BaixoCentro: uma festa e nada mais

Vai-se por mim à cidade dolente,

vai-se por mim à sempiterna dor,

vai-se por mim entre a perdida gente.

 

Moveu-se a justiça o meu alto feitor,

fez-me a divina Potestade, mais

o supremo Saber e o primo Amor.

 

Antes de mim não foi criado mais

nada senão eterno, e eterna eu duro.

Deixai toda esperança, ó vós que entrais

Dante, Divina Comédia, Inferno, Canto III

 

A visibilidade de uma festa do BaixoCentro tem como eixo as manifestações que acontecem sem rancor, sem dor, sem risco. Neste sentido, é sintomática a série de pequenas inversões pela qual se avalia o sucesso de um empreendimento cultural da escala desta festa, tal como os artigos de Gabriela Leite nos possibilitam pensar:

“Realizado em março de 2012, o Festival BaixoCentro disparou um movimento que marca a cidade desde então. Ao ocupar com atividades artísticas e debates uma vasta área da cidade entregue ao concreto e aos automóveis, abriu caminho para que coletivos culturais reivindicassem a retomada dos espaços públicos da região. As ações ganharam alcance cada vez maior. As mais recentes, na praça Roosevelt, reuniram até 20 mil pessoas e procuraram interferir nas eleições e no futuro da cidade. Foram citadas inclusive no discurso de posse do novo prefeito, Fernando Haddad. Agora, esta sequência vai ganhar novo impulso. Os organizadores do BaixoCentro preparam uma segundo edição. Querem manter as ações lúdicas, estéticas e simbólicas, porém aprofundando ainda mais a reflexão sobre um projeto alternativo de cidade e os caminhos para construí-la” (veja aqui)

Nesta pequena descrição, valeria a pergunta: por que ir neste festival? Ao fazer tal questão, penso no militante engajado, interessado e articulado nas críticas ao capitalismo. Penso ainda, nos artistas que mobilizam este festival, marcando presença com outro tipo de participação: as pessoas que levam seus conteúdos para que os “cuidadores” viabilizem suas manifestações. Neste sentido, a descrição de Gabriela Leite nos possibilita inúmeras justificativas: vou porque quero discutir a cidade e suas armações de concreto, suas vias de automóveis. Vou porque penso no futuro da minha cidade. Vou porque não se pode mais protestar contra as misérias do capital com rancor, mas com o amor erótico presente em ações lúdicas, estéticas e simbólicas. Gabriela Leite insiste ainda em outro ponto: que “O festival é organizado apenas por pessoas, sem apoio de empresas e ONGs, e tem o financiamento feito por financiamento coletivo (crowdfunding), leilões e doações”. Tudo é narrado como se ali as relações fetichizadas se dissolvessem no ar com tudo o que é sólido. Ao invés de relações entre instituições e objetos frios que produzem as pessoas, são as pessoas que produzem seus meios e articulam suas expressões. Será?

Teria esta festa a capacidade de inverter o fetiche num passe de mágica? Seria capaz de trocar na ocupação das ruas a cadeia capital Dinheiro-Pessoa (versão adaptada para o vocabulário pós-moderno. Antes se falava em “força de trabalho”)-Dinheiro’ (D-P-D’) por uma relação transparente entre pessoas? Tudo leva a crer que a lógica do Crowndfunding permite tal regime de transparências: como se as pessoas engajadas no projeto coletivo, somassem seus esforços e meios para que a relação entre pessoas seja possível. Mas a sombra de suspeita permanece ao divulgarem uma festa neste último fim de semana para se arrecadar dinheiro para realizar o festival. Aqui se revela que o passe de mágica que procura inverter o fetichismo, na verdade reforça-o em uma nova cadeia: Pessoa-Dinheiro-Pessoa’ (uma pessoa com menos rancor e mais humana, em um mundo desumano). Uma sequência que operada ad infinitum apenas retoma o pensamento mágico fetichista que dizíamos no começo: Dinheiro-Pessoa’-Dinheiro’, com um plus: há uma alma humana presa na gaiola do fetiche. Mercadoria com alma, um projeto socialista utópico das antigas que não faz a transformação necessária, apenas repete com novos termos de engajamento toda a merda do capital. Infelizmente, este é o ciclo que o festival não quebra.

