Depois da festa, os despojos.

Este ensaio visa recuperar as questões que levantamos em BaixoCentro: uma festa e nada mais (veja o texto aqui). O texto problematizava o festival BaixoCentro (que acontece entre 05 a 14 de abril deste ano) levando em consideração dois pontos: o seu modo de organização e o sentido de sua ocupação.

Apoiado na análise dos textos do Passapalavra (veja aqui, aqui e aqui), caracterizávamos o evento como um “fetiche da festa”, procurando entender um evento que se apresenta como alternativo – sem financiamento público ou de instituições privadas, mas por pessoas – enquanto um modelo aprimorado do capitalismo cultural.

Nada contra as festas. Elas são fundamentais para o convívio social. Algo que explica, em parte, a vontade de alguns que apoiam eventos como o BaixoCentro. Sobretudo, quando nas tenebrosas épocas das subprefeituras militarizadas de Kassab e Serra, uma série de atos repressivos tinha como alvo preferencial justamente estes locais de convivência: de uma inocente praça de skatistas a saraus nos botecos de periferia (sobre este, veja nosso artigo aqui) nada parecia estar impune. Como protesto, sobretudo nos núcleos mais próximos da classe média paulistana, a festa seria a melhor resposta (diga-se de passagem, os saraus na periferia paulista continuam sofrendo com a repressão, o que não implica uma ausência de luta nestes lugares).

Por que fetiche?

Pois bem, o BaixoCentro apareceria como uma alternativa a tudo isso, ao estabelecer um espaço de convívio cultural, capaz de quebrar a rotina de alguns, fazer com que corpos adormecidos voltem à vida (as ruas são para dançar, dizem), ocupar o Centro de São Paulo com arte e amor.  Entretanto, e os problemas aparecem aqui, há que se pensar que – como em qualquer indústria do lazer – há quem faça o trabalho (os artistas), há quem o organize (os cuidadores), há quem se divirta com isso (os participantes da festa). O montante, que ultrapassa em cerca de R$ 10 mil o esperado pelos “cuidadores” do evento, chegou ao valor de R$ 72.750,00 – valor doado por 1.920 pessoas através do sistema de financiamento crowdfunding  e outras formas de investimento independente (segundo dados do site, visitado no dia 09/04/2013). O destino deste montante, espera-se, financiou 530 eventos culturais .

Desfeito o mistério da origem do dinheiro (embora não do seu destino), vamos para o que consideramos “fetiche”. Lembramos deste termo por considerar o BaixoCentro uma festa pela festa. Pois o fetiche remete a isto: não importa onde se dê, sequer com quem esteja se relacionando, o fetichista procura seu prazer na construção de um cenário (como nos casos clássicos daqueles que gozam mediante um corpo fantasiado). A festa pela festa é este cenário perpétuo daquele que goza “ocupando” com sua dança as ruas do centro (como se ali não houvesse vida); a festa pela festa é este evento que vangloria seu “sucesso” pela repetição dos números sem qualquer contexto (a quantidade de pessoas que conseguem chamar, a quantidade de verba que conseguem arrecadar, a quantidade de eventos que conseguem “cuidar”); a festa pela festa se apresenta quando tudo se acaba e, tal qual um fetichista clássico, se pergunta, como levantou Gabriela Leite em seu artigo (veja aqui): “e agora?” A resposta é clara: gozar novamente, repetindo a fantasia – a festa pela festa.

Construir este cenário tem sua força na medida em que o fetiche trata a relação entre objetos como se fosse entre sujeitos vivos. Daí o estranhamento presente em alguns comentários ao nosso texto anterior, em que diziam: não seriam pessoas, membros da sociedade civil, os principais financiadores do projeto? Não seriam pessoas, artistas e demais cuidadores culturais, os responsáveis pela realização do evento? Enfim, um evento realizado pela vontade pessoal e não pelos frios corredores burocráticos dos órgãos públicos ou empresas privadas. De que modo isto pode significar a inversão própria ao fetichismo que trata pessoas como coisas?

