Candeia – Prosa

Não conseguia ver ninguém na rua, disso me lembro bem. A minha posição era satisfatória, meio oblíqua superior. Devia estar no quinto ou sexto andar de um edifício. A vantagem daquela posição era que ela não satisfazia apenas o meu desejo de visualizar a rua, mas me possibilitava perceber também que não era somente a rua que estava assim, como eu posso dizer, vazia. A minha vista também estava meio embaçada – na verdade, nunca confiei nela, não enxergo muito bem no escuro e aquele ponto não estava muito bem iluminado. Poderia tentar ouvir os ruídos lá de fora, mas, se de supetão virasse 180º, me depararia com uma sala cheia e barulhenta. Estava no meio de uma festa. Frequentemente esbarravam em mim e isso já estava me incomodando. Mas eu não poderia demonstrar irritação, não ali e muito menos naquele instante. “Tinha de sair”, um pensamento que nem chegou a maturar e eu já o estava realizando.

Não levou muito tempo e eu já estava na sala onde os músicos tocavam. Vi Candeia. Ele parecia satisfeito e aparentemente bem entrosado. Fiz com a cabeça um sinal de cumprimento. Cadeiras encalastradas! Ele não me viu, mas cutucaram-no avisando que eu tinha chegado. Sem muito esforço, ergueu o rosto e, por um momento, parou me observando – o que, naquele curto instante, com certeza deve ter provocado um certo desconforto em quem o cutucou – mas logo sorriu e me cumprimentou. Calculadamente flexionei minha boca na tentativa de camuflar um sorriso. Como já esperava, ele percebeu a minha tentativa de retrair a sensação de que sua presença me agradava e por isso riu. Eu sabia que isso o confortaria. A questão é até infantil e se obtém resultados positivos: ri porque sua presença me trazia um certo conforto, mas por um orgulho fútil não quis deixar isso bem claro, então, tentei retraí-lo, mas sem muito sucesso. A prova disso, o sorriso de Candeia. Ponto ganho, já podia voltar ao que tinha que fazer. Teria agora mais ou menos meia-hora para reaparecer e cumprimentá-lo de novo, no máximo 45 minutos, mais que isso já seria arriscar demais.

Escaralho tripudiador, foi aqui! Foi aqui que comecei a perceber algo de estranho, justo quando aquela cena reaparece quase que por completo na minha cabeça. Traiçoeira! Juro que vi Candeia cantar e… – como é que não reparei nesse detalhe! Ahhhhhh fiquei estagnado! Tinha que deixar as coisas entrarem em ordem. Tudo bem, tudo bem, eu sei que foi um desleixo meu, não podia parar assim abruptamente, mas parei!

Tinha de voltar e averiguar, mas eu não podia reaparecer assim, do nada.  Ele não podia me ver de novo, em um tão curto espaço de tempo. Levantaria suspeitas! Teria de falar com ele. Ir lá de novo e não falar com ele estava totalmente fora de cogitação, seria burrice! Mas também falar com ele neste instante poderia desencadear tudo antes do previsto.

Atravessei a sala dançando. Não queria chamar mais atenção de ninguém e abri a primeira porta à direita.

“Pasmo”, acho que é tudo o que consigo dizer agora. Aquela situação me deixou completamente pasmo. Estava diante de um desleixo boçal! Bem na minha frente havia quatro tripudiadores em uma espécie de reuniãozinha particular. Que erro estúpido, grosseiro… fiquei admirado! Qualquer um poderia abrir a porta e percebê-los. Só hoje as coisas começam a se esclarecer pra mim. A minha única vantagem era que eles de imediato não tinham me percebido, por isso consegui observá-los com mais cuidado.

