Comentário Sobre o Lançamento na Internet de Não Estamos Sonhando

O movimento natural de quem cria é o de encontrar formas de dar vazão à sua obra. Ele pode achar o seu lugar nos espaços já estabelecidos, onde a sua obra fará parte de um contexto (histórico ou não) e aí ele terá de estar adequado a esse contexto, ou então ele pode criar o seu próprio espaço de escoamento. A internet, sem dúvida alguma, tornou a segunda opção numa realidade ao alcance de todos (pelo menos a princípio). Mas a minha opinião é a de que importa menos o lugar que encontramos para as nossas expressões, que a maneira como nos expressamos, o que não quer dizer que os lugares “em si” não são importantes, quer dizer que antes dos lugares vem as expressões e esses lugares são constituídos por elas, sendo então, necessário eles se transformarem e se adequarem a elas; não o contrário. Com a internet estamos apenas começando a entendê-la. A internet nem lugar é! Nesse momento, o nosso intuito é fazer com que aqui a apreciação de filmes e a troca aberta de ideias seja possível. Se o virtual virar a cada dia algo que se confunde com a realidade então que pelo menos seja para proporcionar encontros intensos e verdadeiros.

 Agora indo mais direto ao ponto em relação ao nosso trabalho como cineastas: o espaço de exibição que existe para o curta-metragem é limitado e normalmente coloca o realizador numa saia justa onde ele se vê impotente diante da imponência de um contexto que na maior parte das vezes não tem nada a ver com o seu filme. Não há nada mais genérico que uma seleção de curtas, o que por fim faz com que muitas vezes ser selecionado seja o que de mais infeliz pode acontecer com um filme. São poucos os festivais onde podemos dizer que existe uma curadoria. São menos ainda os que se arriscam, pois preferem sempre o conforto de  lugares conhecidos e de um discurso hegemônico. O que normalmente vemos (estou falando de Brasil) é uma sequência de listas que aparecem uma atrás da outra (principalmente nessa época do ano) com os mesmos títulos e a mesma relação inócua com os filmes (eternamente sujeitos ao descaso e descompromisso com o cinema por parte de quem supostamente trabalha a favor dele).

Por outro lado, sabemos que não existe nada melhor que ver o seu filme numa sessão bem elaborada, quando o filme inesperadamente se transforma em algo que você ainda não conhecia e que está além das suas expectativas. É uma forma muito bonita de ver que o filme está no mundo e ganhou vida própria. Ninguém espera perfeição numa sessão de curtas, mas um pouco de inteligência e sobretudo uma paixão pelo que faz. É uma maneira muito bonita de se ver filmes, daí a importância dessa discussão.

 Há ainda a experiência da sala de cinema que é insubstituível e será sempre melhor que ver na telinha do seu computador. Há exceções, mas podemos dizer que isso é uma verdade em 99% dos casos.

 Digo tudo isso pra que fique bem claro que eu não sou a favor de uma coisa e contra outra. Acredito sinceramente que o gesto de disponibilizar nossos filmes na internet é uma forma de dizer que fazemos os filmes antes de mais nada para eles serem vistos e que precisamos encontrar novas maneiras de fazer isso. Acredito que essa é uma ação que agrega as pessoas em torno de qualquer coisa que seja vivo, espontâneo e pulsante. Ela deve ser vista como parte importante da rede de exibição. Isso já é prática comum em outros lugares e não tem porque não ser aqui. Há pouco tempo atrás a banda Death Grips jogou seu novo cd na internet, gratuitamente pra quem quisesse ouvir a despeito da gravadora que segurava o lançamento do cd. É a mesma coisa. Pra eles o que importava era que as pessoas escutassem a música. E vale lembrar que o Godard lançou o seu Film Socialisme em Cannes e na internet ao mesmo tempo, e por ele teria sido gratuitamente, mas a distribuidora não deixou.

 Há muito tempo está claro que precisamos mudar as nossas estratégias na hora de exibir os filmes. Já chegou a hora de pararmos de reclamar e começarmos a agir. Por aqui, estamos fazendo o que podemos, da maneira que sabemos e com o alcance que conseguimos.

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