Como não me tornei traficante de drogas – Prosa

– Pula pra lá. Meu banco é aqui!

Foi assim que rapidamente mudei de poltrona para dar o assento correto ao meu companheiro de viagem.

– Calor, motorista, liga essa droga de ar condicionado. Virando pra mim:

– Merda de ônibus, vamos morrer assados aqui. Mina, que tipo de parada você curte?

Vendo minha expressão de angústia, completou: – Funk, pagode?

– Ah,entendi. Gosto de muitas coisas.

– Curte funk?

– Defendo em partes o funk.

– Não tô perguntando se defende. Tô perguntando se curte!

– Cara, você é tão direto. Assim fica total difícil nossa conversa.

– Dança funk?

– Tá bom, não danço.

– Por que, tem preconceito?

– Tenho dor na coluna.

– Ah. Tenho 22 anos, moro em Osasco, numa favela. E você?

– Não estou tão longe de ter o dobro da sua idade. Moro em São Paulo, igual a você.

– O que tá fazendo pro interior?

– Pesquisando.

– Pra que?

– Tentando entender o Brasil pra me sentir minimamente útil.

– Vida boa, hein. Mas estudá, credo, sai fora. Eu tava na casa de uns tios. Minha vida é ferrada. Trabalho muito, ganho pouco, pago aluguel, pensão. Fui casado dois anos, ela me botou no pau. Acredita que os polícia foram no meu trampo levá intimação! Logo eu, um cara bem diferente dos outros que andam por aí, enganando mulher. Mulher. A mulherada não qué sabê de coisa séria. Só pega a gente pra zoar, mais nada. Viu, tô gostando de você, bonita você, com essa sua idade, qualquer homem iria querer.

Essa última frase me deixou em grave indagação filosófica. Já próxima da idade da “panela velha” realmente pode ser bem possível que os homens me queiram para lavar, passar, cozinhar, dar conselhos. Enquanto esperava o tempo da minha reflexão, o rapaz me olhava. De repente, lançou:

– Mina, tô gostando de você mesmo. Tô achando que dá liga. Olha, não tenho dinheiro, sou um ferrado, mas a gente pode vender droga no interior.

Achei que eu já estivesse sob o poder de narcóticos. Tive que lhe perguntar se eu havia entendido bem. Ele respondeu que a gente iria ficar rico, muito rico. Que trabalhar para os outros não dava nada, só exploração (tínhamos em comum o marxismo, bom começo). Meu pensamento voou. Imaginei-me vendendo drogas, ficando rica e vivendo um grande amor. Mas, de repente, desaguou um temporal em cima do telhado da nossa casinha de sapê, sob fundo azul. Vi-me tão rica, que o telemarketing de todas as empresas do mundo me caçavam em uma escalada no Monte Everest. Tão rica, que os bancos adivinhavam até o número de celular que ainda não tenho. Vi as pessoas que joguei no vício, virarem zumbis e correrem atrás de mim, querendo mais droga. Vi a polícia e todo sistema carcerário, atrás de mim, exigindo a sua parte. Vi nossa união abalada por tanta fama. Concluí que jamais voltaria a ter o privilégio da solidão. Debandei.

– Amigo, na boa, tanto dinheiro só vai me trazer o que não quero.

Desci do ônibus pensando naquele retrato de tantos jovens brasileiros. Atirado na pobreza do bolso e na miséria da alma, sonha em escrever os capítulos de sua vida com letras menos ásperas. Espero que sua escrita siga outras linhas. Gostaria de poder encontrá-lo daqui há 14 anos, quando ele teria a idade que tenho hoje.

Fernanda Thomaz é Geógrafa de formação. Possui licenciatura, bachalrelado e mestrado em Geografia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP). Nascida em um cortiço na periferia de Sampa, no bairro da Vila Palmeiras, sempre estudou em escola pública e, desde a graduação, realiza pesquisa sobre a questão agrária brasileira, estudando os assentamentos do movimento dos sem-terras. Atualmente, no doutorado, busca aprofundar o conhecimento sobre a coletivização agrícola implantada pelo MST em vários assentamentos pelo Brasil. Contar histórias é parte da herança negra-indígena. Cresceu ouvindo os causos do seu avô, sobre a vida, o trabalho, o amor, nas fazendas de café do interior de São Paulo. Para não morrer de saudade, tenta imitá-lo na prazerosa tarefa de reinventar o mundo a cada instante.

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