Carta de esclarecimento do Ceicine sobre a retirada do filme A cidade é uma só do Festival de Brasília (Agosto de 2011)

POR UM FESTIVAL DE BRASÍLIA DIGNO DE SUA HISTÓRIA

POR UMA POLÍTICA PÚBLICA DE CULTURA DIGNA DE CEILÂNDIA

Há momentos em que não podemos nos calar, sob o preço da conivência com mal feitos, que de tão reificados, tornam-se naturais. Mal feitos tornaram-se uma prática comum em todas as esferas de representação, não sendo privilégio de nenhum partido ou agremiação política. O mesmo se dá na esfera cultural, e se dá agora com o Festival de Brasília.

O Ceicine tem muito orgulho de participar da história deste festival desde seu primeiro filme, RAP, o canto da Ceilândia. Participamos novamente em 2009 com Dias de Greve. Retiramos este ano o nosso primeiro longa-metragem, “A Cidade é uma só” da competição. E voltaremos a participar quando o festival recuperar a história e a ética que o caracterizaram ao longo dos últimos 44 anos.

É sabido por todos que há sérias dúvidas em relação a seleção de Brasília neste ano. O crítico João Carlos Sampaio publicou no jornal soteropolitano “A tarde” uma crítica ao Festival onde demonstrou, utlizando-se apenas da lógica, que houve vício na seleção dos filmes inscritos em 2011. O artigo dizia: “A direção do 44o Festival de Brasília anunciou, em agosto, os escolhidos para a competição. No comunicado oficial explicou que os seis longa-metragens passaram por uma peneira de 110 inscritos, avaliados em 8 dias. A aritmética elementar diz que, para examinar todos os filmes, a comissão de seleção deveria ver uma média diária de 14 longa-metragens, sendo que estes dias precisariam ter mais de 24 horas. (…) A constatação do vício do processo de seleção quebrou o silêncio dos realizadores preteridos e assim se descobriu que estavam inscritas obras muito aguardadas como O som ao redor, longa-metragem do premiado Kleber Mendonça Filho, além de fitas como Girimunho, de Helvécio Martins e Clarissa Campolina, vetada em Brasília, mas selecionada para o Festival de Veneza. A infelicidade da seleção é somente a ponta do iceberg de equívocos, que inclui a extinção de uma competição que revelava novos talentos e medidas que atravancaram a trajetória de um festival sempre apontado como o mais importante do país.” Era a ponta do iceberg.

Voltemos para nós mesmos, para o nosso quintal, para o  nosso cotidiano.

No início deste ano realizamos um seminário para discutir a construção de uma sala de cinema e um curso técnico em Ceilândia visando formar novos cineastas. Embora na teoria este seminário tenha sido realizado em parceria com a secretaria de Cultura, na prática estes mesmos dirigentes não compareceram ao encontro, feito para estabelecer este diálogo. Em seus lugares apareceram alguns “representantes”. Ali ficou claro que não haveria consonância entre esta gestão e o projeto de cinema que estamos propondo para Ceilândia. Projeto que não é do Ceicine. Um projeto periférico de cinema visando toda a população. Um projeto formativo. Emancipatório. Sem tutela de ONGs. Público. Não houve compromisso em relação a estas idéias. Após quase um ano de governo apenas gestos cosméticos e populistas. A forma como o festival construiu sua relação com as cidades satélites neste ano explicita este fato.

O coordenador do festival nos acusa de abandonar o evento para tentar conseguir projeção e diz que o Ceicine deveria “se projetar com obras e não com isso”. Nossa história é nossa resposta. O reconhecimento e prêmios que os filmes produzidos pela Ceicine tiveram em festivais nacionais e internacionais nos últimos anos, incluindo o Festival de Brasília, é argumento suficiente diante dessa acusação delirante e desrespeitosa.

Somos um coletivo periférico participando desta esquizofrenia que é Brasília. Como todos os periféricos, somos bem vindos quando submissos, coptáveis, dóceis. Mas quando decidimos dizer não, o poder estabelecido usa de seus meios para nos calar. Não é necessária a violência física, basta a simbólica. A calúnia nos meios de comunicação a partir de uma assessoria de imprensa devidamente treinada para agir em casos de incêndio. Mas temos algo que nenhum burocrata pode tirar de nós: temos história conhecida por todos, construída com dignidade. De filmes feito com verdade, com alma. Este é o nosso discurso. Como dissemos em carta anterior fazemos filmes não só para serem feitos. Fazemos filmes buscando outra  perspectiva estética e política (não partidária, e sim política). Fazemos filmes para que eles sejam, no mínimo, um pequeno reflexo da  nossa condição cultural, social e econômica. Fazemos filmes do local onde estamos, do nosso local de fala. Ir contra esses princípios mínimos seria uma incoerência. Exibir o filme neste Festival, neste momento que se configura,  seria legitimar posturas arrogantes,  autoritárias e, acima de tudo, reacionárias. Esta é a nossa posição. Nosso discurso é claro.

Mas qual é o discurso do Festival? “Na última semana ele anunciava orgulhosamente a presença do indescritível José Dirceu, para participar do seminário “Novas perspectivas para  o cinema e para o audiovisual brasileiro”. Nas mesas toda uma nova geração do cinema foi ignorada em favor de produtores como Diler Trindade e Luis Carlos Barreto. O Festival não mentiu: ele está de cara nova. Quando tira a máscara tem o rosto de José Dirceu e Barretão!

O cinema brasileiro passa por um processo intenso de renovação e busca estética, de reflexão em relação a suas histórias e seus caminhos. Para nós do Ceicine as respostas às nossas indagações estão no novo que se abre como percurso. Bertold Brecht dizia que “de nada serve partir das coisas boas de sempre, mas sim das coisas novas e ruins.” A escolha do festival em ignorar o novo é evidente. Tanto nas escolhas dos filmes, quanto na forma como constitui seus seminários e discussões. Mas tão pouco a coordenação do festival se mostrou competente em reconhecer as coisas boas de sempre. Ela abraçou as coisas velhas e que pouco dizem ignorando uma tradição construída ao longo da história deste festival por nomes como Paulo Emílio Salles Gomes. Nomes que certamente não dizem nada à atual coordenação do Festival, mais afeita aos produtores de lixo industrial para consumo acrítico.

E por isso a surpresa quando contrariamos a etiqueta deste baile de máscaras: um coletivo que diz Não?! Porque os rostos de vários Coletivos espalhados pelo Brasil, rostos como os da Ceicine, da Alumbramento, o rosto da Teia, o rosto do coletivo Zagaia, o rosto da Filmes de Plástico, o rosto do Mate com Angu, dentre tantos outros que buscam um outra perspectiva de fazer cinema,  não condizem com este projeto estético.

As faces que aparecem em nossos filmes não dizem nada para os burocratas da cultura, travestidos à ideologia do poder. Por isso o nervosismo quando surgem vozes divergentes. Por isso a prática de desmerecer, de tentar tornar um debate em algo pessoal e sem crédito. Por isso a agressão gratuita. Dói no ouvido dos hipócritas quando uma voz diz com clareza: “BASTA SENHOR BUROCRATA! NÓS NOS DEPARAMOS COM O SEU “NOVO” FESTIVAL E DIZEMOS NÃO!

COLETIVO CEICINE (Coletivo de Cinema de Ceilândia) – Adirley Queirós, Breitner Tavares, Dilmar Durães, Edimilson Braga, Jean Michel, Natália, Thiago Brandimarte Mendonça, Wellington Abreu, Zé Bigode (com contribuição do COLETIVO ZAGAIA)

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