Clip Kong – uma continuação da velha história da bela e a fera

“No confronto entre a bela e a fera, Serena aplica ‘pneu’ sobre Hantuchova e avança. Irmã mais nova das Williams vence com facilidade e chega às quartas. Serena se esforça contra Hantuchova. Desta vez, a fera levou a melhor sobre a bela.” Alexandre Cossensa, direto de Nova Iorque, para o globoesporte.com – Tenis

E deu-se uma facebookeana polêmica, decerto permeada por uma boa dose de hipocrisia por parte de alguns manifestantes, por causa deste videoclip:

Bem… vamos lá! Assisti o clip Kong e, após breve reflexão, o papo reto é: o clip Kong traz uma imagem que povoa o nosso inconsciente coletivo. No imaginário dos negros e dos brancos e dos não negros e dos não brancos de nossa racista e hipócrita sociedade a imagem veiculada no clip está presente. Mas, obviamente assim explicitada, choca e incomoda. Um incômodo que varia em sua gama e significado a depender da pertença do incomodado.

Resta saber qual foi a intenção do Sr Pires. É difícil crer, mas pode ser que tenha sido intencional; que o rapaz tenha objetivado “brincar” com aquilo que povoa as mentes de todos nós indivíduos desta sociedade, independente do que isso provoque em cada um ou em grupos…

Uma hipótese que me ocorreu é a da possibilidade de que o Sr. Pires (bem como o tal, para mim desconhecido, Mr. Catra e o garoto Neymar) tenha pensado: “Já que no imaginário de nossa racista e hipócrita sociedade os negros portam-se como macacos; são lascivas feras e babam pelas belas brancas, loiras e etecetera e tal, vou causar, provocar polêmica e discussão!” Parece que não é o caso. Ninguém vai concordar, não é mesmo?

Em tempo, lembro-me que em algum momento bem no início da brilhante e ainda breve carreira Neymar, diante de uma situação veiculada na imprensa e da qual não me lembro direito o teor, disse não ser negro.  Será que agora já se assume?

Mas interessante, entendo, é a discussão, o debate. Pois, por horrível que seja trata-se de algo que portamos; está em nosso íntimo. Por isso mesmo incomoda muito e aí apontamos, dedo em riste, o outro.  Não que o outro não seja, mas… Sempre é o outro!

Por experiência própria e por observação de situações envolvendo a terceiros é que afirmo que independente de inserção e ou ascensão à este ou àquele círculo, a princípio, ao ser percebido, o negro em “imaculado” recinto, causa estranhamento e/ou constrangimento e posteriormente (de brevíssimo instante a diversificado período de tempo mais longo) o tratamento dispensado vai se “normalizando”.

Entendo que o Alexandre Pires, o Mr. Catra, o Neymar podem e talvez devessem sim dar explicações e, mais que isso, serem convidados a discutir a questão e entenderem que determinadas ações/atitudes vindas de celebridades negras dificultam a construção de um estado de coisas progressista em relação à questão do negro.

É necessário discutir discriminação, preconceito, racismo a fundo, num fórum mais abrangente. E para tal é preciso que muita gente saia da zona de conforto. Ou seja, deixar a cômoda atitude de apontar os males dos/nos outros e mirar o indicador, inclusive, para si mesmo – imprescindível para, senão zerar, diminuir contundentemente tais sentimentos e práticas.

Por exemplo, entre o criouléu sambista, no meio da rapaziada das batucadas das quebradas (majoritariamente negra) costuma-se fazer uso da expressão “pegada de macaco” ou “pegada de macaco grande” ou “pegada de gorila” para afirmar uma atitude mais visceral presente em seu fazer sambístico trilhado sonoramente pelo batuquejê; pelo calundu, batucada pesada, samba duro e diferente daquela atitude que permeia o fazer sambeiro da gente oriunda dos segmentos obesos da sociedade, das classes sociais  mérdias e ditas superiores (dos que com elas se identificam) que vêm se apropriando da cultura popular. E pela qual é visto sim, muito parcimoniosamente, como primitivo – primata.

Em meio à muita gente (não negra) que diz gostar e amar o samba, creio, muito pouca é a parte capaz de gostar e amar verdadeiramente o negro. Parte disfarça o racismo e a intolerância, mas frequenta as casas de espetáculos (de samba) que são em si filtros sociais – para ficar neste universo.

