Diário de um detento – 20 anos depois

01 de outubro de 1992, 08 horas da manhã. No rap escrito pelo ex-detento Jocenir, as referências são várias e os Racionais MC´s surgem com a força criativa para descrever a tragédia. Oficialmente 111 detentos foram mortos em confronto com a polícia militar, sob o comando do Cel. Ubiratan – morto por sua própria arma em condições controversas. Foi sentenciado pela chacina, embora logo liberado da pena de 632 anos de prisão, alegando que apenas estaria seguindo ordens. Ordens de quem? Ninguém sabe, ninguém viu…

Quando o mistério continua em aberto, ele não é esquecido. Mesmo porque os atos falhos da razão na história sempre acontecem. Ao repetir a frase do governador Geraldo Alckmin – que afirmou que “quem não reagiu, está vivo” a respeito da chacina policial pela morte de 9 suspeitos (sic)  e procurados – o governador Fleury não está praticando o humor da ignorância. A repetição da frase é a repetição no tempo. Os prédios do Carandiru caíram (deixando alguns como memória), grupos de teatro interviram nos corredores sombrios da cadeia, mas o fato persiste.

O genocídio popular de ontem continua. Fleury sabe disso e, neste sentido, repete a frase de Alckmin sem incômodos: não há plágios nas atrocidades de um e de outro. É apenas a história repetindo o ciclo de violência que sustenta a sociedade em que vivemos. Na mesma medida em que satisfaz uma classe em ascenção, apontando para um sistema que funciona, é preciso calar a boca dos que não entram na roda. Isolar quando possível, enterrar quando preciso – duas ações em que os limites não são muito claros e são aparelhadas por uma agressividade desmedida. É o exercício da barbárie que não é sombra da sociedade, mas sua lei mais ampla.

 

Na contrapartida, Diário de um detento continua vivo. Sua estrutura é marca. São os Racionais compreendendo seu entorno com a força da batida e das mesclagens de referências RAP. A escolha do autor da letra é fundamental. Se o massacre ocorre em 02 de outubro, por que iniciar a música um dia antes? Aliás, por que terminar a música em 03 de outubro? Este diário de 3 dias é a marca no tempo: o detento no passado, presente e, se possível, futuro.

No passado, a astúcia de compreender de onde vieram os detentos. São várias histórias e várias relações. A primeira, o olhar do vigia: o que faz do detento, um detento (e não um cidadão em reforma); qualquer movimento errado é motivo para o castigo – é preciso aprender a ser vigiado ininterruptamente. O detento pensa nos que estão lá fora, lembra da família e manda a mensagem para os garotos da quebrada “enfiarem seu currículo do crime no rabo”. No imaginário do herói bandido, o autor não faz apologias. Sabe que não há santos no sistema, sabe que Lúcifer – diabo de moral – não passa de mais um número. Tem também o olhar de quem vê os presidiários do lado de fora, que passam no metrô em direção ao centro; olham de lá como se fossem distintos, como se o Carandiru fosse um zoológico e o valor de quem ali está é menor do que os seus bens de consumo. E, por fim, o olhar interno: com as ameaças, as vontades e, na voz do narrador, a vontade de sair. Neste cruzamento de olhares, o sistema carcerário é cristalizado. E um caldeirão de violência se prepara para o dia seguinte: 02 de outubro.

Dia do massacre, a brecha que o sistema queria. Não se trata de um plano arquitetado, mas da ocasião que “fez” o ladrão. No território descrito anteriormente, a população carcerária não é aquela pintada pelo Dr. Varela e o cinema de Babenco. Não é uma vida dentro da vida, mas uma população largada, um grande limbo em que se faz valer a lei do mais forte. São muleques primários vestindo a lealdade, usando da violência para ter paz. Diante da briga de dois grupos, o descontrole do comando policial. Na versão oficial (leia-se: das instituições governamentais) foi uma privada que tirou o comando. A peça caiu na cabeça do comandante Ubiratan, que desmaiou. Enfim, longe de ser uma corporação organizada, a Polícia Militar mostrou-se uma massa enfurecida, pior que uma torcida organizada: um corpo armado e violento sem cabeça – como se isso fizesse a diferença. O governado Fleury, que é o comando das forças policiais do Estado, oculta-se – este é o plano perfeito para reduzir um problema essencial: a população carcerária crescente. Uma prisão que funciona autônoma, mas encontra seus limites por engolir mais corpos do que é capaz e, ao invés de ser repensada, procura eliminar o excesso ao acaso. Assim foram 111 (há quem diga um número maior). Assim, a polícia “chega chegando”, e faz o seu normal: a exceção do abuso do poder, as chacinas, a verdadeira ROTA de São Paulo. Nem foi preciso o comando, agiram por hábito.

E chega 03 de outubro. Encerra o diário. O detento se pergunta quem vai acreditar em seu relato. Na dúvida, a verdade: até hoje não há condenações do massacre. Porque o massacre continua: o ciclo não se fechou com a demolição do Carandiru. Apenas se deslocou. Por isso, não nos iludamos: há uma diferença fundamental entre o lugar em que Fleury e Alckmin vêem a sobrevivência dos que não reagem. Fleury procurou desfazer do excedente carcerário internamente, nos corredores e celas do presídio. Alckmin, de fato, derrubou os muros. Ao fazê-lo ganha a força simbólica de não dividir mais os espaços. Não é preciso eliminar os que estão dentro da prisão. A queda do Carandiru apenas expande o seu sistema também para as ruas. Não há limite para a caça policial. São os que restam dos despejos, os que vivem na periferia, os que, pela lei da vida, reagem de algum modo aos caprichos do Capital.

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