And the Oscar goes to…

Momentos de expectativas antecedem à conhecida frase. Já batemos na trave com Central do Brasil. Depois com a publicidade bem montada de Cidade de Deus e agora, nada menos surpreendente do que a indicação da comissão do ministério da cultura para o filme Tropa de Elite 2 concorrer ao Oscar.

Citando um dos motivos mais representativos, lembremos o mago Ratimbum em sua declaração burocrático-estética, em reportagem da Agência Brasil: “É o resultado de um processo que estamos construindo nos últimos anos”. Declaração interessante que na ponta afiada da Zagaia pode ser interpretada de diversos modos. Naturalmente, o burocratartista estava elogiando o crescimento das produções brasileiras em participações de eventos mundiais como os Oscares da vida. Mas o que significa o “resultado deste processo”?

Não é a primeira vez que declaro o que penso de Tropa de Elite 2, algo que resumo nos termos de uma brutalização do campo político com roupagem de discurso de aparência esclarecida. De modo que o que a declaração do secretário Mamberti (e não o Nascimento. Não confundamos!) deixa a pensar é: o longo processo que se trabalha é a brutalização nos processos de cultura?

Alguns vão dizer que não é bem isso, que esta conclusão é exagero e tal e coisa. Vão lembrar as declarações laterais que oculto até então: de que na verdade o filme merece a expectativa na medida mesma em que tecnicamente é impecável (qualidade de imagem padrão Globo filmes, que encanta até mesmo as senhoras mais recatadas), e mais, quanto ao conteúdo, de um filme que “aborda aspectos da nossa realidade tão dolorosos, mas também mostra a emergência do cinema brasileiro”, como afirma Mamberti. Trata da corrupção, tema atual que mobiliza gregos e troianos! Fala de tudo o que se quer dizer. É representativo do povo brasileiro que aclama Nascimento como seu herói nacional mais contemporâneo.

Com o perdão do exagero, Stálin (tomando um ditador mais light, tanto quanto a versão pop-Bope no RJ) em seus momentos mais criteriosos, também não deixava de apontar os problemas da realidade, ainda que em seus registros paranóicos mais delirantes (afinal, como diria Lacan, o psicótico não está distante da realidade, pelo contrário, vive sem a capacidade de efetivar qualquer registro de deslocamento sobre ela). Exagero?

Diante de tudo isto, resta perguntar: que projeto é este em que Tropa de Elite 2 é o resultado? Atingir demagogicamente o “gosto” do público brasileiro, ainda que o filme fale da corrupção possível (de maneira bem plausível) nos corredores daquele ministério? Agradar os americanos, mostrando o Rio que eles já tem na cabeça: o lugar-perigo, cenário de filmes de ação, violência e sexo banalizados?

De tudo isso, não questiono aqui a indicação do Oscar. É merecido mesmo e nada surpreendente para um filme deste calão. Enfim, o Oscar é o lugar natural e o grande encerramento de um filme como este. Daqui a pouco, veremos o olhar de Padilha em seu remake de Robocop, em um mundo em que a cultura do medo é repetida todos os dias. Nada melhor, pois, para a indústria cultural de uma Hollywood falida e que vê no South American Way a esperança de que o medo prevaleça. Seria este o longo processo do Ministério? Mistérios do fantasmagórico “sistema”…

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