Dossiê Caetano Meloso Exclusivo: Capítulo inédito da “Verdade Tropical!”

 

Tropical de Verdade. Post-scriptum ao meu Verdade Tropical.

Estava outro dia nos estúdios da Sony Music na Califórnia, quando Chris Brown, produtor de Justin Bibber, perguntou se eu gostava mais de falar, escrever ou cantar. Ele estava interessado em lançar a autobiografia do menino fetiche e eu, com meu show Obra e progresso, comentando os jornais. Era ideia de Ali Kamel que mudasse um pouco o show, os críticos não aguentam mais um banquinho e um violão. Danem-se os críticos, respondi.  E segui o seu conselho, convencido de que não era mais época da melodia. Desde Santo Amaro fui um interventor tropicalista. Lelena lembra que nas críticas de cinema que fazia, queria mostrar ao público algo novo, misturado, que saísse do rococó das fazendas e das cidades. Se falo, se canto ou se escrevo, respondi, é para ter uma única voz. A frase podia soar como de efeito em inglês. Chris agradeceu a resposta. Dois meses depois estava nas prateleiras o livro, e nos cinemas o filme, auto-biográfico do pequeno e belo Bibber. Fui assistir, curioso, o efeito daquela juventude autobiografada. Era correta demais, um tipo que poderia ser bem substituído pela Sandy. Mas mais do que tudo, Justin fez pensar em mim. O percurso de Verdade tropical estava incompleto. Definitivamente, não queria esquecer o que escrevi. Mas completar o dito pelo que ainda havia a dizer.

De 1997 pra cá, muita coisa mudou. 2004, não aguentava mais escrever em site oficial, ouvindo a sabedoria sempre renovada de Gil (Criar meu web site / Fazer minha home-page / Com quantos gigabytes / Se faz uma jangada / Um barco que veleja). Talvez meu barato não venha daí. Apaguei agora pouco meu blog Ordem em Progresso. Escrevo em jornais, que me convidam para tirar a prova de minha opinião. Hoje, fico ao lado da belíssima Gadú, sangue novo da novelle music, delicada demais para ficar só nestas terras quentes e boçais. Não quero me limitar ao público velho, cantando as mesmas coisas ou bossas remanejadas sobre peitinhos de pitomba, como muitos amigos da minha geração. Surfar, rockear, curtir o que vem de novo e se misturar com ele – coisas maravilhosas do tropicalismo.

Desde então, duas décadas, e a verdade tropical de um país sem nome ainda continua. Em 1997, estava colhendo os frutos de uma nova onda criativa que começara em 1995. Era época de ilustração, e sentia que o projeto do tropicalismo poderia virar empresa. Estava há muito apanhando das gravadoras. Exigia meus direitos, briguei diversas vezes com Chiquinho Weffort, amigo inteligentíssimo, crítico do populismo lula-varguista, por quem tenho o maior apreço. Até hoje, lembro das nossas reuniões em Brasília. Ele estava distante em sua posição de ministro. Discutíamos as desvantagens da Lei Rouanet, que se aperfeiçoava naqueles tempos. Gil estava comigo lá, um pouco encantado com tudo aquilo. Pela primeira vez, gente do governo nos levou a sério. Era gente esperta. Se o Brasil era um país sem nome, sejamos o lobo do lobo do homem. Inventemos uma marca. E a gente séria do ministério (não eram todos, verdade seja dita) percebeu a importância de lançar este nome. Não podia ser algo nacionalista, dos tempos de Getúlio – isso é o que concordávamos. Mas não podia ser algo sem grana, puxava já a sardinha o sensual e belo Barretão. Discussões difíceis aquelas. Estavamos reinventando o país. O Brasil estava próspero e a grana rolava, sem partidarismos, entre os nossos. A Lei Rouanet seria boa pra diversas áreas em frangalhos. Mas não para a música. Por isso fiquei puto quando uma repórter da nova ordem midiática veio me perguntar anos depois sobre minha ligação com tudo aquilo. Mentira! Estava do lado de fora, criticando aquilo que sempre ajudei a construir.

