Aprender o caminho da noite

Este texto faz parte da cobertura da 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa! é parte da fértil produção de filmes indígenas dirigidos pela dupla Isael Maxakali e Sueli Maxakali, neste caso, em parceria com Carolina Canguçu e Roberto Romero. O filme, que integra a mostra Olhos Livres da Mostra de Cinema Tiradentes, se organiza como um mapa da terra reivindicada pelo povo Maxakali, como são chamados por nós, nas margens do rio Mucuri, no nordeste de Minas Gerais. Autodenominados Tikmũ’ũn, os realizadores, que também são sujeitos do filme, contrastam a própria noção do território – articulação orgânica entre corpo, terra e palavra – com os caminhos delimitados pelas estradas, barreiras, placas e cercas impostas pelo homem branco. Ao situar o mapa no terreno concreto, o documentário, ao invés de calcificar as fronteiras como uma linha abstrata que não pode conter nada, as torna uma fratura visível e produzida historicamente. O mito sobre a criação do dia e da noite contado por Isael, na aldeia, oferece uma chave de interpretação desse mapa: se o sol e a noite seguissem o mesmo caminho, o caminho seria um só. 

Como ocupantes, tendemos a seguir pelo caminho do sol renovando os vícios interpretativos derivados do pensamento cartesiano: separando forma e conteúdo, política e subjetividade. Na direção contrária, os Tikmũ’ũn, seguem o caminho da noite e, através dele, lembram que não se pode dissociar o corpo da terra. Contrastando com a solidão a que se resume a dor no mundo moderno, a ferida da colonização é contada em coro. A congruência entre os sentimentos transmitidos pelos depoimentos e aqueles da terra, das árvores e dos animais reverbera durante todo o filme. 

Imagens retiradas do filme Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa! (Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu, Roberto Romero, 2020)

Ao elegerem, dentre a infinita riqueza da realidade, variáveis através das quais o mundo será organizado, os Tikmũ’ũn trabalham a contradição de representar o território onde os antigos moravam em uma escala absurdamente menor, como meio de reclamar sua autoridade sobre o lugar que lhes foi roubado. Organizada através dos princípios com os quais os Tikmũ’ũn se relacionam com a terra, a operação cartográfica no documentário é deslocada de sua função colonial de dominação da natureza. Desta maneira, o mapeamento do território em seus limites originais busca libertar a amplitude da terra em suas dimensões incontornáveis. 

É o som das ondas quebrando na areia abre o primeiro plano de Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa! O mar, fronteira original do território, é apresentado através do olhar de quem já vivia aqui. A mística do descobrimento é invertida e o espectador não-indigena é colocado no lugar daquele que rompe a harmonia do horizonte . Assim a câmera firma seu ponto de vista, que é reiterado pelo início da narração em maxakali, língua materna dos realizadores. A necessidade de ler legendas em um filme nacional, condena quem fala português ao lugar de estrangeiro. Viajamos então, através de imagens de arquivo em branco e preto, para o Vale do Mucuri, chamado originalmente de kõnãg mõg yok (onde corta o rio).

Se o filme começa cantando a saudade das árvores compridas é porque, há muito tempo que o mapa não se desenha mais apenas pelos primeiros contornos da natureza. A floresta foi substituída pelo falso capim dos fazendeiros. No trajeto, conhecemos a caverna onde os morcegos se refugiaram depois da destruição da mata, assim como os Tikmũ’ũn, fugidos da violência dos brancos. A sina da terra converge com o destino dos povos originários, dos animais e dos espíritos. A vida também se encolheu. Foi perturbado o equilíbrio entre o dia e a noite, entre a morte e a vida. Os pajés cantam para que Tupã ajude a ambos: aos Tikmũ’ũn e os morcegos.

Imagem retirada do filme Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa! (Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu, Roberto Romero, 2020)

Na aldeia, em uma lousa, relacionam os nomes dos parentes assassinados pelos brancos e os locais onde encontraram seus corpos. Começam, então, a traçar com os próprios pés o mapa dos lugares onde estão enterrados e onde, à noite, cantam seus espíritos. A produção do filme torna-se um longo ritual de luto, do qual a câmera participa como instrumento de registro e de proteção das sucessivas intimidações dos brancos. Pelas cidades, estradas e terra dos antigos, os Tikmũ’ũn cantam seus mortos.O movimento do filme é o movimento das palavras. São elas que conferem sentido ao espaço ancestral por onde caminham. A autoridade da palavra herdada adentra até mesmo os lugares inacessíveis à câmera, desmoralizando os limites da propriedade privada cuja proteção depende da repressão que, no filme, se esconde atrás de carros, motos e cavalos. A tradição da oralidade maxakali desafia as palavras efêmeras e descartáveis dos brancos, com a enunciação de sua ruína. Como o rio que corta o vale, constantemente refazendo suas margens, os Tikmũ’ũn contam sua história através das palavras que surgiram da terra e a ela conduzem. Ao refazerem os caminhos dos antigos, surge a possibilidade de outro mapa e novas formas se projetam ao futuro. Um dos narradores conclui: antes eu os ouvia cantos, mas agora eu vi.

Imagem de divulgação: “Xũnĩm”, [Morcegos], 2005, aquarela, 15 x 10,5 cm por Isael Maxakali. Disponível em < https://www.premiopipa.com/isael-maxakali/ >

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