Aula de democracia, sem cultura da democracia?!?!

“Fui agredido fisicamente durante a manifestação

e esse é o limite da democracia, ninguém pode tirar

o direito do outro de ir e vir, era apenas isso que eu

tentava fazer”

Andréa Matarazzo, na ocasião Secretário da Cultura

do Estado de São Paulo, 28 de Janeiro de 2012

Desacostumado com o debate e no alto do pedestal, a elite minoritária toma de assalto a voz da maioria. Daí amplificam seu discurso pela mídia que transforma a revolta em imagem da indigência, da intransigência, da ausência de diálogo. Por trás de tudo isso, a sombra do esquecimento. Memória curta, pois apenas em um mês a imagem do desgoverno paulista foi de agressão gratuita, agressão física contra a miséria social que eles próprios administram há muito tempo. E como aprendemos neste episódio, a agressão física é o limite da democracia. Ora, quando a força policial age conforme sua formação, agredindo o cidadão para proteger a cidade, quando o único diálogo é o do porrete, é preciso perguntar: que cultura da democracia é esta, sr. Matar-raso???

Democracia real??? É preciso lembrar que o real é bem mais do que a moeda? Ou o real é que a democracia é este espaço de polarizações e da velha luta de classes? Como anunciava o governador para a estudantada da USP: aulas de democracia… Não esperava este curso intensivo de férias. Já em janeiro podemos perceber bem o que isso significa: democracia com força policial, com direito a Bispo católico abençoar atrocidades, com direito a socialites indignarem-se com a boca cheia de botox. E assim foi: incêndio (criminoso) na favela do centro, ocupação da Luz (vulgo cracolândia), desocupação de Pinheirinho. Métodos como este aspiram à democracia real, aquela que questiona revoltada os seus principais representantes, burocratas que se afirmam parte da alta cultura, truculentos diante da divergência. D. Clementina já dizia: “Tem muito diplomado que é pior do que selvagem”.

Estão politizando Pinheirinho? Ora, bolas! Mas isto é político mesmo!!!! Não se trata de mera questão habitacional. O déficit habitacional é o quadro político da desigualdade social em que o Brasil ocupa uma das principais posições. Não adianta o Real econômico sem a democracia real. Crescimento econômico sem distribuição social é pinto! Mas a voz silenciada não se cala. Hoje, Matar-raso, abandonado pelos ratos de seu navio (o Titanic da Arte Contemporânea), o governador-reitor Geraldo e o reitor-governador Rodas, pode ouvir, sentir, e cheirar a massa – pequena, numericamente, mas grandiosa no terrorismo que precisa ser feito.

A cultura da democracia é esta: gritos contra as injustiças, sentidas na pele. Esta aí o conteúdo da aula de democracia real: afastar do campo político todos os intolerantes, toda a brutalidade. Eis uma das lições que a história da América Latina tem nos deixado; eis porque nada mais natural do que a manifestação acontecer no que seria o museu sacrossanto da Arte Contemporânea, como vangloria o secretário.

Mas a arte não é o lugar do esquecimento, e sim, do desvelamento. Nada significa o sagrado direito de ir e vir, para aqueles que não tem onde morar, para aqueles a quem o futuro foi usurpado. Nada mais justo do que imobilizar os responsáveis por suas injustiças: ir pra onde? Vir de onde? Mover-se como um histérico, surdo em sua fantasia? Nada mais contrário à política do que este triste movimento…

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