Anjos do Arrabalde – Parte I

“quando eu te digo ‘bom-dia’, eu te abençoei antes de te conhecer,
eu me ocupei com seus dias, eu entrei em sua vida
além do simples conhecimento.”
Lévinas
Professores e professoras à luz do cinema. Como retratar tal figura social? Nossa Artes do impossível gostaria de iniciar 2017 com esse olhar. Sobretudo porque o ano que passou fez desfilar professores de filosofia nas telas. Feliz coincidência em tempos tão sombrios em matéria de humanidades. Muito a ser dito sobre a presença dos professores nos cinemas e na TV. Lembremos de Ao mestre, com carinho (To Sir, with love – 1966), quando o engenheiro conquista uma sala de “menores delinquentes” da periferia britânica como professor substituto de Matemática (um notável saber?). Ou ainda, o professor de inglês John Keating, capitão de Sociedade dos poetas mortos (Dead poet society – 1989) que, na aristocrática escola americana, desperta a paixão de seus pupilos para as letras e as artes. Filmes que exaltam a figura do professor como o principal estímulo entre vida e o saber. Alguns anos após essas produções, em um período de ataques contra as Humanidades em reformas educacionais diversas (não apenas no Brasil, como em outros países), passa a ser um sismógrafo a presença dos professores nas telas. Em particular, as figuras do professor e da professora de Filosofia nos filmes: O homem irracional (The irrational man, Woody Allen) e O que está por vir (L´Avenir, Mia Hansen-Løve). Ambos lançados em 2016, criam professores de filosofia como protagonistas. Coincidências bem interessantes que convido a explorar.   Para além dos thrillers Em O homem irracional, Abe Lucas,  um professor universitário de Filosofia reconhecido por suas posições radicais, vive uma crise existencial em que nada mais faz sentido. O roteiro se resolve com traços de Crime e castigo de Dostoievski. Todo aquele palavreado filosófico ganha significado à luz de uma finalidade: fazer a justiça a um estranho através do assassinato do corrupto juiz. https:// Desde então, o corpus filosófico se desdobra do paradoxo apresentado por Kant sobre o suposto direito de mentir por amor à humanidade ao discurso nietzschiano da ação e do corpo. No primeiro momento, Abe apresenta a seus alunos um dilema que não lhe faz sentido: extirpar a mentira – ainda que para o bem alheio – é retirar a força da lei que orienta a justiça entre os homens. Em seguida, já envolvido pelo paradoxo dostoievskiano de matar por amor à humanidade, Abe muda seu discurso, afasta-se da crise existencial e vive a vida. De forma sagaz, acompanhamos a mudança do personagem. Entre aulas e a vida compartilhada com o meio acadêmico da pacata cidade em que trabalha, Woody Allen retrata o acadêmico à beira da perversão. Na sanha por justiça, perverte a lei e nós, telespectadores, assistimos a cena de um crime se constituindo. Sem perder a coloração irônica própria do diretor, O homem irracional manipula a relação com o outro sobretudo sob a forma de thriller, do suspense que ronda as ideias de um mundo em que as leis estão pervertidas. O peso das ideias se perde com a entretenimento e charme do crime. Ao fim, vale perguntar se o que vale é a preservação da justiça para com o outro ou, como num passe de mágica, o que se preserva é a Lei e a moral que regem a humanidade. Assassinar um juiz por justiça não é preservar o outro, mas sim, a justiça que regula minhas relações com o outro, a despeito das idiossincrasias dessa alteridade?   “É possível se colocar no lugar do outro?” Bem diverso é o caminho adotado pela profa. Nathalie Chezeaux de O que está por vir. Professora do liceu francês, a personagem articula a todo instante a presença desta alteridade que está por vir. Contrária ao performático prof. Abe Lucas, Nathalie se preserva no campo de ideias e livros em constante movimento. Na verdade, Nathalie é um tipo em extinção. Professora do secundário francês, autora e editora de coletâneas de introdução à Filosofia, seu mundo parece afetado pela lógica do mercado e o discurso da reforma da educação de Sarkozy. A despeito de tudo isso, a professora se mantém em um universo particular da relação com o outro