Comissão da Verdade. Comissão de Verdade. O que a “arte” não disse. O que a Arte dirá.

Se a arte imita a natureza, como disse o velho Aristóteles, haveria algo de falso na verdade da arte. Mas e quando a arte imita a história em suas tragédias e farsas? Pensando ainda em um momento específico, no momento em que sofremos na carne a angústia de querermos uma direção diferente, o que a arte tem a dizer?

No Brasil a história é contada muitas vezes. A primeira como tragédia. As seguintes como farsa. Como farsa da farsa. Como farsa da farsa da farsa. E depois novamente como tragédia. Nossos presos são mortos duas vezes. Matam o corpo. Matam a memória.

Lembremos o “Companheiro Jonas”, operário militante que migrara para a luta urbana, e seu retrato maldito em “O que é isso companheiro?” do pernicioso clã Barreto. A segunda morte de Jonas construída pelos artistas oficiais, em filme de ação “de nível internacional” com direito a estrela americana para contrapor o Jonas vilão. Ao contrário do homônimo bíblico nosso Jonas jamais escapou do ventre da baleia. Segue sendo deglutido, estraçalhado, nas entranhas da memória.

Interessante lembrar como nos momentos mais repressivos, a arte (alguma arte) procurou gritar aquilo que era calado nos porões da ditadura. Cildo Meirelles e suas mensagens deixadas em cédulas. Maneira de questionar a clepto ditadura capitalista através da sua efetiva rede social: o dinheiro. O teatro coletivo dos anos 60 e 70, e seus diversos caminhos, buscando tecer o fio da crítica nas periferias das cidades. Carlos Reichenbach e sua anarco-porno-chanchada, uma mensagem inquieta em meio ao cinema popular da Boca do Lixo, dissolvendo todas as categorias sociais de uma geração que se despedaçava.

MAS HOJE: O QUE PODE A ARTE DAR COMO RESPOSTA? Se a geração precedente, com raras e honrosas excessões, rendeu-se ao vale tudo da memória, a história construída como globochanchada, resta a quem chega utilizar-se de todos os meios para reafirmar uma posição de insubordinação civil e radicalização poética. A arte como subversão da memória. A arte como transgressão da anistia.

Em tempos em que a ditadura está nos tribunais da razão e da história brasileira, a arte tem muito a dizer, como disse (pouco) nos tempos mais duros da barbárie. Nela está a possibilidade de recontar a história, mudando o plano dos personagens, dando voz aos desaparecidos, permitindo àqueles que tiveram sua história interrompida, reconstituir um passado pesadelo de vidas ceifadas e corpos martirizados que se buscam por sombras. Sobrevivência de um tempo. Uma mácula, uma nódoa, um senão.

Na luta dura que se deflagará nesta semana, a Zagaia presta seu apoio incondicional a todos os grupos e coletivos que, atualmente, conferem seus esforços para, ao menos, repensar o que deixamos para trás e tirar da penumbra a história heróica dos que perderam suas vidas pelo direito de dizer Não!

 

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