Diário de um escritor – Prosa

Eu já a conhecia. Ela só conhecia meu livro. Eu tenho medo de avião. Por isso

demorei pra aceitar a proposta. Sentei num banco antes de entrar. Aquelas

perguntas, livrarias, as pessoas. Entrei. Achei um tabuleiro de xadrez montado num

dos fundos da loja, na seção de esportes.

Tinha formigas no tabuleiro. Formigas. Tinha formigas em casa. Na minha mesa.

Apareciam sozinhas as vezes acompanhadas. (Sozinha no plural: sozinhas? – rio da

piada. Rio?) Alguma criança comeu em cima do tabuleiro. Havia uma criança em

casa. Eu não tinha filhos. Nunca tive filhos.

Aberturas – Alekine, era um alcoólatra. Sua abertura, a mais poética do mundo – um

cavalo que dança, que provoca os peões, que chega muito perto da dama, audacioso,

única peça que se movia em 5 lances, 6 lances, um cavalo contra o exército todo, o

elefante no lugar do cavalo, no início o xadrez tinha peças diferentes das atuais.

Tinha elefante na estirpe do xadrez. O único defeito do elefante é não ser portátil –

(eu disse isso?)

O quê?

Nada.

Jogando sozinho?

Assim é mais fácil ganhar

Assim ninguém perde

Você tem filhos? Eu não tenho. E não perguntei isso aquela hora. Não faria sentido.

Eu tinha levado livros pra ela. Ela trabalha numa livraria. Porque alguém daria

livros a ela? Eu sou mesmo um marmota.

Variante dragão chinês: fianquetar o bispo na ala do rei. Domínio do centro. Essa era

uma das aberturas duras. Essa era prosa. Cada movimento suspenso no próximo.

Cada linha amparada na próxima linha de raciocínio. Previsão – Prosa. Abertura

Siciliana na Variante Dragão. Os escritores só falam deles mesmos. Não há

legitimidade ao falar dos outros, de criar mundos, de viver à parte – que grande

bobagem.

Um marmota que gosta de nariz. Como eu gosto de nariz, meu deus. E olha esse

nariz. É o nariz mais bonito que já vi. Gogol e os narizes que moram na lua, todos

eles. Eu gosto mais de nariz do que de buceta. Eu disse isso?

– Você gosta de café?

– Eu gosto mais de café do que de buceta

Puta merda, isso tenho certeza que eu disse porque ela gargalhou.

– Você gosta de café?

( eu queria contar da receita que tinha aprendido ontem com vinho e leite

condensado e do quanto eu queria tomar 20 litros daquilo com ela, num quarto, só

nós dois trancados do mundo)

– Eu tomo

– Legal

Eu não tinha visto Alice e eu não disse isso. As brancas sempre levam vantagem.

Superioridade temporal apenas. Elas começam. As brancas sempre começam.

Axioma. Os que começam. Os que tomam iniciativa. O mundo é deles. Eu. Eu quero

ter iniciativa.

Quer casar comigo? Eu quero você, mulher. Quero você menina. moça, senhora,

senhorita. Nada. Não disse nada. Eu não tenho iniciativa. Eu jogo de pretas. Empate

pra mim é vitória.

Queria dizer que ela tinha o sorriso mais bonito que eu já tinha visto na vida.

Que eu não escrevia nada, depois de 10 anos da publicação de a Hiena Chorou porque

eu não tinha vontade. Que a minha vontade era ela, que ela era diferente, eu sabia.

Eu queria dizer que preciso tomar um remédio, pra perna, que em breve tomaria o

remédio e que um desses remédios poderia me deixar em choque. Mas ninguém

gosta de homem doente. Eu poderia entrar em choque e morrer. Mas ninguém gosta

de gente com pressa. Morrer. Ninguém gosta de gente que morre.Eu tenho pânico.

eu tenho pressa. Eu vejo pessoas mastigando ao meu redor, só os maxilares

maxilares? maxilares maxilares até não fazer mais sentido maxilares maxilares

maxilares ao infinito

Eu queria dizer que o psiquiatra me deu lexotan e lítio pra desvio bipolar. Mas que

nenhuma mulher gosta de polaridade.

