Contos de Junho – I – Prosa

Conflito fraterno

Ouvir com Quarteto de Cordas 2, Op. 10 de Schöenberg

Num país onde tudo acaba em samba, onde as investigações terminam em pizza, onde os corruptores seguem para o estrangeiro, a imagem das ruas cheias animou o silêncio que habitava em muitos. Palavras de ordem difusas tomavam as calçadas. Vermelho, preto, verde e amarelo. Tudo junto e misturado. Até que ouvi atrás: “Baixa essa bandeira!!” O tumulto que se fez não permitiu que se enxergasse do que se tratava. Manifestações como essa trazem todos os símbolos. Seria a bandeira nacional? Partidária? MST? Uma suástica? Impossível enxergar no meio da confusão que se fez tumulto.

De longe, junto à pancadaria que se fez carne e sangue da confusão instituída, apenas vi um pano vermelho. Mas, naquela altura do campeonato, era impossível saber se era a cor do partido ou a marca do conflito. No fim das contas, nada fazia sentido. O puxa-puxa era apenas um ponto no meio da multidão.

Meu papel ali não era de observador, estava para protestar. Queria tarifa zero na passagem de ônibus. Imagina! Dar um rolezinho pela cidade? Encontrar alguém que a distância fez saudades?  Direito básico de ir e vir, e se pá, ficar!

Coloquei a máscara na cara e fui em direção ao tumulto. Meus companheiros não acreditam até hoje quando falo da dimensão do conflito. Tudo por uma bandeira! Nós ao menos quebrávamos vidraças, queríamos incendiar todos os símbolos do capitalismo!

“E então?” – perguntavam meus vizinhos do bairro. Então que nada! – respondia. Ao redor, ninguém ferido, por sorte. Apenas uns cortes em alguns, e uns carecas babando. “Carecas??”, vinha a pergunta assustada dos meus colegas de trabalho. Todos sabiam o que significava a presença deles lá. Confusão das grossas, regressão das antigas. Ovo da serpente.

Mas o susto mesmo foi abrir meu face. Vi minha foto no tumulto. Era impossível ver meu rosto assustado atrás da máscara. De um lado, os carecas saindo de fininho, de outro o militante caído. Lembro do flash em minha direção, mas não sabia sua intenção. Distorção das grossas: no fim, levei a culpa nas costas de ter batido em não sei quem. Totalmente fora das minhas táticas em conflitos como aqueles.

Tava ali pra ajudar. A dor no corpo quando acordei não foi de briga alguma, mas de um gás que jogaram contra todos. Protestar é sofrer, diria o guerreiro. Protestar é respirar, diria o filósofo. Protestar é se livrar do peso que sufoca, diria qualquer criança.

Mas a imagem se fez teatro. E o teatro buscava tragédia. Tragédia que, repetida tantas vezes, aparece como farsa. Clima tenso entre os meus irmãos mascarados e os porta-estandartes da esquerda. Conflito fraterno para além da situação. 

A conversa tava boa. Meus colegas riram quando viam a foto do mascarado no face. Todos sabiam que era eu o louco. Sabiam que não faria aquilo? Sabiam?

A zoeira parou num instante. Era o chefe que chegava. Fui pra sala dele quando me chamou. Tive que justificar mais uma vez o meu atraso. E ele, suas insatisfações com meu trabalho. Eu lhe mandei à merda, ele me mandou pra rua.

 

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