Apontamentos sobre o tempo do fim

O tempo do fim não começou agora. Nosso confinamento, ou a experiência da urgência de fim iminente, não é inaugurado pela quarentena. A disseminação, quase em ideia fixa, dos termos “distopia”, “roteiro de cinema-catástrofe”, a familiaridade com gêneros distópicos e a precisão científica de filmes como Contágio (2011), de Steven Soderbergh, acusam o contrário do ineditismo da experiência – ou ao menos a experiência tem precedentes cognitivos para situar, fixar, atribuir de antemão seu sentido.

A sensação de apriorismo da expectativa da catástrofe cria um ar farsesco que ajuda a pensar a incapacidade e impotência nos esforços em promover engajamento radicalizado anti-sistêmico, para além das impossibilidades práticas e conflitos éticos em palavras de ordem como “vamo pra rua!” no meio de uma pandemia. Há algo de prefigurado nesta sensação de fim. O espontaneísmo da sensação de urgência não é espontâneo. Neste sentido, é possível perceber certo envelhecimento no programa político (não no diagnóstico de antropologia histórica e incapacidade imaginativa) das Teses para a era nuclear (1959) de Günther Anders. Anders concebia uma expansão dos horizontes humanos diante da possibilidade das nuvens radioativas, pois estas não respeitam fronteiras, não se interrompem diante de marcos territoriais humanos. Diante do achatamento do horizonte humano, haveria uma nova possibilidade de generidade a ser pautada pelo alcance mortal da catástrofe. A humanidade poderia se reunir num sentimento “anti-apocalíptico”, uma luta comum contra o Fim dos Tempos. Mas este engajamento não se confirmou e o tempo sistêmico aceita a urgência do fim como mobilizador de suas engrenagens.  A urgência, a suspensão, o sentido de prazo, não surge de uma consciência humanizadora que torne explicita a necessidade de engajamento político pelo gênero humano. A sensação de fim da pandemia não é o mesmo da iminência da catástrofe nuclear (ainda que esta continue real).

Vivemos uma experiência de catástrofe que lembra o que Sartre descreve em seus diários durante a I Grande Guerra: um terror promovido por estatísticas. Estamos imobilizados por projeções estatísticas. Quantos morrerão apenas entre as fronteiras deste estado-nação de onde escrevo? 200 mil? 2 milhões? Estamos longe desta marca? Perto?  O terror é imobilizador porque não é possível transformá-lo em sofrimento compartilhado, não é possível pautar um sentido coletivo real como experiência vivida, além das clivagens de classe que distorcem brutalmente o sentido deste terror e o teor de sua efetividade. O que escapa disso dificilmente não é pose de falso orgulho motivado pelo desespero, e, quando a ficha cair, será tarde demais. Melhor, então, não bater no peito se achando muita coisa. De nada adianta a coragem diante da catástrofe se esta é catástrofe banalizada, tomada de filmes de Hollywood. A sensação de distopia, por ter um nome tão fácil de achar, revela a falsidade da sua novidade. O novo da situação não está aí. O novo está no que não tem nome.

Frame do filme ‘Era uma vez Brasília’ (2017) de Adirley Queirós

Muitas reflexões circulando sobre o que o mundo será depois da pandemia. A sensação que tenho é de que o único elemento incontornável, seja na esquerda, direita, centro, que seja, é a curva de contágio. Ela é absoluta. Quem a questiona ainda assim lhe atribui centralidade para expor sua própria rebeldia. E Bolsonaro monopolizou esta posição. De um jeito ou de outro, há implícito um regime de soberania de novo lastro¹. É possível que o estado de vigilância policial seja exportado por sua eficácia em combater a pandemia. Mas não apenas pelos motivos de coqueluche atrativa, de instrumento, coisa, tecnologia de patente bem cotada no mercado. Há algo maior, mais grave, de consequências tão aterrorizantes quanto familiares.

Há implícita nessa distinção de regimes de soberania uma valorização que organiza uma hierarquia de eficiência administrativa e governamental, e há um ordenamento temporal não explicitado na distinção. Os impasses do subdesenvolvimento, a ideologia do terceiro mundismo, a imaginação desencadeada por esta noção, se deu por uma espacialização de noções temporais. Para o bem e para o mal, foi com esta cabeça, com este jogo de relações entre tempo e espaço que aprendemos a pensar. Assim nos fizemos gente ao ponto de esquecermos que duas pessoas situadas em latitudes e longitudes diferentes estão no mesmo mundo, concebendo tempos históricos divergentes.  

O que se desenha é que muito do novo mundo será pensado a partir da seguinte questão: Quem conteve a ascensão da curva de contágio? Alguns conseguirão, outros não. Alguns conseguirão mais rápido que outros, com mais eficácia que outros. Tal qual critérios de uma linha de montagem, quem sabe seguir lidera a cotação, quem não sabe, perece em obsolescência. Estamos diante de um novo lastro diferenciador entre “moderno” e “atrasado”, de obsoleto e avant-la-lettre. Uma nova materialização de relação espaço-temporal de progresso. Um novo juízo sobre a eficácia de controle de sujeitos não desejados (infectados), e de governos qualitativamente prezados por critérios impessoais. A realização do achatamento da curva é um critério de possibilidade de governança. É o novo juízo civilizatório que decidirá a demarcação entre moderno e arcaico. Entre bárbaros e civilizados.