Estavam trajados sofisticadamente, como todos os convidados ali presentes. Não tinha dúvida disto, eles participavam da cerimônia. Mas algo os entregava, ou melhor, os diferenciava dos demais: o tom escroto da voz. Apesar de estar bem baixo – pelo menos nisso esses boçais pensaram – era ríspido. A impressão que se tinha era de que um não conseguia perceber claramente o teor do discurso do outro. Um deles, ao ter o disparate de levantar o braço, me percebeu, tenho certeza disso. Tremeu da cabeça aos pés por um instante tão rápido que cheguei a pensar que fosse eu quem tivesse tremido. Rapidamente baixei a cabeça para tentar demonstrar que estava preocupado com algum assunto meu e também para demonstrar um certo desinteresse no discurso deles.

Aquela sala tinha um eco estranho e eles aumentaram o tom da voz. Aquilo veio como uma onda e instintivamente não tinha mais como disfarçar. Olhei para eles – que jogada arriscada, poderiam muito bem ouví-los. Flexionei minha boca, assim, bem sutilmente para dar só uma impressão de não desconforto com aquela situação. Irresponsáveis, cretinos, iam me descartar junto com eles! Precisava sair dali o mais rápido possível. Voltar era impossível, seria entregar e desistir de tudo. Tinha que passar por eles e atravessar aquele corredor. Quando comecei a andar, tiveram o disparate de vir na minha direção – eu não conseguia andar! – até que começaram a rir. Ao chegar perto de mim, falaram em uma tonalidade propícia a não chamar muito a atenção, mas que também desse para eu compreender perfeitamente: “estória engraçada!” – piada! Que merda é essa! Por um rápido instante, me auto-iludi com essa… “piada”. Nesse momento de extrema estupidez injustificável de minha parte, deixei transparecer uma sensação de alívio. Mas também um deles se entregou. Acho que não esperava uma reação tão estúpida minha. Ele enrugou a testa, empalideceu, contraiu o cenho e fixou o olhar em mim bem na hora em que passei por ele, ato que me esfriou até a ponta da espinha. Percebi na hora que estava sendo analisado. Era um amador!

Não tinha muito tempo para conjecturar. Sabia que algo estava acontecendo; tinha a certeza de ter visto Candeia cantar. Aquele grupinho não me preocupava, apesar de aquela cena ter sido muito estranha. Eles normalmente não teriam a liberdade, e muito menos a ousadia, de fazer o que fizeram. Alguma coisa estava acontecendo. Precisava analisar Candeia!

Andei mais um pouco, até que saí daquela situação. Mais uma sala, mas esta era periférica à festa. Sabia disso! Empanturrada… confesso que aquilo me incomodava. Estavam perdendo o controle. Como é que pode uma sala… uma sala lotada! Empurrei um gordo que pululava feito flor na minha frente. Sua banha afastou dois. Entrei empurrando quem impedia meu caminho, até levar na nuca um murro de um filho da puta que me faz perder o contato com o chão. Segurei uma camiseta, agarrei-a com força e puxei-a em minha direção. A pessoa da camiseta, perdendo o equilíbrio, cai em cima de mim. Procurei algo para me fixar. Algo que me pareceu ser uma espécie de renda. Lembro-me que enroscaria meus dedos nela. Ouvi um gemido. Quase que por instinto parei de fazer força para saber o que é que de fato gemia.

…totalmente desajeitado, dou uma risadinha sem graça para demonstrar a minha completa isenção àquela situação. Tentei olhar para ela, mas ela encostou as mãos no meu rosto. Afastei-me com certa discrição. Empurraram-me de novo e em sua direção. Tremia. Ela olhou-me com um olhar meio que de incômodo; minha cabeça dói; bati com o meu rosto no ombro dela; meus dentes doíam; minha cabeça doía; meus dedos me incomodam! …se desequilibrara. Seus braços se liberaram, ergueram-se assim descompassadamente até cair no chão. Os supercílios se abriram e o sangue escorria. Ela era branca demais! Puxei-a pelo colarinho. Seu corpo apoiou-se quase que por completo no meu. Ela tentava limpar com as mãos o sangue que já a estava incomodando. Tentava se compor. Senti agonizar! Ela abriu a boca, aí eu não aguentei, foram dois sopapos. Enfiei a minha mão pela sua gola. Afrouxei-a um pouco para poder ter uma maior mobilidade com os braços, mas ela voltou a se debater…