Segundo o professor Milton Santos, explanando sobre a questão do negro, em nossa racista sociedade o negro é cidadão de segunda categoria – consequentemente um não-cidadão. E para melhor discorrer sobre suas reflexões a respeito o fez a partir da seguinte tríade: corporeidade, individualidade e cidadania. A corporeidade referenda dados objetivos, ainda que possa ser interpretada subjetivamente. A individualidade é composta de dados subjetivos, ainda que possa ser objetivamente discutida. Numa sociedade de verdadeira cidadania, cada um é o igual de quaisquer e todos os outros. E a força do indivíduo, seja ele quem for, é obrigatoriamente igual à força do Estado ou de qualquer outra forma de poder. A cidadania é definida teoricamente por franquias políticas das quais se pode efetivamente dispor o cidadão. A cidadania está acima e além da corporeidade e da individualidade, o que não ocorre na prática brasileira em que ela se exerce em função da posição relativa de cada um na esfera social.

Daí que… Não importa o que um negro faça da sua individualidade (seja genial ou boçal), uma vez que ela é portada pelo invólucro que é a sua corporeidade, negra, na qual se apresenta para o convívio em uma sociedade que a vê como pertença de gente de categoria inferior – hominídeo; primata. E quando se trata de alguém que conseguiu alguma ascensão (seja econômica, política, cultural, etc.) passa a ser tratado com menor intolerância (cuja intensidade varia de acordo com o grau da ascensão) e se for “engraçado” e/ou se prestar a esse papel passa a gozar de “grande prestígio” e passa a ser imprescindível nos encontros festivos  – um amigo de estimação, se é que me faço entender.

Ou seja, numa sociedade racista e segregacionista o corpo – a corporeidade – é um importante e crucial elemento de distinção. Então, a corporeidade – o corpo – do de categoria inferior; do subumano – negro – é de macaco.

E como ressalvaram em discussão zagaiata Thiago B. Mendonça e Silvio Carneiro: o clip junta celebridades negras que afirmam humoristicamente e imageticamente o seguinte: “apesar de minha corporeidade, olha o lugar que eu ocupo.” E o lugar é o do novo rico, com piscinas, carrão e mulheres. Mas há uma outra corporeidade, no clip, que não precisa ser transfigurada em um Kong para ser esvaziada de humanidade. A figura da mulher aparece somente dotada de corporeidade. Ela pode ser de qualquer cor (embora majoritariamente no vídeo loiras e brancas), qualquer pertença. A mulher para as três “celebridades” do clip só valem enquanto objeto de satisfação carnal. Frases como: “se você quer sentar, senta aqui neném”, “Que delícia! Papai chegou meninas! “, “Essa carinha de santinha nunca vai me enganar”, “É instinto de leão com pegada de gorila!” são usadas para estabelecer os elos entre as “celebridades” com as mulheres.

Daí que… Podemos pensar em emancipação apenas por segmentos de demandas sociais ou uma efetiva transformação não teria que conter em si todas as outras? A sociedade brasileira não afirma como um valor só a corporiedade do homem branco, mas sim a corporiedade do homem branco, de sexo masculino, heterossexual (ideário que é fruto em parte da sociedade escravocrata e patriarcal na qual nos formamos). Neste sentido, o segmento mais apartado em sua corporiedade em nossa sociedade são para além do negro, a mulher negra, o transexual negro, o homossexual negro, esses segmentos passando pela dupla humilhação do preconceito pela cor e pelo gênero. Se, para além disso, forem pobres, quaisquer ideais de cidadania tornam-se mais distantes. Pior, a questão do gênero muitas vezes nem é vista como problema pela maioria dos militantes da causa negra (imaginemos então como é visto no restante da estrutura social). Será que podemos pensar por exemplo este clip sem levar a questão do gênero em conta? Não seria este tipo de discurso imagético desumanizado em torno da feminilidade que tornaria “legítimo” e natural a violência sexual contra a mulher?

E vale atentar que ao fim do Clip há uma declarada mensagem homofóbica. David Brazil, personagem homossexual, figura carimbada da TV, que é ostensivamente satirizado e rejeitado até pelo símio. De modo que não apenas são as mulheres tomadas como objeto de desejo, mas também o homossexual, como objeto de rejeição. Daí…

Selito SD: sambista, compositor e pesquisador ligado ao Movimento Cultural Projeto Nosso Samba de Osasco, Geógrafo pela USP, um dos editores desta revista e integrante do Coletivo Zagaia.

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