Mas é preciso falar destes anos tão esquecidos, apagados pela nova poeira do analfabetismo que os linguistas do Brasil defendem. Era de ilustração, era FHCê. Já comentei com ele, não gosto de idolatrias. Mas é preciso dizer como o projeto Brasil, um país com nome, começava naqueles tempos. Estive menos vezes do que queria com o FHCê, quando este se tornou presidente por acaso. Senti saudades quando, no exílio de Londres, ele e Ruthinha vinham em casa, falar das novidades. E como falava bem das desgraças do país! Eram tempos difíceis, mas sua análise acalentava. Planejava desde então seu retorno soberano, como um Alexandre após conquistar o mundo. Ruthinha ainda o acalmava quando falava demais dos seus desejos. Glauber sacou bem a sensualidade daquele homem. Queria transformar o príncipe da sociologia no índio Peri. Na década de 1990, agora presidente, por acaso, não o via mais. Eu não tinha tempo com a agenda lotada de shows que fazia no Rio de Janeiro, Sampa, Europa e América. Certa vez, Ruthinha me ligou, convidando para festa dos 70 anos do presidente. Perguntou se não poderia ir ver o amigo. Não queria ir. Se fosse teria de tocar antigos sucessos meus – isso me estafava. Foi o que disse a ela. Depois de um tempo, Fernando me liga e me convence, como sempre me convenceu, de participar da festa. Fui e não toquei. Pude conversar com muita gente que não conhecia e que gostaria de me conhecer. Ao fim da festa, FHCê abriu um Hermitage La Chapelle 1961, muito propício para a ocasião. O gosto era doce e a conversa agradável. No fim não me convidou para ser ministro, mas queria algumas consultas.

O projeto “Cultura é um grande negócio” era o estopim de uma revolução de costumes que poucos perceberam. Da noite para o dia eramos avançados. Nem o mais louco europeu percebeu a convergência entre arte e indústria como Chiquinho Weffort. Ligamos para comemorar. O pessoal do cinema ainda mais. Falei com o Almodóvar, que pretendia me chamar para uma trilha. Desta vez, eu cantaria e seria filmado. Escolhi uma boa música, romântica. Era perfeita para a cena, disse Pedrinho. Eu particularmente não gostava, era muito sentimental. E eu queria me afundar no Brasil. Alastrar o tropicalismo. Encontrei na Bahia uma nova fonte. Estava muito distante, em um exílio voluntário. Gil às vezes comentava das coisas novas. Foi no Bar da Cida, em Salvador, esperando Gil, que descobri um novo talento. Furacão musical, belas pernas (bem melhores que as de Chico), voz baiana e beleza rara. Ivete abalou. Fomos eu e Paulinha falar com ela. Ainda no início, estava com medo de subir no Trio elétrico. Não sabia o que cantar, o que falar. Ensinei a ela e hoje é o sucesso. Se fala de Brasil, não se pode deixar de falar em Ivete. Presente em todas as parades, show encarnado de energia. Nunca tinha visto a pipoca de Salvador voar tão longe. Era tempo de axé e não havia verão no Brasil que não tocasse uma música de Ivete. Realmente era época de efervescência cultural. Gosto das músicas que ela interpretava tão bem: tem cotidiano, tem crítica, fala de povo de modo direto, como toda música tinha de ser. Era um pouco o que Zezé de Camargo, outra revelação, comentava. Foi no show de fim de ano da MTV que eu o conheci. Ele queria cantar Ivete, eu faria a segunda voz. Achei que não ia dar certo. Fiz a primeira voz e ele aceitou a segunda.

Naqueles tempos, só quem não entendia nossa proposta eram os letrados da USP. Nunca entenderam no tropicalismo dos 1960, não era surpresa não entender agora. FHCê já me advertia com isso. Mas não posso viver sem polêmica. Zé Miguel iria interceder. Falaria da Verdade Tropical, tentaria reverter os pontos. Mas a patrulha ideológica era pesada. Saiu como entrou: cada um na sua opinião. Foi o que Zé me disse ao telefone. Mas qual a polêmica? Até hoje não sei ao certo o que afeta a estudantada da USP. Vive como se ainda eu e Chico brigássemos por um Festival. Em resposta, fiz shows e mais shows, convidei amigos, regravei músicas de novela da Globo (um produtor queria chamar o disco de  CaetaNoveloso, mas proibi), intercedi com os Marinho para participar da grande festa dos 500 anos de descobrimento do Brasil, um país sem nome. O momento era difícil, acusavam o governo de privatizar a cultura. Eu e alguns poucos não aceitávamos. Criamos nossas músicas, nossa indústria, não éramos o governo. O Estado, ora o Estado. Por conta desta confusão, um índio, tranquilo e infalível, chegou a ferir um de meus músicos. Brutalidade que me fez perceber: o Brasil estava mudando.

