BRANCO SAI, PRETO FICA

(escrito originalmente para o Le Monde Diplomatique)

Poucos filmes causaram tanta discussão nos últimos anos como “Branco Sai Preto Fica” do diretor Adirley Queirós, agora nos cinemas. Premiado como melhor filme no último Festival de Brasília, é um misto de ficção e documentário que parte de um massacre em um baile Funk nos anos 80 em Ceilândia, cidade satélite de Brasília, quando a polícia invadiu o espaço gritando: “Branco sai, Preto Fica!” antes de começar o linchamento e os tiros.

A narrativa acompanha a saga de um detetive que vem do futuro para apurar os crimes contra a juventude negra no Brasil.

O artifício da ficção científica é a solução que o diretor encontra para investigar uma violação que é natural no Brasil desde nossa colonização – o genocídio da população negra. Na melhor linha do cinema terceiro mundista que transforma suas limitações em elemento criativo, Adirley coloca o detetive Dimas Cravalanças, interpretado pelo ótimo Dilmar Durães, viajando no tempo em uma caçamba de metal, em busca de provas contra o Estado brasileiro pelos assassinatos de jovens negros periféricos. O filme brinca com suas própria precariedade criando um efeito de distanciamento que exige do espectador uma atitude crítica frente a história que nos é descortinada.

A investigação nos leva a dois personagens centrais, homens mutilados pelo massacre policial: Shockito e Marquim da Tropa (em interpretação magistral). Aqui realidade e ficção se confundem. O isolamento destes dois personagens, seus silêncios reveladores, as narrativas dissipadas no passado resultam em um acerto de contas que só pode ocorrer no campo simbólico posto que não existem direitos para os que vivem à margem. Estes “não acontecimentos” são mostrados em um tempo próprio, embalado por velhos funks apresentados por Marquim em sua rádio pirata.

Com “Branco Sai Preto Fica” Adirley, diretor do também fundamental “A cidade é uma só?”, firma-se como um dos mais importante realizadores do cinema brasileiro contemporâneo e aponta novos horizontes para o nosso cinema político. Marca o nascimento de uma cinematografia provocativa, inventiva e poética que chegou para incomodar e que não busca agradar ninguém.

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