A Cultura da Miséria

Não se pode esperar que o Espírito Absoluto entre pela porta da frente, à convite da cultura dominante. De fato, este território é um deserto de ideias, que chega ao cúmulo de apenas reproduzir a si próprio. Da rica música popular brasileira, cultuamos os velhos ídolos e, surfando nesta onda, regredimos nossa audição a tudo aquilo que nos faz lembrar a teodiceia que criamos para nós mesmos. Enquadrados por este mito de origens divinas, olha-se o presente como tempo de estagnação.

O argumento talvez tenha sua validade quando circulamos em certos nichos culturais ou quando acostumamos a ver o Brasil por suas indústrias culturais. Não obstante, são fortes os argumentos de Vladimir Safatle, em seu artigo “A Miséria da Cultura”, que compreende a estagnação cultural brasileira em todo o seu sistema de artes a partir de dois pontos.

Primeiro, a valorização de um modelo de arte de inserção do mercado. Algo que se compreende não apenas pelo cinema-publicitário de Cidade de Deus, nem apenas pelo cinema-banqueiro de Central do Brasil, ou ainda, com o cinema-militar de Tropa de Elite.  Ou ainda, nas artes plásticas, lembra o autor de Vik Muniz, mas não poderíamos deixar de esquecer o artista de Miami Beach, Romero Brito, já homenageado por nossa Zagaia. Sem falar do universo das letras, com comunidades de poetas que apenas comunicam entre os seus, ou, quando muito, internados no universo espetacular de Paraty.

Segundo, e consequência do anterior, a estagnação vem da incapacidade da produção artística em pensar os conflitos sociais, impossibilitando aquilo que “toda arte deve ser: a imagem daquilo que uma sociedade ainda não é capaz de pensar”. Imperativos como este são arriscados, sobretudo no universo estético. Mas tem sua verdade quando o autor compara filmes brasileiro e argentino que animam as salas de cinema. De acordo com Safatle, apesar da ausência de verbas, o cinema argentino alça voos mais largos que a intenção brasileira de apresentar o conflito social apenas pela linguagem publicitária do choque e da violência espetacularizada. Na contrapartida, a Argentina que pensa e atua sobre os fantasmas do seu passado, cria uma estética ousada e reinventa sua sociedade.

Pensando no caso brasileiro, Safatle aponta exceções, embora não diga o nome. Mania intelectual de sempre querer ver aberturas? Ou desconhecimento do que se passa para além de um certo circuito? Aqui iniciam algumas problematizações.

As referências (nostálgicas?) dos anos 1950 e 1960 como marco do boom criativo parecem sintomáticas. O “melhor” de nossas artes aconteceu lá. De fato, conforme os critérios de Safatle, neste período que o Brasil se reinventava e a arte se fazia ousar. Mas o período passou e atropelados pelas botas da ditadura civil-militar, já se passaram mais de 40 anos sem uma produção digna de se chamar arte. Raras as exceções… Não seria muito tempo estagnado? Nada acontece desde então?

Mas… e se a exceção for a regra??? Em outras palavras: e se olharmos para fora do circuito a que Safatle aponta em seu artigo? De fato, não encontraremos artes de grande expressão nas salas de cinema mais cults, nas Pinacotecas e Galerias mais badaladas ou nas publicações de editoras de esquerda de butique. Nestes espaços não há conflito, apenas conforto e opiniões divergentes integradas.

De outro modo, o problema não é a incapacidade de produção da arte, mas a insuficiência de sua circulação. Se é bem verdade que os anos 1950 e 1960 produziram sua estética, talvez seja mais porque a circulação entre meios artísticos e intelectuais era frequente. Por mais problemática que seja a relação, Tom Jobim levou seu piano pra Mangueira, Celso Furtado não desprezava uma boa conversa com a produção artística de Pernambuco. Por mais que a relação seja entre “casa grande & senzala”, havia neste momento um olhar generoso da geração, ausente entre a nossa, incapaz de dizer nomes dos seus contemporâneos e conterrâneos. Desconhecimento ou vício?

Afinal, haveria estagnação em uma obra como “Negro, Poeta de Esquina” de Serginho Poeta onde o conflito é a alma criativa? Poema que é fruto dos debates distantes dos grandes centros – na medida mesma em que não é feito para estes grandes centros. Ou ainda, a ideia criativa e bem-vinda do Coletivo Alumbramento do Ceará, de fazer circular seus filmes pelos meios virtuais, fazendo deles salas de cinema com o conteúdo que, sabem, nunca chegará a 5 minutos das atuais telas de cinema.  Na música, Mano Brown na Ocupação Mauá cantando Marighela e o movimento de samba em luta contra as Viradas Culturais encontrando neste caminho novas formas de expressão. E por fim, curiosamente deixado de lado por Safatle, a produção teatral paulista que criou seu manifesto nos anos 1990 (o “Arte contra a barbárie”), base da Lei de fomento ao teatro, castigo e honra do que se tem produzido nesta arte, sobretudo aqui em terras paulistas. Nesta paisagem, onde está a estagnação?

Talvez o Espírito Absoluto não precise mais de um Napoleão para exercer sua astúcia. Em tempos globais, em que centro e periferia estão em constante dialética, é na sombra que as coisas acontecem, onde a “mão invisível” do mercado chega com muito tato, para não ser ferida. Saraus e coletivos não estão isentos da tentação da indústria cultural – não criemos aqui mais um mito – no entanto, é ali que este debate acontece e é então onde a estagnação não tem vez.

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