é perigoso. Temos toda uma história de desmandos que deve nos colocar em alerta para a presença da polícia no campus da USP. A violência invalida a política. Quando se age violentamente para sustentar uma posição, é sinal que os recursos do diálogo, da razão e do convencimento, já não podem mais surtir efeito. Em outras palavras, quando os homens de poder mandam a polícia para resolver o assunto, o recado foi dado: nós não conversamos com vocês!

É essa posição, a do não-diálogo, que no fundo é uma posição autoritária, que inviabiliza uma democracia efetiva. Alguém andou falando por aí que, somente assim, os jovens vão aprender o que é a cidadania. Pois discordamos veementemente. A ação truculenta nada ensina de cidadania. Pelo contrário, ao inviabilizar o debate, ela faz um desserviço ao real significado de uma Universidade.

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