A arte de dizer “Não!”

 

Paralelamente, há algumas semanas, Yoko Ono deixou de lado os seus direitos autorais e permitiu a divulgação da versão completa do filme estrelado por ela e seu amado John Lennon. Curiosa abertura que, contingencialmente ou não, apresenta a imagem do londrino protestando na cama por Paz no mundo. Curioso, porque as imagens foram liberadas semanas depois de uma Londres em chamas, nas quebradas do mundaréu bretão. Entre os fins dos anos 1960 e nossa década, inúmeras foram as gerações; contudo, e aqui manifesto a curiosidade, haveria um fio interessante: entre a postura de John Lennon, Yoko e os britânicos das periferias, haveria um código paralelo da recusa.

Naturalmente, entre a “Paz na Cama” (Bed Peace) e as lojas incendiadas, o sentido da recusa é aparentemente diverso. Algo que se evidencia ainda mais na comparação entre o anonimato dos protestos e a celebridade dos astros. No entanto, há um “não” em construção em cada ato. Há uma espécie de indignação em cada gesto. Ambos conferindo à negação sua raiz política, retomando no desvio próprio ao não, os impulsos contrários às regras estabelecidas.

Como todo “não” enunciado sem aviso, uma sensação de estranhamento ocupa aquele que o ouve. É turvo o sentido da recusa, até mesmo para aquele que a pronuncia. Quando o não aparece sem aviso, o pensamento de esquerda se divide entre defensores da injustiça e, entre os que denunciam o gesto como uma “doença infantil”. Haveria algo no não que desloca, que torna incompreensíveis seus gestos, e faz daquilo um corpo estranho a ser decifrado no organismo social.

Foi assim a reação conservadora que não entende nas transgressões londrinas o motivo dos saques de televisores e celulares. Alardeavam neste “crime” o mero ato de baderna, coisa de moleque muçulmano, ou de negros pobres – algo que se desmentiu depois, quando trabalhadores das mais diversas cores e credos estavam entre os detidos pela Scotland Yard.

Inquietante do mesmo modo foi a divulgação do manifesto pacífico de John e Yoko, como se retrata no documentário Bed Peace. Interessante o debate inicial entre o casal e Al Capp, cartunista humorístico-político da Times, logo de início, que questiona a posição de ambos. No meio da conversa tensa, Al Capp questiona pelos efeitos daquele manifesto. Seria tão efetivo deitar na cama pedindo por amor ao invés de guerra? E se surgissem seguidores? Afinal o que eles queriam? A pacifidade dos corpos na cama versus as guerras que bombardeavam o globo no período era um enigma de esfinge naquela época.

Mas as questões ficaram cada vez mais agudas, e o provocador Capp passa a questionar se aquilo não seria uma espécie de estratégia de marketing. Lance tenso que ficou registrado no documentário. Assim como outro dia, Yoko e John mostravam suas vergonhas em capa de disco, estariam naquele ato, mais uma vez chamando a atenção, buscando apoio de um público que comprasse seus discos. Neste momento, a paz se mostrou pax romana, o clima de guerra estoura como as trovoadas que anunciam a tempestade.

Aos olhos de hoje poderia ficar a questão. Seria mesmo uma estratégia de marketing, como as que vemos hoje com Bono Vox gritando Pride, ou mesmo o apoio do Rock´n Rio sem drogas, tirando as devidas proporções das caretices dos atuais anos 10 e as viradas dos anos 60? Neste sentido, interessante é o jogo de espelhos que o documentário proporciona. É a primeira cena este encontro com Al Capp. Na cama, as discussões eram várias, e a primeira delas, justamente esta, a mais tensa, que poderia desmascarar os dois.

Pode ser ingenuidade minha, mas ficariam muito melhor na fita, se apenas colocassem as imagens de louvação. Mas não, o objetivo não era mostrar as celebridades na cama e sim mostrar naquele espaço de manifesto, um campo de debate, ensurdecido pelas bombas e tiros que as potências de então lançavam entre si. Talvez seja isto que tenha estimulado Yoko a disponibilizar este vídeo na rede. Em uma época em que as chamas seriam a única resposta ao desprezo político, haveria outras formas de se dizer não. Mostrar um ícone londrino da periferia, fazendo de sua intimidade um espaço público e político, num mundo em que as chamas e o cinismo prevalecem nas ruas e nos meios de comunicação. Afinal, na indeterminação própria à recusa, como torná-la um ato político?

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