Diante do deus-fetiche, que se mostra de diversas formas (preferindo a forma-mercadoria), nada mais natural e expressivo do que a pergunta que vem nesta versão 2013 do BaixoCentro. De acordo com a própria Gabriela Leite: “ocupamos, e agora?” Uma pergunta que parece herdar as manifestações do ano passado nas praças de diversas cidades, cujo signo da ocupação era um marco de liberdade e novos ares.

Ocupamos, e agora????

No entanto, há uma curiosa retórica infiltrada nesta pergunta. Não é que os organizadores estejam usurpando a resistência destes grupos de ocupação (muitos dos que dela participaram apoiam e enviarão contribuições para o BaixoCentro). De fato, o pior argumento para compreendermos o BaixoCentro é pensá-lo como um ato de má-fé. Volto a insistir que é necessário perguntar: por que participar da festa? como um militante aguerrido que vai em busca de pessoas. Mas, o curioso da questão é este ato que parece mobilizar procurando respostas. Ou seja, “e agora?” solicita um “quê fazer”, uma ideia de mobilidade intensa para fazer daquele instante o momento de mudanças. “E agora?” é uma questão que procura articular os que ocuparam aquele lugar para ressignificá-lo sob o olhar múltiplo de quem participa, ativa ou passivamente, das relações estabelecidas no BaixoCentro. Há aqui um apelo ao engajamento que incentiva todos os que querem se mobilizar para fazer algo (da transformação pelos mais radicais à preservação entre os mais conservadores, ambos os grupos convivendo sem rancor no mesmo espaço público).

O que há de retórico nessa questão é que se apela por uma resposta, sem questionar a própria pergunta: seria essa a melhor questão? Ou ainda, o que está implícito nela? Como disse, não se trata de má-fé, mas de pura fé (artifício fundamental no pensamento fetichizado): a pergunta esboça a retórica do “estamos todos no mesmo barco. Vamos fazer algo para que ele não afunde!”. Entretanto, é preciso atentar à sequência das palavras: “ocupamos, e agora?”. Há duas maneiras de se pensar a palavra “ocupamos” nesse contexto: ocupar como modo de se modificar o local; ocupar como um império, as suas colônias. A qual destes dois sentidos, esta pergunta cabe mais?

Curioso notar que o MST, por exemplo, quando ocupa terras improdutivas sequer esboça a  pergunta: “e agora?”. Simplesmente porque sabem o terreno em que pisam. Não entram na fazenda como alienígenas, mas sim para “ocupar, produzir e resistir”. O mesmo vale para outros movimentos que tem na estratégia de ocupação seu principal artifício. A pergunta do BaixoCentro cabe, pois, mais ao exército colonialista do que ao movimento social: “estamos no Vietnã, e agora?” Claro, não se trata de afirmar que todos os organizadores do BaixoCentro apenas reproduzem a estratégia imperialista da indústria cultural em uma nova onda de economia criativa. Mas sim, de afirmar que nessa questão há um descuido que beira ao colonialismo. Ao provar que são capazes de organizar um festival em um espaço público, sem qualquer autorização oficial (e com louvas do novo prefeito), o movimento oculta o sentido colonialista com o qual suas mentes se apropriam daquele lugar.

Tudo se passa como se o Baixo Centro (o bairro e não a festa) fosse um espaço público pronto para ser ocupado; um vazio sem gente que precisa de pessoas para que o espaço se torne visível e nos faça repensar o que lhe resta de público. Nas declarações do Festival e seu sucesso, com direito a homenagens narcísicas da organização, é enaltecida mais a quantidade de pessoas que o evento foi capaz de reunir (o que converge com o pensamento fetichista do qual eu falava há pouco) do que a qualidade das relações ali estabelecidas. Que tipo de sucesso é esse? Aliás, que tipo de caracterização é essa de um evento que pretende ser, não digo político, mas crítico dos valores que estão aí? Sucesso???

Pensando em tudo isso, prefiro ser nômade a colonialista – dois tipos muito próximos, não fossem suas intenções. Prefiro andar pelas ruas a festejar suas misérias, prefiro notar quem nelas sofre cotidianamente (as pessoas reais que mobilizam o mundo), do que festejar num ritual antropológico de pujança cultural-simbólica (Gabriela Leite se esquece da palavra “político”) que dança no pórtico do inferno descrito por Dante. Afinal, de nada adianta frequentar o BaixoCentro com o olhar de alguém que o observa pelo alto, longe das pessoas, perto dos seus monumentos.

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