A Vizinhança do Tigre

Nunca fomos tão colonizados. Colonizados pelas narrativas norte-americanas (vide os pastiches de filmes de ação), colonizados pela estética televisiva (vide as globochanchadas que afloram nos cinemas com beneplácito do Estado), colonizados pelas formas narrativas complacentes do mercado de filme de arte (vide toda uma produção de filmes inofensivos, preocupados em seguir os modismos dos festivais europeus contemporâneos). Nos três casos filmes formulados de fora para dentro, a partir de modelos e conceitos impostos pela estrutura proto-fascista da indústria cultural, em suas facetas de comércio puro ou de “biscoito fino” para a elite bem pensante.

A vizinhança do Tigre é um dos raros filmes livres da nova geração. Um cinema que se faz em seu contexto social, a partir de sua vivência, experiência, troca. Um cinema dos marginalizados, construído com e por eles, numa experiência incomum de crítica radical à nossa estrutura social sem complascência e paternalismo. É um cinema de corpo. Corpos vivos, periféricos, livres, não domesticados, num presente de horizontes rebaixados, com poucas possibilidades de mudança. Mas também um cinema de alma, uma ode a amizade de meninos condenados por sua condição social e pela alienação imposta por nossa sociedade aos deserdados da terra.

Não há grandes acontecimentos. A trama é construída a partir de situações independentes, momentos de euforia e tristeza, numa estrutura que, embora avance linearmente, aponta uma circularidade: Juninho pode abandonar sua casa, mas é pouco provável que seu deslocamento traga uma melhor perspectiva. Menor, com seu skate, ocupa as ruas com seus amigos. Mas voltará ao seu abandono cotidiano. Não há ascese, não há redenção. A vizinhança do Tigre é a crônica de uma tragédia chamada Brasil. Os personagens avançam permanecendo no mesmo ponto, em uma lógica tecida pela poesia e crueza das imagens. Os acontecimentos progridem linearmente, mas a sensação é de imobilidade e fim de linha. Uchoa faz cinema moderno, tal qual o caracteriza o cineasta Rogério Sganzerla: “a única possibilidade de conhecimento dá-se com a captação da superfície dos seres e objetos, num eterno presente – que constitui o instante privilegiado, o instante da liberdade.” Mas no caso de “A vizinhança do Tigre” este eterno presente ganha nova significação ao apontar também uma ausência de futuro.

O Estado aparece no filme como fantasmagoria. É a opressão que pode levar os jovens periféricos à cadeia a qualquer momento ou executá-los em uma chacina. É também a educação falida, sentida como inútil. As instituições são ruínas, assim como o espaço que os cercam. A única mediação possível com a sociedade é feita pelo braço armado do Estado ou pelo consumo.

Mas nem tudo está perdido na tragédia de Vizinhança. Há a revolta latente nestes corpos não domesticados, mas alienados de sua condição. Há a música como dispositivo crítico, mesmo que mediada pela indústria cultural. Há o afeto e reconhecimento entre os marginalizados.

O cinema de Affonso Uchoa aponta então para outro lugar: só há possibilidade de libertação se esta se der pelos de baixo. São os deserdados que tem a potência de mudança neste eterno presente do capitalismo contemporâneo. Uchoa rompe com o cinema bem comportado do Lulismo (do qual Que horas ela volta é o representante mais dileto) ao afirmar que a saída para esta geração de marginalizados não é a redenção pelo aburguesamento, mas sua negação. Na imagem final do filme, quando Menor e outros jovens com seus skates deixam seu bairro e ocupam as ruas, são corpos livres, poderosos que nos são apresentados. Corpos combativos que enfrentam a fantasmagoria do Estado. Ao negar as mediações institucionais e os discursos de redenção contemporâneos A Vizinhança do Tigre aponta para um corpo revolucionário e explosivo no porvir. Não é pouco.

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