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Não é novidade entre nós a fusão da racionalidade medicalizadora e criminal. Basta lembrar do caso Chimbinha, cuja sentença foi resultado de uma barganha punitiva entre familiares da vítima e o estado para que critérios manicomiais resultassem numa reclusão que compensasse os critérios de punição do código penal que não poderiam ser aplicados. Mas o que vivemos não se trata de controle motivado por tara punitivista (esta será entretida por outros meios), mas por benevolência protetiva. Todos somos possíveis infectados (assintomáticos ou não, tanto faz), um risco para nós mesmos e todos ao redor. Reclusão é tomada como solidariedade (esquerda, direita, centro, gregos, troianos, corintianos e palmeirenses, trata-se de outro consenso). Sua eficácia vem do fato de ser real a contenção ética e moral da situação: é irresponsabilidade promover aglomerações, é falta de ética induzir pessoas que podem estar em quarentena romper com estas. Além do fato de que, o que de radical pudesse ser concebido dessa postura, de novo, Bolsonaro tomou a dianteira, transformou numa palavra de ordem pró-sistêmica. Tacanha, mas eficaz e totalizadora. A prática organizativa está virtualmente inoculada se for baseada puramente na transgressão. A ideia de “espontaneidade”, para ser defendida, deve libertar-se das mistificações precipitadas que ganhou no período de “normalidade” no excessivo uso do termo.

Conhecemos o casamento demoníaco entre juristas e médicos. O mundo está por descobrir o casamento entre médicos e militares. Não é claro o que significa essa adesão global ao cientificismo medicalista, ele mesmo uma continuidade de estado de exceção. E não sabemos o que significa o Brasil tornar-se um pária desta exceção, uma exceção da exceção. Não nos esqueçamos: o coronavírus não é um pretexto para o Estado de Exceção. Já vivíamos este há tempos, nossas periferias manchadas de sangue não nos permitem titubear quanto a essa questão. Acreditar que agora se inicia o estado de exceção é acreditar na suposta “normalidade” que o suposto estado de exceção coloca em suspensão. Ao aceitar uma coisa dessas, estamos na iminência de cair na armadilha de acreditar que a exceção é provisória e que voltaremos para o período de normalidade quando der na telha do poder soberano. É a receita para legitimar poder e nomear novas situações com nomes velhos. Receita para o fracasso de qualquer pensamento de resistência.

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A imagem de confinamento não é nova para expressar impotência de engajamentos emancipatórios. É só pensar em Sartre. Em Beckett. Ou Guarnieri, o gigante que nossos teatreiros insistem em tratar como se fosse um busto empoeirado. Mas isso pretendo discutir em outro lugar. Se eu sobreviver. 

Mas não estamos vivendo numa era de confinamentos. Este não simboliza nada de concreto da nossa experiência presente. Nosso apartheid social entre aqueles que podem ficar em casa trabalhando em Home Office e aqueles obrigados a enfrentar aglomerações para vender a própria força de trabalho nos obriga a pensar que a estrutura do drama de confinamento é obsoleta para pensar o que estamos vivendo. Nos ensina o melhor da tradição dialética da dramaturgia brasileira que drama de confinamento é um termo técnico de dramaturgia para descrever personagens obrigados a conviver num espaço fechado, fazendo com que vivam e conversem em espaços confinados. O confinamento gera o que se chama tecnicamente de drama conversacional; as pessoas falam dos problemas delas de um ponto de vista de vitimização, descobrem uma humanidade escondida e recalcada pelo excepcional da condicionalidade reificada da interação. No nosso caso, se trataria de uma vitimização de classe, dos que podem se confinar. A repressão sobre a potência de ação dos personagens estaria condicionada pelo ambiente privado, possibilitado pelos entregadores de delivery, transformados em personagens coadjuvantes.

Frame do filme ‘Branco sai Preto fica’ (2014) de Adirley Queirós

O índice de perda de imaginação artística dos nossos teatreiros poderá ser medida pela quantidade de utilização de dramas de confinamento em dramaturgias futuras para descrever o que vivemos neste período mórbido. No entanto, algo dele integra parte da experiência coletiva da urgência imposta pela racionalidade medicalizante desse novo estágio de regime de exceção. O confinamento não é socialmente efetivado, mas ele é desejado como urgência de solução comunitária diante da pandemia. Não é uma experiência coletiva consolidada, mas é dever ser de uma nova ética compartilhada de maneira desigual. Neste sentido, o drama de confinamento tem tudo para tornar-se um novo desdobramento da forma melodrama, forma esta que entra e sai de crise desde o final do século XVIII, mas nunca abandona seu estatuto de forma hegemônica espontânea de uma sociedade que vive a totalização da cultura como segunda natureza às custas do sacrifício de primeiras naturezas. Como imperativo de busca pela verdade, o melodrama é uma perda; como expressão de um novo ritual cotidiano para reconciliar e legitimar papeis múltiplos de colisões e aniquilamentos, cumpre uma função que demanda reflexão matizando-se a fatura das obras em que se manifesta. Eis a armadilha: tentar dar corpo à moral, torná-la aparente e imitável, quando não há pressupostos e mediações sobre o que permite os imitadores atribuírem autenticidade humana na situação tratada como universal. Esta humanidade não é nada sem aquela que está nas ruas, disposta a morrer para pagar aluguel e conseguir comida para garantir a infraestrutura dos dramas de confinamento. Estes não são isolados, não estão seccionados deste todo que nos escapa, o que lhe dá ares de ideologia, não de objetividade conflitiva. Como direcionar esta energia para outra coisa? Como trazer dignidade à imaginação de revolta para além dos imaginários de confinamento? Esta não virá de voluntarismo de varanda ou de indignação de notas de repúdios. É falta grave esquecer dessas questões.

1- Intuído sem desenvolvimento num texto generalista e precipitado chamado “O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã”, de Byung-Chul Han, que circulou a partir do site do jornal El País, mas muito instigante, apesar dos jargões sem contexto ou explicação.

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