Carlos Fuentes voltou à origem – Crítica Literária

Morre hoje o escritor mexicano Carlos Fuentes. Ele morreu de velho, aos 83 anos, de um coração que já não batia com tanto vigor.

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Morreu tendo a certeza de que não escreveria todas as ficções que gostaria. Ficamos com todas as que ele escreveu, o que já me deixa muito feliz.
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Descobri esse autor nos meus 19 anos, quando li “A laranjeira” e descobri um sabor incrível nas formas de narrar que desdobrava sua literatura. Mais tarde, soube de mais livros que pensavam seu país, as realidades duras e, em alguns outros livros, as magias surreais da vida. Ele era um amigo de Buñuel, amante do cinema de Welles, entusiasta do Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, foi embaixador, diplomata, professor, mas sua principal satisfação era a escrita. Foi um mexicano globalizado mas que acreditava na certeza de que “não existe globalidade que valha sem uma localidade a que atenda”. Foi um corpo delicado no mundo, debruçado sobre as letras.
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Em seu livro autobiográfico “Este é meu Credo”, ele chega a dizer da morte: “Permenece, todavia, o fato de que, precedidos ou sucedidos, esquecidos ou lembrados, morremos sós e, radicalmente, morremos para nós sozinhos. Talvez não morramos de todo para o passado, mas certamente morremos para o futuro. Talvez sejamos lembrados, mas nós já não lembramos. Talvez morramos sabendo todas as coisas do mundo, mas, de agora em diante, nós mesmos seremos uma coisa. Vimos e fomos vistos pelo mundo. Agora o mundo continuará sendo visto, mas nós nos teremos tornado invisíveis. Pontuais ou impontuais, vivemos de acordo com os horários da vida. Mas a morte é o tempo sem horas.”
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“A morte, afirma Georges Bataille em seu maravilhoso ensaio sobre O morro dos Ventos Uivantes, é a origem disfarçada”. Carlos Fuentes voltou à origem. E deixou nesse lugar uma laranjeira esplendorosa, colo do universo.
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