Interrogações mais do que justas, dado o teor de um evento que se vende (ao menos para 1.920 pessoas) como um festival feito por pessoas. No entanto, questionamos se não é justamente aqui que os problemas começam. Para os organizadores do BaixoCentro, a melhor resposta para a burocracia cultural que assola a nação (não importa o teor de suas leis, se foram ou não fruto de luta dos diversos movimentos artísticos da cidade, como a Lei de Fomento ao Teatro) seria um evento realizado por pessoas – não importa de onde vem, para onde vão: basta deixar o Centro livre para o trânsito e o transe das pessoas em festa. Nada mais próximo do que a política cultural oficial da cidade denominada “Virada Cultural” – a grande vitrine das artes para um público que consome cultura. Como se o dinheiro vindo das “pessoas” fosse diferente do dinheiro vindo dos contribuintes que financiam eventos que ocupam o espaço sem se perguntar quem ali vive. Como se isto mudasse o teor da relação que faz da cultura uma mercadoria e não um modo de vida. 

No caso do Centro, dançar nas ruas sem rancor, dizer que existe amor (e diálogo) em SP soa até a cinismo se lembrarmos que até então a dita “Cracolândia” seria vítima de uma das políticas mais reacionárias do Brasil “democrático”, que favelas, como a do Moinho, foram incendiadas com fins evidentes de especulação imobiliária.  Festejar por festejar em lugares marcados por crimes como estes lembra um pouco aqueles tours que se fazem pelas favelas do Rio de Janeiro, alimentando a curiosidade dos que dificilmente se aventuram pelas quebradas. A perversão fetichista de tudo isso é que festejar por festejar é ocupar por ocupar, indiferentemente de quem já ali habita há anos e que sistematicamente é deixado a esmo. As pessoas que festejam têm a oportunidade de mostrar a exuberância de sua cultura para os que ali vivem.  Depois da festa, o despojo.  

Ocupar para lembrar? Ocupar para esquecer?

Era desta festa que dizíamos não partilhar. Pois não nos interessa a mediação de “cuidadores”, agentes horizontais de uma estrutura vertical que preza pela relação dos diferentes. Pior nome não há para quem quer evitar ser chamado do instituído e burocrático “curador”. De fato, quem ama, cuida. Mas este modelo do cuidado remete àquele do amparo, do mito maternal que confunde corações e mentes entre os desavisados no cenário político nacional.

Interessante que, ao afirmarmos isto, logo seríamos tachados como apáticos, ativistas de internet, intelectuais acadêmicos paralisados pelo ceticismo diante da turma “que faz”. Nesta correspondência, lembraríamos aqui outra modalidade de festa. A festa transgressiva que opera nas bordas e segue além dos limites postos; uma festa da comunidade que tem consequências para a comunidade – algo que o coletivo Zagaia chama de “carnavalização” em eventos como os dois Cordões da Mentira realizados no último ano e de que nosso coletivo foi um dos organizadores (veja nosso texto aqui e aqui).

A possibilidade de tais ações não contou com o auxílio de órgãos públicos, empresas privadas ou ONGs, mas de grupos políticos e culturais como as Mães de Maio, Sindicatos, Movimento Negro, Movimento dos Sem-Teto, moradores da Favela do Moinho, saraus da periferia, Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” e ativistas políticos como os compositores de sambas, artistas de diversos grupos de teatro, centros culturais como o Espaço Cultural Latino Americano (ECLA), Coletivo Merlino, Coletivo Político Quem etc. Grupos que ocupam o centro (e as demais periferias desta cidade gentrificada) há muitos anos e expressam – seja na política, seja na arte (como se fosse possível uma divisão desta) – modos de vida diversos em correspondência com a comunidade em que vivem – recuperando um sentido de cultura diferente dos motes do produto cultural.

Em festas como esta, ocupa-se não apenas um espaço (que dificilmente será visitado novamente em breve pelos festeiros do BaixoCentro), mas também o campo simbólico. Na carnavalização do Cordão da Mentira, o que está em jogo é a dimensão política e cultural. De modo que fazer uma festa no Centro não é apenas dançar nas ruas, mas também lutar para resistir nelas a memória dos que ali sofrem todos os dias com a rotina que alguns podem quebrar.

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