…sobre tudo aquilo que estava acontecendo, vou tentar ser um pouco mais claro: as pessoas que estavam ali presentes e que participavam daquela cerimônia não demonstravam, pelo menos perceptivelmente nenhuma diferença gritante entre si. Chamo de cerimônia pelo mesmo motivo de explicitar que não havia, e não havia de fato, ninguém ali tão diferente um do outro. Talvez o mais diferente entre eles fosse o próprio Candeia, não pela sua aparência, mas sim porque o conheço razoavelmente bem. Acho, então, que posso ter a ousadia de dizer que ele não se enquadrava naquele ambiente e, ademais, o restante da história comprovará a minha observação.

O que me estranha mesmo é o fato de ele ter sido tão vulnerável ou os seus amigos – pois não acredito que ele tenha ido sozinho – não terem percebido nada, o que dá no mesmo, terem deixado que ele agisse do modo como agiu. Ele se expôs demais! O próprio fato de ele se expor demais chamaria a atenção das pessoas que o conheciam, e ele é esperto o bastante para percebê-las, então pararia de se expor; e se ele não conhecesse as pessoas que o cercavam, não chegaria ao ponto de se expor. Então, por que ele agiu daquele modo? Este é ponto a que quero chegar. Minha conclusão é aquela a que mais tarde o próprio Candeia também chegaria: a conclusão de que ali estaria ocorrendo um complô. Primeiro vamos esclarecer como se constitui um complô, não por pedantismo de minha parte – tudo bem, podem me chamar de pedante – vão à merda! Não me interessa. O que me move é tentar esclarecer este ponto que é fundamental para continuar a minha exposição.

Um complô, para funcionar seguramente, pressupõe que tudo já fora armado e planejado com antecedência e que todos, ou grande parte daqueles que se encontrem no recinto na hora do seu desfecho, participem dele. Este é o ponto que quero defender e discutirei cada parte dele agora.

Primeira parte, a premeditação: vamos, por um acaso, supor que um complô não precise ser premeditado. Bom… se o ser Sofredor (sofredor do complô) for um pouquinho esperto, logo irá perceber contradições dos Agentes (agentes do complô) e, com isso, desmascarar todo o trabalho que eles tiveram. Peço incisivamente que não se iludam neste ponto!

Vamos supor ainda que o complô tenha sido apenas parcialmente premeditado. Esse trabalho correrá o risco de ter sido em vão, mas aí os incrédulos vão me dizer: “é impossível premeditar tudo”. Tudo bem, eu concordo, mas cada ponto não premeditado é um possível ponto de desmascaramento. Aí vão continuar me dizendo: “como é possível premeditar tudo?”. As pessoas geralmente esquecem de que o que de fato importa é adquirir a confiança do Sofredor. Todo ato tem de ser premeditado visando não à perfeição, mas sim a evitar qualquer possibilidade de desconfiança do Sofredor. Há que se criar um forte lastro de confiança entre os Agentes e o Sofredor.

Segunda parte, a participação de vários não-Agentes no exato momento do desfecho do complô: a premeditação passa a não ser necessária apenas para o Sofredor, mas sim para todos os não-Agentes ali presentes. É bastante arriscado. Todo o trabalho poderá ter sido em vão. Volto a repetir: não basta premeditar todas as reações do Sofredor, mas também as reações de todos os não-Agentes. Qualquer não-Agente poderá estragar todo o plano. Então me vem uma pergunta extremamente necessária: como fazer uma festa só com Agentes? Para mim a resposta é simples mas gera consequências extremamente trabalhosas e eficazes. Introduza cada Agente em um intervalo de tempo e calcule cada reação do Sofredor. Vou ilustrar o caso com exemplo abstrato.

