Democracia – Prosa

Após meses de uma fatigante campanha, incluso um esperado segundo turno, o  candidato acordou por volta das oito horas da manhã de domingo, dia de eleição. Tomou um farto desjejum, degustando principalmente as notícias dos jornais dominicais e das revistas semanais: segundo todas as últimas pesquisas sua vitória seria folgada.

Após o banho, barbeou-se e vestiu apenas a calça do terno escolhido previamente por um de seus acessores. O terno propriamente dito ficou no armário, assim como a gravata, pois a manhã carregava um agradável ar primaveril, com sol e uma brisa fresca. Uma certa indecisão a respeito de quantos botões ficariam abertos tomou-lhe alguns minutos. As mangas foram arregaçadas, afinal, ele era um ‘cara comum’, pronto para ‘pôr a mão na massa’ – dois dos lemas que suas propagandas de campanha repetiram exaustivamente.

A exatas onze horas e dois minutos, depois de uma troca de camisa, saíram da casa num carro, candidato, esposa e um segurança, além do motorista. No comboio outros três carros com familiares, acessores e correlegionários, cortejados, finalmente, por um batalhão de equipes de reportagem que cobria os últimos passos da campanha do – tudo assim o indicava – futuro presidente da República.

O colégio eleitoral onde ele e sua esposa votavam não era longe. Em menos de cinco minutos o carro já estava estacionado numa vaga reservada próxima à entrada do edifício onde ficavam as seções eleitorais, no campus de uma universidade que sedia suas dependências à justiça eleitoral.

Ali as equipes de reportagem que seguiam o comboio do candidato se juntaram a outro batalhão de repórteres, a postos próximos a uma passagem que levava à porta do edifício. Alguns eleitores que estavam sendo entrevistados foram imediatamente enxotados uma vez que o motivo da presença da imprensa ali havia chegado.

O candidato desceu do carro e conferiu se a camisa estava como deveria estar: alinhada, mas não aprumada. Deu a volta no carro e ofereceu a mão à sua esposa, ajudando-a a sair do carro. Cena iluminada por incontáveis flashes. O casal deu as mãos e, enquanto caminhava, o candidato respondeu às câmeras sorrindo. Um sorriso, a princípio, um tanto controlado mas que se abriu e foi acompanhado por um discreto “v” feito com os dedos indicador e médio da mão direita. A esta altura a esposa já o acompanhava na performance. Mais uma saraivada de flashes. Ao redor irrompiam gritos de apoio de correligionários. Mesmo alguns eleitores, obedientes em seu dever cívico naquela manhã de domingo, aplaudiram a sua passagem.

A maior parte da imprensa foi obrigada a ficar do lado de fora do prédio no qual candidato e corte entraram. Subiram um lance de escadas e adentraram por um corredor longo onde em cada sala de aula estava instalada uma seção eleitoral. A pequena multidão se dirigiu à sala onde a seção 121 se encontrava, amontoando-se ao lá chegar.

O espaço não era pequeno, mas os interessados em acompanhar o voto muitos. Já com a sala cheia, candidato e esposa cumprimentaram os mesários, que retribuíram com sorrisos um tanto amarelados devido à presença das câmeras. Um anônimo “Primeiro as damas!” foi prontamente atendido: a esposa dirigiu-se à cabine de votação, digitou o número da candidatura do marido, conferiu a foto e os dados antes de pressionar a tecla verde. O barulho de voto confirmado foi timidamente acompanhado por um sorriso e um “v” na mão esquerda .

Na sequência o candidato dirigiu-se à cabine, sozinho – o voto, mesmo de um candidato, é secreto. Ele parou frente à urna, abaixou-se e digitou dois números. Não os de sua candidatura, mas as de seu adversário. Observou a foto por um instante, como se quisesse ter certeza de que tudo estava sob controle, e, sem qualquer hesitação, pressionou a tecla verde. Levantou o rosto por detrás da cabine com o sorriso já aberto, erguendo, no mesmo movimento, os dois braços, dois dedos em riste em cada mão.

Correlegionários a acessores urraram. No corredor, alguns eleitores mais entusiasmados se juntaram ao coro, outros apenas aplaudiram. Fotógrafos dispararam fotos seguidas de fotos se engalfinhanando com cinegrafistas pelo melhor ângulo: candidato e esposa trocaram um rápido beijo, seu braço esquerdo levantou o direito dela e, em uníssono silêncio, comemoraram antecipadamente o resultado futuro. Mesmo os mesários, levados pelo momento histórico, aplaudiam e acabaram por fazer pose conforme o candidato recolhia seus documentos.

Ele foi eleito presidente com uma margem de diferença para o concorrente de acordo com aquela apontada pelos institutos de pesquisa. Leonardo André Paes Müller 2009 2011

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