Afinal a quem serve a crítica?

Um texto sintomático da omdudsman da Folha de São Paulo acendeu o alerta para o papel que poderá assumir em um futuro próximo os já medíocres cadernos de cultura. Entitulado “Vá ao teatro, mas não me chame” (20/08) o texto defende uma escrita menos “hermética” dos críticos teatrais visando um público de “não iniciados”.

Se é fato que muitas vezes os críticos esquecem do óbvio, ou seja, descrever o enredo apresentado, também é fato que os espaços para crítica nos diversos jornais são cada vez mais reduzidos. Insuficientes na maioria das vezes para o desenvolvimento de uma opinião que ultrapasse o “gostei” “não gostei”.  Fato que é ignorado pela onbudsman, que parece exercer a função não de “defensora imparcial” do leitor, mas de voz do senso comum e do pensamento ordinário. Ao concluir seu artigo a jornalista (profissão em extinção que já possuiu em seus quadros alguns dos melhores pensadores brasileiros) mostra realmente a que veio: “Além de reformar os textos, é preciso repensar a pauta, que deve incluir mais musicais, os espetáculos blockbuster, que ficam anos em cartaz, e descobrir os novos talentos do stand-up. Não significa aplaudir o que faz sucesso, apenas sair um pouco da praça Roosevelt.”

A pobre jornalista percebeu que a “praça Roosevelt” não representa a variedade de produções presentes em São Paulo! Ótimo! O que ela não pode perceber é que esta variedade vai muito além das imitações medíocres da Broadway e dos ‘stand-ups’ reacionários da trupe CQC e seu humor de hienas ressentidas.  Para além da praça Roosvelt há vida e pensamento pulsando no teatro paulistano: grupos como Folias, Latão, Oficina, Companhia São Jorge, Teatro de Narradores, Vertigem e Companhia do Feijão (no centro) e mais tantas outras que atuam na periferia paulistana como A brava, Clariô, Pombas Urbanas e Engenho teatral. E o fato é que neste rápido levantamento acabamos cometendo injustiças, deixando experiências as mais importantes e diversas de fora.

O teatro em São Paulo vive um de seus momentos mais ricos em criatividade, estética, crítica e reflexão. Mas a proposição da jornalista ignora este contexto para propor algo mais radical: a crítica não deve fazer a crítica, não deve apontar caminhos. A crítica deve servir de veículo publicitário para as peças que encontram o gosto do público. Ao aconselhar os críticos teatrais (que já não refletem a variedade de estéticas e discussões que acontecem hoje no teatro paulistano) a “descobrir os novos talentos do stand-up” ela mostra claramente sua posição, reflexo de uma prática crescente nos cadernos de cultura: pautar estes cadernos pela televisão e pelo consumo. Em síntese: pela medíocridade.

O que está em jogo é a própria função da crítica. Ao contrário do que pensa a “jornalista”, ela não se presta a acompanhar o gosto médio. Quem faz isso são os publicitários e os institutos de pesquisa. “As declarações dos críticos nem sempre coincidem com a opinião do público e isto não constitui uma novidade. Na história do teatro ao menos uma parte da crítica estimulou, em seu impulso vanguardista, a um público indeciso; a crítica deve combater no público a indolência, a força da inércia e a cômoda tendência de identificar o bom com o antigo.” Esta frase de Piscator, um dos grandes encenadores do século XX, poderia constar dos manuais de redação para combater a mediocridade que reina nas mentes de jornalistas mal-formados.

Entre os anos 40 e 70 era possível encontrar nossos principais teóricos e pensadores da arte contemporânea colaborando nos jornais. Eles tornaram-se faróis para um público pouco familiarizado com a arte, ajudaram a retirar o país da mediocridade colonizada que até então imperava, e colaboraram na criação de uma arte nova, livre e autônoma. Constituíram uma tradição crítica que deixou frutos duradouros tanto na prática teatral quanto em sua reflexão (infelizmente cada vez mais restrita à academia e a encontros restritos). O jornalismo brasileiro contemporâneo tende a abandonar esta trajetória e abraçar uma perigosa escolha pelo banal e vulgar.

A crítica teatral encontra-se em uma encruzilhada: de um lado a luta para ocupar o cada vez mais restrito espaço nos já bizonhos cadernos de cultura dos jornalões. De outro a criação de novos espaços de crítica e discussão e a tentativa de torná-los públicos. A Zagaia compreende a dificuldade desta escolha e se propõe a ser um destes novos espaços.

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