sob a força dos círculos de intimidade. https:// Para tocar o outro, não é necessário um grande crime. Basta o simples olhar e a conversa franca. Da primeira à última cenas, é o Outro que se sobressai. O outro é o tema da redação que está corrigindo na primeira cena: “é possível se colocar no lugar do outro?” Questão capciosa deixada pela diretora aos seus telespectadores. Pois ela retorna a todo instante. O outro está nas mensagens trocadas entre livros que circulam entre as mãos dos personagens. O outro está nas margens das relações entre a professora e seus filhos, a professora e seu companheiro, a professora e seu aluno dileto, a professora e seus alunos do Liceu, a professora e o animal e a natureza, a mulher e sua mãe. É, pois, o outro que dita o tempo do filme, temporalidade do porvir. A pergunta do que está por vir, pois, não é regida pelo suspense de um crime. Mas sim, pela “difícil liberdade” que se constitui junto à alteridade. Dos três momentos, é o outro que estabelece os saltos temporais: primeiramente, apresentando a rede de relações e os impasses e ambiguidades vividos pela professora; em seguida, com tal rede de relações marcada pela obsolescência – A obsolescência do homem é um livro marcado em diversas cenas desse momento – se constitui toda uma rede de alteridades, paralelos que contrastam com a fase anterior: campo x cidade; Brahms x Folk music de Woody Guthrie; a vida alternativa versus a vida comum. Talvez, o momento mais importante se apresente quando a professora debate com seu aluno direto sobre a vida burguesa que leva. Novamente, a alteridade toma a frente e apresenta da maneira mais direta o núcleo dessa personagem. Mais do que tudo largar por uma vida alternativa, a professora sustenta a ideia de que para além de qualquer paradigma (alternativo ou burguês) o que deseja é ensinar os jovens a pensar por si. Difícil tarefa que a professora desempenha em meio a uma França onde os protestos estudantis explodem, em que o mercado engole todas as possibilidades de circulação de ideias. Mas, a despeito de tudo, é no encontro com o outro juvenil mobilizados para construir um blog de filosofia, é no encontro com a nova vida que se constitui um terceiro momento. É o que está por vir que constitui o desafio da filosofia e o retrato dessa personagem tão difícil de captar na dinâmica de suas reflexões.   Breve conclusão: Portanto, é no encontro com o outro que as vozes da filosofia se apresentam nas telas de cinema. Desafio enorme nos tempos atuais de extermínio da alteridade, de esvaziamento do que é comum, dos dias contados por rankings. Para esta ordem, a Filosofia é terrorismo e seus professores e professoras um pequeno exército de destruição da massa. Fazer pensar por si mesmo é o que ameaça. Porque quando esse exercício ocupa a mente, não existe espaço vazio: casas, salas de aula, ruas e mesmo os campos virtuais deixam de ser o veículo vazio de comunicação quando preenchido por ideias e ações. Um primeiro passo para isso é o ensino. Nele está o rastro de pólvora que detona as barreiras e os muros. Enfrentar o desafio de ensinar a pensar por si só, um paradoxo aparente, é no fim das contas o que está por vir. Contra tal futuro e para manter a ordem do status quo, chega a onda de reformas para manter tudo como está, pirateando como sempre a voz de novas gerações. Mais do que um crime para salvar o inteiramente outro, tocar a alteridade faz do exercício do ensino uma arma potente de transformação. Exercício difícil que faz do ensino uma das artes impossíveis, mas necessárias. P.S.: Ficamos aqui sob o olhar europeu e estadunidense da figura do professor. Próximo mês trataremos da figura do professor na periferia, ou o que restou dele…

O impossível como aquilo que está por vir. É o olhar sobre os impasses, sobre as vias das transformações, sobre a utopia como método crítico que mobiliza nossos ensaios, nossos descaminhos e nossas práticas. Uma aventura por labirintos e trincheiras. Silvio Carneiro, responsável pela coluna, é professor de filosofia da UFABC e pesquisador do NEXOS: Teoria crítica e pesquisa interdisciplinar.

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