Os esquecidos da terra

“Armados de zagaia e mais amiúde de pedras e cacetes,

o povo lança-se na insurreição generalizada em prol da

libertação nacional. Sabe-se o que acontece depois”

Frantz Fanon, Os condenados da terra.

 

Engraçado… 2011 passou, falamos da primavera árabe, das ocupações das praças no mundo, vimos notórios intelectuais representar suas teses mais revolucionárias. Em meio a tantos eventos que merecem nossa atenção, deixamos de lado um dos que nos dizem mais respeito: o cinquentenário da publicação de Os Condenados da Terra de Frantz Fanon (falecido também em 1961). Pode parecer um deslize idealista, mas esquecer deste livro é deixar de lado um momento importante, que mudou o tabuleiro da linguagem e, contrariamente, nada mais prático do que instaurar uma nova gramática sobre a violência, sobre os processos civilizatórios e sobre os modos pelos quais podemos reverter tudo isso.

De fato, não se trata apenas de um livro, mas uma mudança de perspectiva fundamental naquela década que, como a nossa, cheirava à revoltas. Suas palavras circularam entre intelectuais de peso. Do olhar europeu, Sartre (que prefacia o livro, dando legitimidade generosa nas editoras francesas) e Marcuse conferem uma nova dignidade aos seus próprios discursos, conferindo novos estatutos às revoltas do Terceiro Mundo. Em terras brasileiras, o livro não foi esquecido por teóricos e artistas influentes como Darcy Ribeiro e Glauber Rocha. Havia nesta publicação algo mais do que as palavras: suas páginas são atravessadas pela eletricidade da revolta, pelos gritos silenciados das colônias. De modo que, por mais que o esforço de Fanon se localizasse na África colonizada, seus termos eram globais.

Mas por que o esquecimento desta obra na atualidade? Dizem os psicanalistas que o esquecimento é às vezes uma forma de negação daquilo que mais tememos: as verdades sobre nós mesmos. Decerto, o esquecimento reforça a tese sartreana de que Condenados, mais do que se encerrar no continente africano, mostra a desumanidade da civilização europeia – sendo, pois, uma oportunidade para se repensar. De nosso ponto de vista latino-americano, o livro não é apenas uma acusação, mas uma oportunidade, um estudo profundo para entender nossa violência e submissão, nossa cultura e nossos sofrimentos de origem coloniais. O olhar psiquiátrico de Fanon vai longe: convida o leitor a perceber um novo homem que surge junto à revolta. Neste sentido, Condenados é uma obra política quando reflete a necessidade da violência como direito; é uma obra estética ao trazer à tona a dialética entre nação e cultura – com todas as modificações que os impulsos revolucionários trazem nas danças, esculturas e literatura africanas; é uma obra antropológica profunda, quando o médico percebe os sofrimentos que o “sono colonial” desfere entre colonizados e colonos. Mas também um panfleto, com a força da denúncia.

Pode ser que suas palavras pareçam desgastadas. O olhar descontextualizado pode condenar Fanon a um antropologismo ultrapassado. Mas é possível compreender seus termos em um sentido mais alargado, para além dos riscos de uma naturalização do homem. Como o autor afirma: “Não, não se trata de retorno à Natureza. Trata-se, de modo bastante concreto, de não impelir os homens em direções que os mutilam, de não impor ao cérebro ritmos que rapidamente o obliteram e desarranjam. Não é necessário, a pretexto de recuperar o perdido, pôr o homem de pernas para o ar, arrancá-lo de si mesmo, de sua intimidade, quebrantá-lo, matá-lo”. Trata-se, pois, de uma visão histórico-dialética da condição humana e da possibilidade de reverter sua condenação ditada pelo endereço europeu.

Daí que, nos dias de hoje, esquecer o cinquentenário desta publicação revela algo sintomático. Não há nenhum registro, em meio acadêmico ou em círculos políticos, de um momento sequer, uma jornadinha, um artiguinho curto de jornal que dedicasse ao menos uma frase ao evento (apenas uma nova edição comemorativa que não fez tanto barulho). Façam o exercício na internet para se surpreenderem! Ora para não sair da moda, parafraseio Zizek: “é mais fácil pensarmos nos modelos americano-franco-leste-europeus do que em uma voz no meio da selva africana – ou mesmo, entre os vizinhos da América Latina – com esforço em pensar modelos diferentes além dos fracassos da história”. Não se trata aqui apenas de uma crítica ao eurocentrismo que afaga nosso pensamento, mas de apontar que, neste “esquecimento” haveria um sintoma rotineiro de olharmos de fora o que sentimos em nosso território. Um sintoma do “sono colonial” que ainda nos tranqüiliza quando assumimos certos modelos e esquecemos o lugar de onde falamos. E daí a força desta obra que assume para si, momentos geniais de panfletagem e atualidade, como este: “Vamos, camaradas, o jogo europeu está definitivamente terminado, é necessário encontrar outra coisa. Podemos fazer tudo hoje, desde que não macaqueemos a Europa, desde que não nos deixemos empolgar pelo desejo de alcançar a Europa” (p. 272). É tarde, já estamos em 2012, mas por que não revisitar os Condenados, como reencontrar velhos amigos?

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