A primavera atrás do muro – Prosa

 

Nada tiveste na vida

além de chuva e desejo.

(Lêdo Ivo , O homem e a chuva)

 

Olhos fincados no chão – a moléstia que o sojigava à cadeira  imobilizava-lhe também tronco e pescoço –, ele enxergava apenas as sombras das andorinhas riscando a terra do quintal,  e escutava acima dos telhados um trinado ou outro no céu sem nuvens. Via também a poeira tênue que o vento rolava pelas suas sandálias. Conquanto ainda sentisse o perfume de alfazema da enfermeira que costumava conduzi-lo ao pátio, já devia estar ali, só, há algum tempo – a cabeça branca ardia no calor da tarde.  Tentou aprumar o corpo, queria ver os pássaros – a primavera pressentida. Desejava vislumbrar a estação no céu, nas árvores, no sol… No entanto, apesar do supremo empenho, logrou apenas soerguer um nada o olhar e deslizar alguns centímetros a cadeira de rodas, aproximando-a do muro dos fundos, de tijolos vermelhos, sem reboco, por cujo rombo na altura do tronco da única árvore ali cultivada – onde mal se distinguiam algumas letras e um coração recortados a canivete – avistou uma criança brincando do outro lado.  Desde quando era assim, a felicidade pra lá do muro? A criança riu. Ele tentou decifrar as letras na árvore.  Uma multidão de sombras lépidas coreografou no solo por instantes e desapareceu. O ladrar de um cão e novos risos infantis. Voltou a olhar os nomes quase apagados no tronco. Uma sirene a reboar dentro de si ­­­– deterioraram-se as cores do arco-íris. Amores deslembrados, a primavera de rastros, espectral, os meninos brincando sempre por detrás do muro – sua solidão, desde quando?

Que fora feito da poesia de antanho, d’antes do desmoronamento das flores que vira nos lábios da mulher, na tarde distante? – lágrimas e pó aluindo tudo que é ternura e beleza. Etiologia da evasão da ventura –  a retirada dos armários de parede da cozinha, encaixotar os livros, desmontar o guarda-roupa, desmoldurar fotografias, desmanchar a cama, secar o filtro, apagar a luz. E não varrer a casa – poeira e pranto imperecíveis no  chão de sua alma. Caliça indelével, que nem mesmo o iminente temporal que vinha se armando prestaria jamais para obliterar.

Soou a sirene anunciando o fim das visitas. Onde a vida que precedera a  demolição das quimeras, anterior à sirene? – não esta, à outra, carpindo na madrugada, pungentemente ouvida do interior da ambulância? 

 Os primeiros pingos chegaram junto com a enfermeira, cuja presença ele    apenas notou pelo recrudescimento da redolência dos cabelos dela, entretido que estava em observar a mudança de matiz que as gotas oblongas de chuva iam lentamente provocando no rubor do muro. Ela já havia manobrado a cadeira e o levava para dentro, quando ainda pôde-se ouvir alguém chamando o moleque.

– Samuca! Samuca… – gritava remota uma voz feminina.

Ele freou a cadeira e, antes de ser recolhido ao quarto, pensou ver (longe, bem longe, binóculo com as extremidades invertidas), através do buraco no muro, como num caleidoscópio, as estações do ano se sucedendo, se embaralhando, indo, voltando, trazendo e levando gente, lugares, memórias, dilúculos, naufrágios, idiossincrasias – a  insensata  órbita da vida ao redor de  seu coração.  E deteve-se na doce cena da  mulher iluminada na tarde – imponderável progne de sua existência.

Ela raspava as pernas, sentada no degrau mais baixo da escada. Perto, como se brincasse de carregar de areia um trator de pau, Samuel a observava dissimuladamente.

 Embora um tanto avariado, o cabo de madrepérola do pincel brilhava e refletia o sol das três da tarde, aos movimentos que a mulher fazia para lambuzar de espuma as canelas submersas na bacia raiada de pátina e carcomida nas  bordas pela ferrugem. O menino via as unhas vermelhas mergulhando na água tépida e as gotas de alabastro que deslizavam, lentas, coleantes, abrindo caminho por entre as negras farpinhas de pelos, até inundarem os vãos dos dedos, o tornozelo, os calcanhares; algumas, entretanto – para ele sempre  as mais belas –,  trilhando a rota oposta e carregando ínfimas porções de sabão para a misteriosa zona jamais revelada  ao seu olhar.  Às vezes, quando ela corcoveava mais a espinha, uma nesga de teta podia ser rapidamente vislumbrada sob o penhoar.

A lagartixa que saiu lesta duma moita de folhas secas e trepou pela taquara que mantinha as roupas suspensas no varal fê-la gritar. Arrancado daquele alumbramento, o menino levantou-se num pulo e correu para apanhar o pincel que ela, sem querer, atirara na grama.

Ao entregar-lho, teve suas mãos presas nas dela e o corpo tomado pelo calor de um olhar novo. Ela fez uma galhofa acerca do buço que despontava nele e, antes de convidá-lo a ajudá-la na depilação, entreabriu as coxas, sorriu-se-lhe – desabrocho ecumênico – e perguntou, brejeira, se ele  sabia que estava começando a primavera.

Mas um trovão quebrou (de novo) o caleidoscópio. A enfermeira bocejou, pô-lo na cama, fechou a porta e se foi.

Pra cá do muro, ficaram só a chuva, escuridão – e a sirene, a sirene.

Tico – é do J. Umarizal, zona Sul de São Paulo. Tem um conto publicado na Literatura Marginal (Caros Amigos) e dois livros de contos editados: ELAS, ETC. e AS NÚPCIAS DO ESCORPIÃO. Além de uma peça teatral esperando um grupo interessado em montá-la. Trabalha atualmente num romance e noutro livro de contos.

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