As formigas vivem em todo o mundo. Menos no pólo. Elas representam 20% de toda

a massa viva do planeta. É como um homem sem cabeça. Nas mesmas proporções,

20%. Eu não tinha cabeça pra escrever mais nada. Ninguém gosta de homem que

perde a cabeça. Ninguém gosta de escritor que não escreve. Formigas?

Eu queria dizer que o neurologista indicou fluoxetina. Mas ninguém gosta de

depressivos. O clínico geral indicou amoxicilina. Mas ninguém gosta de infecciosos.

Eu tinha febre, ali, olhando pra ela. Febre por causa das bactérias? Febre por causa

dela? Faz diferença? Eu tinha febre. Eu queria dizer que a nicotina fora vontade

própria.

– Você já matou alguém?

Você disse isso?

(quer ir ver alice?) eu não falei nada.

É o concurso é anual.

Mas eu não tenho conto. Eu tenho coisas e um romance.

Qual a diferença de conto e romance?

(romance é eu e você no hotel fechado – mal sabia ele que o filha da puta já tinha

escrito isso – ele psicografa vivos)

A forma

(você usa óculos? Ela devia usar. Será que fumava. Não tinha dentes amarelos. Não

tinha olhos amarelos. Eu quero você pra mim. Se é tão bom porque só pra você, não é

egoísmo? Eu não sou moderno. Eu não escrevo um romance por mês. Eu escrevi a

Hiena Chorou há dez anos atrás.)

Eu vivia rodeado de imbecis. E de insetos. Meu apartamento era uma sujeira.

Formigas. A rainha perdia a asa depois da cópula. Que imagem. Que gênio.

A rainha do xadrez ou a rainha do formigueiro?

Você disse isso?

Após a fecundação, os formigas machos não podem entrar no formigueiro, não

podem rever as parceiras, não podem dormir juntos, e por isso morrem, geralmente

morrem rapidamente. Eu e as formigas. Eu e as enciclopédias. Eu e Voltaire. Eu e

meus nomes falsos. Eu e os personagens. Eu e as pseudovidas. Pseudopeles.

Animalia, Arthropoda Insecta Endopterygota Hymenoptera Apocrita Vespoidea

Formicidae:

Do Rubem Fonseca? Claro claro, ele é bom.

Quando eu queria mesmo era ter dito:

você cozinha? Quer cozinhar pra mim, eu leio poemas pra você – eu me sinto muito

só, uma solidão de apertar a garganta e faltar ar. Falta ar. Faltar. Falta. Por isso que

eu fumo, a fumaça é um tipo de ar. No ar existem milhões de substâncias tóxicas. A

vida é tóxica. O ar é invisível. Eu vejo muitas vidas na vida. Não vejo nada no ar.

Você já viu Alice?

Eu? – como se não tivesse entendido a pergunta

Eu não.

Ah, é legal, vá ver – eu menti. Eu não tinha visto. Eu queria ver alice com ela mas

imbecil me despedi e corri pro meu apartamento, pra minha armadura, pra minha

caverna. Eu jogava de pretos. No xadrez as brancas sempre começam.

Saí da livraria e na esquina um garoto, de uns 17 anos, sujo, camiseta xadrez surrada,

gola e punhos encardidos, cheirando a urina. Não era urina, era cerveja quente, o

cabelo engordurado, uma quase barba querendo brotar da pele. Era eu há pouco

tempo. O passado me pediu um cigarro. Ele se virou, tragando, alongando as costas,

olhou pra trás, não mancava, entrou em seu Uno velho. Abriu o vidro e saiu

pedalando, acelerando, fumando. Meu passado. Quando ainda escrevia. E eu voltaria

pra casa. Pra caverna. Pra armadura. Escafandrista. Enxadrista aposentado. Pra quê

uma casa se não se tem um lar? Se não se tem uma família? Formicidade.    

Diego Alencar, jogador de poker sem bankroll. Jantava com o Machado. Almoçava nu com o Nassar. Flertou com a Hilda. Queria ser Lourenço Mutarelli. Escreve pra conhecer a geografia. Vai compor o mapa de 1:1 – que não é preciso.

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