América Latina nos conclaves ou com Chávez?

“A igreja de Francisco l, o jesuíta, está profundamente comprometida com os pobres, mas também com a doutrina”

Reinaldo Azevedo, twiter

A fumaça branca cheira à ovo podre de serpente.  Depois de inúmeros golpes políticos, o movimento conservador tenta sua última ficha: o pensamento religioso. Neste sentido, nada mais conveniente do que a escolha do cardeal argentino Jorge Bergoglio, vulgo Francisco I.

O bombardeio em Santiago, 1973

São golpes de natureza diversa daqueles que conhecemos na versão com roteiro escrito pela CIA & Cia., sob o nome “Operação Condor”, ou nos desertos ricos em petróleo. Ali,  a intelligentzia conservadora aprendeu com o tempo, o duro preço de se financiar ditadores e ditaduras civis-militares. Se, nos anos 1960, o modelo articulava uma ação de Ordem e Força no quintal dos Impérios (com a perda de territórios e colônias em um mundo que se modificava após duas guerras); ou ainda, se, nos anos 1970 e 1980, o modelo era o financiamento de líderes nas terras ricas em petróleo (não apenas as do Oriente Médio, mas também, a Venezuela da América Latina), seguida de uma tranquilidade conservadora de Paxde cemitério nos anos 1990 e 2000; algo de novo se manifesta nestes golpes do século XXI.

Sim, ao lado do “socialismo do século XXI” (concordemos ou não com as suas estratégias ou táticas) acompanha uma resposta conservadora do século XXI.

A cara da América Latina

A imagem de Chávez, de fato, ganhou força na América Latina como um todo. Desestabilizou nos anos 1990 o poder da Águia Americana com um novo discurso, com uma nova figura naquela terra, outrora, mais próxima de Miami do que de Caracas. O venezuelano retirava do eixo neoliberal uma de suas principais bases petrolíferas, iniciando um projeto de erradicação de miséria e um discurso de combate à ladainha imperialista que assolava até então corações e mentes de uma população abatida pelo cinismo da reengenharia político-econômica. Critiquemos ou não,  Chávez, se não mudou, ao menos possibilitou a mudança que carrega as antigas faces da América Latina: indígenas, operários, mulheres no poder.

Não está em questão, aqui, o acalorado debate que divide as esquerdas. Deixemos de lado, por um instante, a crítica destas figuras, a qual deve ser feita. Detemo-nos no quadro que se pinta com Francisco I.

Nada mais conveniente do que, após a morte de Chávez (cuja estatura simbólica de liderança da esquerda quase chega a alcançar a altura do romantismo guerrilheiro de Che), o campo conservador se articule e encontre no pensamento religioso seu último bastião. Estratégia sintomática de um campo de forças que já tentou de tudo para trazer seu discurso à tona em uma América Latina que é cada vez mais plural e que, a todo instante, insiste em revisitar seu passado e condenar os seus crimes. Com Francisco I estão preparadas, mais do que um revival  da marcha pela família, as estruturas de um pensamento conservador que obstrui os debates mais necessários para uma América renovada, substituindo esta pauta por questões medievais  em torno da origem da vida, o direito matrimonial e, não será absurdo, o sexo dos anjos. Uma América que anda pra trás. Não seria – mudando um pouco a religião, mas não de pensamento religioso – esta a posição mais do que estratégica do Pastor Marcos Feliciano? Uma cortina de fumaça que deixa de lado o direito dos negros, homossexuais e indígenas chacinados dia-a-dia nas quebradas deste mundaréu?

Odiilo e a santa PM

Marx dizia que a religião é o ópio do povo. Não o ópio que circula na Cracolândia, cuja repressão violenta e ineficaz da polícia militar paulistana foi apoiada pelas desastrosas declarações do ex-papável Dom Odílio Scherer. Trata-se de um ópio mais letal: que altera as estruturas de crenças. Crenças que organizam a perspectiva de futuro, e dos modos de vida. Crenças que alimentam as perspectivas simbólicas dos nomes das coisas do mundo em que vivemos.

A América Latina respirava um ar diferente nas janelas que se abriram com Chávez. Na varanda do Vaticano, o conclave que encerrou as mentes mais perversas, agora ameaça fechar nossas mentes no período de trevas simbólicas, de pensamentos maniqueístas e de santidade cínica. Basta voltarmos às acusações que pesam sobre a figura de D. Jorge Bergoglio, figura sorridente de quem sabe o lado da ditadura que mais fere. Escuridão com que uma igreja secular se habituou muito bem.

Figura que se nomeia como Francisco, o padre dos pobres. Nada mais conveniente numa batalha simbólica do que o diabo que confunde os nomes; que ressalta o mais valioso nas figuras políticas de Chávez e Cia., ou no “pai dos pobres” no Getúlio mítico de Lula; Francisco I é o nome novo de um corpo cansado e doente, onde os votos de pobreza e castidade são apêndices de uma hipocrisia moral.

Francisco I, Padre dos Pobres

Neste novo tabuleiro, os enigmas se multiplicam em torno de uma batalha simbólica de consequências imponderáveis entre as figuras progressistas que encarnaram Chávez e as conservadoras, de Francisco I. Afinal, qual a força desta mudança que se abre após Chávez? Como será a queda de braço entre a Santa Sede e a América Latina? Conseguirá Francisco I sobreviver à crise dos escândalos do Vatileaks? Será ele capaz de ocultar os inúmeros escândalos que não cessam de macular a desgastada imagem da Instituição Cristã? Qual será o lugar dos teólogos progressistas e da libertação que um dia ocupavam as pastorais de nossa terra? No interior destas questões, uma única certeza: agora, mais do que nunca, a guerra declarada se dá no campo simbólico.

Écrasez l´infâme!

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