Dois Poemas – Poesia

Esgoto   Um esgoto corre dentro do meu corpo, do meu centro, e dita o meu mau comportamento. Ao sabor das águas sujas, salivo e cuspo e de novo sorvo. Verso insensatamente o maldito rito: celebração e culto. Trôpego, cairia; mas a minha idolatria tem um deus que não se faz representar e me carrega. Resto eu e mais um copo, e o reflexo, ao fundo, revela um crente sem cerne, sem centro. Revela um inocente.     Titeragem   Uma oração baixinha: balbucio sílabas incompreensíveis… E este último sopro de mim me lembra a cigarro. Mordo os lábios que beliscam meu lábio, inferior. Sou digno de escarro! Se me deseja, veja quem sou: brinca um pouco comigo! Pois este último sopro, no seu rosto, é um gesto de despeito, de quem ama sem ser visto, quem deseja sem ser eleito, quem se entrega para ser partido  

Gustavo Furniel é crítico, escritor e advogado formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Cursou ainda Filosofia e Letras na USP e na Unicamp.

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