Polêmica – ditadura civil-militar: Coletivo Zagaia X Pedro Pomar – a gênese da polêmica em torno da ditadura civil-militar

Em junho deste ano o Coletivo Zagaia, um dos coletivos que organizam o Cordão da Mentira, bloco carnavalesco que desfilara no 1 de abril com o tema “Quando vai acabar a ditadura civil-militar?”, publicou um artigo discutindo os caminhos do Cordão da Mentira e o sentido de “carnavalizar” a ditadura, dando ênfase na luta simbólica contra a esquerda e direita que buscavam descolar o passado da ditadura civil-militar ao presente genocída: “o Cordão prepara uma luta simbólica contra a força da mentira que se reproduz não apenas no passado da ditadura civil-militar, mas na narrativa de um país que desconhece seu presente genocida. Uma luta de classes que opera no imaginário, sobre o qual também a esquerda precisa espantar fantasmas que rondam sua percepção e sua atitude.”

O Cordão da Mentira: De onde para onde

Nesta mesma época o Cordão lança seu 2o desfile: “Quando vai acabar o Genocídio Popular?”, integrando as atividades de protesto contra os 20 anos do Massacre do Carandiru e a então recente onda de chacinas promovidas por grupos de extermínio ligados à polícia militar. No desfile novamente o Cordão apontava para a continuidade no presente das estruturas da ditadura civil-militar e seus cúmplices civis.

Em agosto, 20 dias antes do 2o desfile do Cordão da Mentira, Pedro Pomar publica o texto “Um modismo equívocado”, atacando os grupos que utilizavam o termo civil-militar, classificando de “profundo equívoco” e de rompimento com uma designação “consolidada tanto na literatura e historiografia quanto na tradição oral popular, bem como no discurso coloquial da militância política de esquerda”. O artigo teve ampla circulação nos veículos e blogs de esquerda, muitos dos quais ignoraram solenemente a realização do 2o desfile do Cordão da Mentira.

Um modismo equivocado

No final de novembro, após as discussões de avaliação do 2o desfile do Cordão da Mentira, o Coletivo Zagaia responde a Pedro Pomar com o artigo “A construção da verdade ou da obrigação de combater a tradição, família e impropriedades”. O texto foi enviado para todos os jornais, revistas e blogs onde o texto de Pedro Pomar fora publicado. Porém só a Caros Amigos e o Brasil de Fato aceitaram colocar o texto no ar. Neste mesmo período, o “Movimento Mães de Maio” publica no livro “Mães de Maio, Mães do Cárcere – A Periferia Grita” o artigo do Coletivo Zagaia: “Cordão da Mentira, de onde para onde?” que dera origem à polêmica.

A construção da verdade ou da obrigação de combater a Tradição, Família e Impropriedades – uma resposta ao texto um modismo equivocado de Pedro Pomar

No início de dezembro Pedro Pomar responde ao artigo do Coletivo Zagaia na Caros Amigos e no Brasil de Fato, classificando seus integrantes como pessoas que “se escondem atrás da fachada de um grupo desconhecido, o Zagaia, que se diz parte de um grupo maior, o Cordão da Mentira. Não têm coragem de mostrar a cara?” Argumenta que seu texto não se direcionava “a ninguém em particular”. Classifica o texto da Zagaia de “lixo literário” e termina o texto em um pretenso desafio: “Encerro com um convite aos meus detratores: assumam publicamente o teor da carta publicada. Identifiquem-se como autores perante os leitores.”

Pedro Pomar: resposta aos meus detratores

O Coletivo Zagaia prontamente responde a Caros Amigos e Brasil de Fato no dia 8/12 (a resposta porém só será publicada na Caros Amigos). O Brasil de Fato utiliza-se de uma mentira para justificar sua censura.

O texto “Muito além do modismo: quem confunde as palavras, confunde as coisas” rebate as acusações levianas de Pedro Pomar e reitera os argumentos anteriores (não respondidos por Pedro Pomar em seu texto) em relação à defesa do termo ditadura civil-militar e sua importância na luta atual.

Muito além do “modismo”: quem confunde as palavras, confunde as coisas

No texto o Coletivo Zagaia reitera seu compromisso com diversos grupos como Mães de Maio, Rede 2 de outubro, Frente do Esculacho Popular e Cordão da Mentira com quem compartilham a busca pela verdade e transformação social: “O verdadeiro sentido de nossa época, ao procurar nas ruas (através do Cordão da Mentira e dos escrachos e esculachos) ou através das comissões da verdade e justiça, desvelar o que estava acobertado pelo tempo, é justamente ressignificar o que sempre se pensou de maneira tradicional. Nesse sentido, acreditamos que os usos de linguagem denunciam, profundamente, o que se entende pelo período que se quer caracterizar. A alteração da expressão “ditadura militar” para “ditadura civil‐militar” não é, assim, aleatória e parece, sim, responder aos anseios do “movimento histórico”: revisitar o passado para compreendê‐lo melhor tendo em vista a identificação de suas estruturas no presente e a construção de um futuro livre, onde a verdade possa ser conhecida por todos. Este é o real sentido de nossa atual luta pela democracia.”

Epílogo

O Brasil de Fato, na pessoa de seu editor Nilton Viana, utiliza-se de um artifício mentiroso para justificar sua censura.  Isto não nos incomodou em absoluto. Tanto a censura quanto a tentativa malograda de difamação demonstram que a independência e a disposição para o embate franco de idéias ainda incomoda e pode ter consequências.

Mais zagaias serão lançadas.

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