Pegue um dos seus principais Agentes e o aproxime do Sofredor. Aproximar uma pessoa da outra não é uma tarefa difícil, mas se o Sofredor o rejeitar, então descarte o Agente e inclua um outro com características diferentes. Faça isso em um período de tempo razoável para que o Sofredor não desconfie de nada. Qualquer um desconfiaria se, de uma hora para outra, várias pessoas viessem a se enturmar com ela. Algumas correntes de pensamento acham que é mais seguro e mais rápido apresentar um grupo e insistir na pessoa com quem o Sofredor mais se simpatizar. Afirmam que o Sofredor tem uma gama maior de escolha. Parece mais tentador, mas não se iludam, é muito arriscado. Um grupo tem seus padrões de conduta e eles se conhecem há mais tempo que o ser novato. Esse ato poderá desencadear uma série de desconfianças, ou seja, pra que arriscar?

Insira um bom, um em quem você tenha confiança e que analise cada reação do Sofredor. Quando achar necessário e como você conhece melhor o material com que está trabalhando, inclua um segundo Agente e assim sucessivamente.

Outro ponto importante: caso o sofredor se enturme com um não-Agente ou caso ele já tenha um grupo de não-Agentes ao seu redor, procure afastá-los. Táticas para isso são inúmeras e a literatura é vasta sobre isso, mas confesso que sinto uma atração maior por fazer com que o Sofredor se desacredite dos não-Agentes, e caso um desses seja muito apegado ao Sofredor, você pode até descartar um Agente fazendo-o caluniar ou se envolver com um não-Agente. Outro aviso importante: não crie “um mar de rosas” em torno do Sofredor. Isso também pode gerar desconfiança. Às vezes é bom criar atritos, mas tudo visando à dependência do Sofredor em relação aos seus melhores Agentes. No momento de maior dependência e se você já estiver seguro, aí se pode dar o bote final.

Seguindo esses pressupostos, a tendência é a de que o resultado seja obtido com êxito e, neste caso, foi. Eles seguiram milimetricamente o planejado. Para mim, isso corrobora a experiência dos agentes, um trabalho de profissional. Por tudo isso, eu não chamo aquilo de um simples complô, mas de uma verdadeira cerimônia.

Mas antes de me chamarem de aproveitador por teorizar em cima de uma linguagem extremamente carregada e com altos desvios semânticos, podendo assim afirmar que eu abuso de uma fôrma que gera termos dúbios; e antes de achincalharem o meu sistema de raciocínio por se apoiar em abstrações que me possibilitariam obter, por simplificar demais o meu universo, uma lógica interna, e ao incluir um fato novo, o que estaria fazendo na verdade não era nada mais do que cortar o real para que ele se encaixasse na minha teoria…

…algo devia atraí-los!? Algo devia fazer com que eles agissem como agiram. O complô ganharia um grau de eficácia maior se, de alguma forma, abstraísse a volúpia humana, mas como? Vamos conjecturar: conteúdo intrincado, alguns podem até chamar infantilmente de paranóico. Por isso vamos retirar o conteúdo. Vamos ficar somente na aparência. Vamos ficar no “como se”: as pessoas agem como se visassem ao complô, mas algo camufla o complô. O problema de fato está na pergunta. Tentar descobrir quais são as intenções obscuras das pessoas que praticam o complô é uma falsa questão. A pergunta correta seria: por que as pessoas agem como se estivessem praticando um complô?

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Se o problema está na pergunta, não haveria nada que me impedisse de fazer uma outra pergunta: o que me fez fazer a primeira pergunta? Ou, por que dentro do meu sistema de raciocínio, esta pergunta me pareceu ser mais imediata ou, melhor ainda, o que me fez parecer ser esta pergunta mais imediata?

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Candeia cantava! Minha mão tremia. Enfiei-a imediatamente no bolso da calça. Da minha, minha calça.  Traiçoeira, ela era extremamente traiçoeira. Não tem como inicialmente ir além dessa definição. Os bancos estavam encostados nas paredes, possibilitando assim que qualquer deslize pudesse ser observado. Posso até dizer que ela estava cheia, porque todos os bancos estavam tomados e algumas pessoas estavam de pé. Candeia canta solto!