Em 2003, tudo mudou. Falavam que a esperança venceria o medo, atacando covardemente Regininha Duarte. Mantive-me afastado do poder. Falava pro Gil fazer o mesmo, mas ele não me escutou. No fim, deu tudo certo. Ele com seus pontos de cultura, seu do-in cultural. Coisas do Gil e da antropologia chinesa. O pessoal da EMI não entendia direito o que se passava. Gil não queria gravar, queria fazer-se ministro. Eu não tinha muito o que oferecer. Liminha, certa vez, em um de nossos vôos para Nova York, reclamava da falta de espaço para artistas. Tentei lançar novos talentos. Comecei por meu filho. Tinha tino musical, aquela balanço antenado do neo pop vatapá. Era época de lançar filhos. Foi assim com o do Jair Rodrigues, com a da Elis, e até mesmo com a Vanusa. Tudo revisitado. Um anti-tropicalismo, mas ainda assim… Passei outro dia, na garagem de casa, e estava a banda dos amigos de Zequinha. Olhei bem para tudo aquilo. E pensei: por que não? Eram jovens com talento. Tinham o novo no sangue. Tinham estudo musical. Tinham linhagem. Alguns vinham com padrinho. E se…, e se…, Banda Cê. Tinha tudo a ver com o que falavam de mim na época. Lembro de uma paródia do Chico Anysio, não dos “Velhos Baianos”, mas de outro quadro em que o suposto eu e um suposto Gil balançavam na rede, com uma conversa boa ou não. Mais do que “ou não”, prefiro “cê”. É a força da hipótese, da abertura, da palavra ainda a ser dita.

Muita gente aprovou minha nova atitude. David Byrne, quando esteve naquele show triste da MTV, já tinha me dado a letra. Sempre prestei atenção no que ele diz. Isto não é idolatria. David é carne, osso e música. David percebeu que finalmente haviam entendido meu talento. Prossegui com a banda, fizemos uma turnê maravilhosa. Mas ainda tinha um passo a mais a ser dado. Noso século, uma nova etapa. Em , pude ver o quanto os jovens estavam ligados nessa velocidade virtual que é a internet. Enfrentei a fera e fiz meu blog “Ordem em progresso”. Junto com isso um novo show. Senti-me à vontade para dizer o que pensava no palco. Não era mais um cantor e compositor, pude dar vida ao show, lendo jornais variados. Um show sem música. Selecionei algumas notícias, até mesmo as que eram contra mim. Lembro-me que na estréia comentei o Lobão, pulei os absurdos. Comentei a parte mais interessante, com pausa e risos da plateia. Ele me achava mais legal que o Gil. Foi muito bom este contato com o público e a mídia. Falava de qualquer coisa que me interessava. Dava um passeio pelo mundo, sem sair do palco. Na internet, tinha tudo quanto era manifesto. Contra ou a favor, todos visitavam, xingavam e eu aprendi a ler estes comentários. Cansei um pouco de alguns, aprovei a maioria. Pude me aproximar de todos, até dos inimigos.

Mas a leitura de jornais me aproximava da mídia de um jeito novo. Disseram que a minha leitura era superficial. Foi uma das críticas daquele jornal vagabundo que todos adoram. No New York Times, comentaram com cuidado. Apareceram algumas páginas. Mas preferi ler os jornais ao invés de esperar por eles.

Tenho hoje 69 anos. Acho que, como dizem, fiquei velho e posso dizer o que bem entendo e deixo de entender. Falo descompromissado com os outros. Tudo o que digo é para mim mesmo. Às vezes, extrapolo. Minha mãe que o diga. Mas não gosto de idolatria, não gosto de deuses equivocados. Tenho Nietzsche na cabeceira e um porrete na língua. Vivo disso e a patrulha ideológica quer às vezes cercear a palavra. Se quero ser autor, e defendo isso, logo me jogam na cara que não posso. É canalhice da esquerda, argumento torto de gente estúpida. Mamãe já me disse pra não falar tanto assim, do jeito dela. Ela não me repreende, só quer separar as coisas: o que ela pensa e o que eu penso são coisas distintas. Mas quero o melhor para a língua. Não quero um governo que fale errado, que sequer saiba concordar substantivos e adjetivos. Não quero um povo que ache engraçado os meus comentários. Não quero um povo morto. Já inventei demais. Quero um povo com nome, com marca, com autoria. Um povo tropical de verdade.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *