A estética da ocupação

Uma nova sensibilidade habita as praças de diversas capitais. De Tahir ao Anhangabaú, passando por Zuccoti e Ondina. Tudo parece confuso para o olhar acostumado com formas tradicionais de manifestação e manifestantes. Angela Davis observou em conversa com o Occupy Phili (Filadelfia) que se abrem as possibilidades de uma nova linguagem. “Ocupar”, até então, estava associado aos termos militares, que se tornaram rotineiros nas políticas americanas desde, ao menos, a era Reagan. Tratava-se da ideia comum de que inimigo bom é aquele sem territórios, com uma população controlada. Não era preciso exterminá-los (política que ficou indeclarável, pós-Auschwitz), bastava reter os rebeldes, os potenciais inimigos, seja lá o que isso signifique, além de que o medo se instaurasse inclusive entre os dominados, gerando diferenciações ilusórias entre os iguais (afinal, como um cidadão honesto poderia se misturar entre fanáticos religiosos?).

Não por menos, com a era Reagan, uma nova doutrina econômica se instaura, com a reorganização dos meios de produção, com novos métodos de se extrair a mais-valia do universo do trabalho. Através desta doutrina, a ocupação de corporações pelo mundo, invadem -acho que aqui a palavra é empregada corretamente – os sistemas financeiros e seus bancos centrais, sequestrando os meios de circulação e de pagamento. Invadem o futuro, através da prisão do crédito. Esse é o melhor termo para descrever o terror neoliberal, que invade o tempo e o espaço de uma população inteira.

Acontece que todo processo de fantasia tem seus limites. Viver no dream world exige se afastar dos seus pesadelos. Foi o que aconteceu com as vítimas (negras) do furacão Katrina, é o que está acontecendo com os velhos pensionistas em um sistema econômico incapaz de assegurar um sistema digno de saúde, é o que acontece com mais da metade dos jovens indignados desempregados da Espanha e de uma Europa falida. Processos que atingem o inconsciente suburbano, que alimentam alternativas. Sinalizada pela Primavera Árabe, a ocupação de praças é o movimento de transformação mais efetivo que tenha acontecido nos últimos tempos. Desde então, o termo “ocupação” foi absorvido por uma nova gramática: a dos rebeldes (ainda que não revolucionários), que, indignados com os processos políticos, geram novos sistemas de convivência, dando novo sentido ao termo “solidariedade”, tão desgastado por “políticas da tolerância” da era liberal e neoliberal (ora, não é o termo que é fraco, mas as consciências que dele se apropriam). Aqui se prepara, como bem observou Angela Davis, uma nova gramática política. Algo que se nota, não apenas pelo aglomerado de causas difusas que ali coabitam, mas também quando se entra nas filas das centrais de alimentação, nas bibliotecas públicas organizada por livros doados, nos setores alternativos de artes, religião e ciência, nas conversas entre uma barraca e outra presentes nestas ocupações. Longe da cordialidade, trata-se de uma relação pública em que todos se reconhecem como partes responsáveis do processo de socialização.

No entanto, esta gramática, longe de um efeito torto do agir comunicativo, só se sustenta porque há uma nova sensibilidade – algo que Marcuse havia insistido alguns anos atrás. Observar uma praça repleta de barracas, exige uma nova percepção sobre quem lá habita. Cria-se uma nova estética, a partir da qual a arquitetura dominante não se restringe a lugares fechados. É pela pressuposta precariedade de um acampamento, que esta percepção se organiza. Um deslocamento espacial, trazendo o camping para o centro das metrópoles, como se indicasse que algo ali está fora do lugar.

Mas não se trata de um “recreio de férias”. O próprio deslocamento demanda novos modos de relações. Nestes acampamentos de ocupação, a ordem pública é tornada princípio. Lembremos as bibliotecas (em que estão disponíveis livros os mais variados num espaço aberto e protegido), os centros de alimentação e comunicação, os núcleos de arte (presente em muitos Occupies americanos). É um lugar de circulação, em que todos os excluídos, todos os invisíveis encontram seu espaço. Daí a denúncia, insuportável para os poderosos, independente de quais partidos ou corporações eles pertençam. Há nesta “precariedade” algo que resiste à invisibilidade. O mesmo ruído que se vê quando nas estradas do interior de nosso país, deparamos com lonas negras, ocupando, produzindo, resistindo.

Parece precário, mas não é. Há um esforço enorme de organização, com comitês abertos que apresentam seus informes, organizam suas reivindicações, mandam seus recados, que podem ser aprovados ou não, através da linguagem dos gestos. Um verdadeiro microfone humano – a humanização da técnica! – pelo qual uma ordem de assembleia se efetiva. Longe do sistema de palanque em que um fala e outros escutam, a palavra também circula. Em meio a tudo isso, é possível travar um debate, discordando ou aprovando, seja mediante gestos específicos, seja mediante o pedido de palavra (centralizando o foco do microfone humano para si), reproduzindo uma efetiva circulação da palavra. Experiência capaz de dar novo significado ao símbolo-chefe da experiência democrática: a ágora grega.

Pra onde vai este movimento, é impossível saber, como qualquer movimento histórico gerado na abertura. Afinal, esta é a mensagem de fundo neste movimento. Ocupar não mais como uma invasão, como uma integração dos invisíveis reivindicando espaço em uma sociedade que jamais lhe ofereceu oportunidades. Por mais paradoxal e difusa que sejam suas pautas – tema que precisamos investigar mais detidamente – ressoa aqui o sentido da ocupação que não volta mais atrás: ocupar não é se confinar no espaço, mas é abertura do circuito; uma dobra que aos poucos se fortalece enquanto contra-discurso de ouvidos surdos para a sensual ideologia hegemônica. Mensagens de abertura que sofrem as mais impiedosas repressões, de Canudos aos Mundo Árabe; no protesto da estudantada da USP à Marcha das Vadias; na revolta de um nordestino ao silêncio no cárcere. Abertura que desperta para a sensibilidade em que mar e sertão se ocupam.

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