Cantavam, uma qualquer… uma qualquer…

…não consigo lembrar o nome. Gostaria de lambê-los. Adoro lambê-los! Tenho alguns dentes que não funcionam muito bem, eles doem! Minha mandíbula sempre dói também, mas isso não me incomoda. O que me incomoda mesmo são os dentes. Costumava morder meus dedos para depois lambê-los. Meus dedos esmagados. Queria vê-los esmagados… não os suporto! Minha barriga dói… quero esmagá-los! Quero esmagá-los com a minha barriga!

Eu queria abrí-la. Abrí-la com meus dedos. Meus dedos esmagados. Abre, filha da puta! As pessoas se afastaram, mas eu comprimi os limites para que elas se aproximassem. Com meus músculos crio bancos para que possam se sentar. Preciso secar o chão para que não se escorregue… tento soprar, mas arde. Não quero panos!

Os músicos já estavam inquietos com a intromissão. Aproximei ainda mais as paredes e iluminei-os bem. Veias esverdeadas aglomeram-se com músculos em forma de viola, ato prontamente percebido e aproveitado pelos violeiros que já começaram tocando em dó maior. Queixas agora seriam intoleráveis. Empurrá-los-ia direto ao reto.

Entra uma flauta melosa e lamuriosa que resolve, de certa forma, os espaços abertos por um violão cortado, que tem uma agressividade reprimida porque ele nunca se resolve. Chega o momento, impetuoso de sua parte, em que ele aumenta a sua tensão – tenta se resolver sozinho – mas a flauta não o acompanha, então ele desiste rápido, num tom único de resolução melosa, até que a flauta dá uma forma mais agressiva para o violão, provocando uma quebra súbita que introduz os cantores, o chocalho e o pandeiro.

Os cantores se apoiam na fôrma dada pelos instrumentos apresentando um discurso de certa forma vazio:

“Deixe-me ir preciso andar

vou por aí a procurar

rir pra não chorar”

Discurso esse que, de apoiado, passa a apoiar o violão e a flauta, mas é rapidamente desqualificado pela cuíca e por uma viola seca. Armadilha preparada e armada.

Mesmo com o chão escorregadio, alguns já se animam a dançar. Coloco um pouco mais de gordura no banco de Candeia. Encravo um dos meus ossos só para dar apoio aos seus braços e vou avançando milimetricamente o seu banco em direção ao centro da sala. Sua confiança aumenta, isso é facilmente perceptível – ele batia com os dedos o ritmo da música nos meus ossos. Jogo alguma luz para ele. Sente-se confiante. Arrisca algumas notas, o suficiente para que eu pudesse perceber sua tonalidade. Contraio as veias-cordas dos violões para forçar os músicos a tocarem em lá menor. Sem problemas! Candeia se adapta facilmente, chegando ao ponto de se arriscar soletrando uma das frases. Os músicos percebem a ousadia e incentivam com olhares de apoio. Candeia começa a cantar. Focalizo minhas luzes nele. Candeia então abre a boca e canta solto.

“Deixe-me ir preciso andar

vou por aí a procurar

rir pra não chorar”

A viola e a cuíca o desqualificam. Algo trava na voz de Candeia, o que não o impede de continuar cantando junto com os outros. Volta a ter confiança e canta um pouco mais firme, com as resoluções todas muito bem definidas.

“Deixe-me ir preciso andar

vou por aí a procurar

rir pra não chorar”

A viola e a cuíca assumem uma forma extremamente agressiva, cortando o canto de Candeia. Ele olha para os lados, está indignado! Canta gritado:

“Deixe-me rir preciso an

Perde o compasso – percebe-se perdendo o controle – a letra, mas mesmo assim continua cantando…

Vou te trr tatata

vo vir prarrá vão tumatar”

***

Conto inédito escrito em 1997.

Leandro Safatle é consultor em economia formado pela UNB. Publicou diversos artigos e estudos em revistas especializadas da área como Economia Aplicada da FIPE-USP e outras. É professor e diretor da Apfil, produtor de cinema e de cachaça e membro do coletivo editorial da Revista Zagaia.

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