Circuito Marighella

Ao amigo Seu Luiz Barbosa

Pai, anarquista,

gerente bancário,

VPR.

Saiu de cena na noite de Natal

Contrariando assim a lei da vida

Sem nunca deixar sua alegria

 

Junto ao clip de Mano Brown, Carlos Marighella volta a aterrorizar os campos da cultura no documentário que leva seu nome. Com isso, a história da ditadura civil-militar ocupa nova margem no circuito de nosso imaginário. Movimento necessário para a memória inerte e para o sofrimento calado de nossa história.

O documentário de Isa Grinspum Ferraz, sobrinha do guerrilheiro, se desloca por três estruturas narrativas que se enriquecem entre si. A camada mais transparente mostra a busca da diretora em torno da identidade de seu personagem. Mais do que um tio, era um guerrilheiro – um segredo de família que deveria ser guardado. Eis a primeira revelação do filme. A partir desta narrativa que explora o universo da criança que descobre um mistério familiar, o filme apresenta sua face documental, como uma metanarrativa que evoca os movimentos particulares de cada ato. Como numa investigação policial, a diretora segue as “pistas” que constroem a identidade daquele que seria considerado inimigo público número 1 da ditadura. Estabelece aqui o fio temporal que organiza, metalinguisticamente, o modo como se apresenta a vida e a obra deste “tio misterioso e encantador”.

Discutindo Marighella: José Luiz Del Roio, Jacob Gorender, Clara Charf e Antonio Candido

Mas esta é apenas a primeira camada que orienta o olhar do público. Abaixo dela, um rio transcorre. São as personagens que conviveram com Marighella. Parentes e amigos de luta demonstrando as dimensões do guerrilheiro. Como que a cada pista sobre o homem, um universo de relações se reconfigura. Dos tempos de colégio ao início de sua militância no PCB baiano, da vida na clandestinidade à ação guerrilheira na ALN, do conquistador apaixonado à relação com os filhos, das ousadias à morte, uma gama de relatos procuram reconstruir as particularidades de Marighella.  Sem nenhum recuo a uma espécie de “revisão do passado como um arroubo juvenil” – declaração de mea culpa que encontramos em muitos ex-guerrilheiros na ativa, muitos deles no conforto do parlamento – tais relatos remontam a uma figura de um homem de ação, preocupado com o presente, engajado com a transformação social, estrategista que antecipa seus adversários. Desde esta segunda camada, o tio Carlos se transforma no ícone Marighella.

Decerto, sua imagem se estampa na ditadura como um fantasma. Construção de imagens que se revela arma importante no combate simbólico que Marighella trava. Em uma de suas primeiras ações políticas, a construção visual revela sua ousadia: nos anos 1930, ao colar nos postes de Salvador com amigos recortes de cartolina em forma de foice e martelo no dia seguinte ao comício integralista daquela cidade. Ou ainda, a imagem que a ditadura civil-militar teima em espalhar do guerrilheiro baleado e arrestado, primeiro no cinema (como um aviso); segundo, no interior de um fusca, vítima de uma emboscada. Todas estas imagens aparecem com força no documentário, algo que nas telas é utilizado com propriedade.

Por fim, uma terceira estrutura acompanha esta visão estratégica do guerrilheiro. Durante todo o filme, é apresentado de maneira entrecortada, o poema “Prova em verso”, que segue abaixo:

Catóptrica: o reflexo da esquerda?

Doutor, a sério fala, me permita

Em versos rabiscar a prova escrita.

Espelho é a superfície que produz,

Quando polida, a reflexão da luz.

Há nos espelhos a considerar

Dois casos, quando a imagem se formar.

Caso primeiro: um ponto é que se tem;

Ao segundo um objeto é que convém.

Seja a figura abaixo que se vê, O espelho seja a linha Beta-Cê. O ponto F um ponto dado seja. Como raio incidente, R se veja.   O raio refletido vem depois E o raio luminoso ao ponto 2. Foi traçada em seguida uma normal, O ângulo 1 de incidência a R igual.   No prolongamento, luminoso raio Que o refletido encontra de soslaio.

Dois triângulos então o espelho faz,

Retângulos os dois, ambos iguais.

Iguais porque um cateto têm comum,

Dois ângulos iguais formando um.

São versos que Marighella escreve aos 17 anos em uma prova de física do antigo ginásio, em resposta ao ponto “Catóptrica, leis de reflexão e sua demonstração, espelhos, construções de imagens e equações catóptricas”. Aparentemente, a insistência do documentário nestes versos parecem deslocados. Mas, na verdade, não haveria modo mais autêntico com a estética proposta para demonstrar o sujeito Marighella se não por sua lírica juvenil. Afinal, dentro do ícone de guerrilheiro corre uma veia lírica jocosa, que desconstrói o modo de pensar cotidiano para transformá-lo. Numa simples prova de física, Marighella respondia em verso o que comumente sairia como equação. Modo de esquerda em extinção, que carrega consigo a capacidade da ironia, que se alimenta do riso de si mesmo, para não cair no agreste estratégico e calculista. Mais que uma vanguarda, uma esquerda no reflexo. Constrói assim um universo de combate que procura não se afastar da realidade de seu povo, que se afirma comunista não apenas por meio de manuais e escritos, mas que opera entre estes materiais e a realidade de seu povo.

E como se não bastasse, mediante estas três correntes narrativas, o documentário não se perde na nostalgia, nem na construção do ícone revolucionário. Afinal, a melhor homenagem é aquela que coloca o mito em questão. Seria ele um “santo ateu” ou um “homem que erra os erros que enriquecem nossa história”? Dois modos de compreender Marighella, que valem uma discussão posterior, não fosse o estrago que isso pode proporcionar para quem não assistiu o filme. Por enquanto vale dizer que a questão está em aberto. E nisso o filme ganha mais um ponto: nestes tempos, fazer questões é um ato político valioso.

Questão que, na verdade, integra o documentário ao clip Marighella, constituindo assim um circuito poderoso. Uma história do passado recente que retorna sob a batida do rap, ao discurso único de Marighella na Rádio Nacional. Discurso que é feito para a periferia. E que agora retorna da periferia, redimensionando os significados de Carlos Marighella.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *