“Aluguel: O Filme” no festival de cinema “Semana dos Realizadores”

Esse texto será lido na sessão do filme e publicado nas redes sociais do festival  _ Hoje, dia 20/11/2015 será exibido “Aluguel: O Filme” no Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo, Rio de Janeiro. Hoje também, estudantes secundaristas do estado de São Paulo ocupam suas escolas porque elas são deles. Não conhecemos pessoalmente o festival Semana dos Realizadores (por onde nosso filme chegou ao Rio) e pra não ficar torcendo o olho de longe, queríamos estar presente pra conhecer, observar, criticar, entender posicionamentos de curadoria e produção, colocar o lugar de onde viemos em conflito com os espaços da Pequena Burguesia Cinematográfica Brasileira representada sempre em esmagadora maioria nos festivais, editais e nos tais: cinema e etecetera. Nós, equipe do filme “Aluguel: O Filme” não fazemos o cinema brasileiro, fazemos filmes. O cinema depende de um monte de gente, por isso acreditamos que qualquer evento ou festividade que colabore para feitura do tal nos interessa, mesmo que baseado em pressupostos que nós do lado de cá questionamos como por exemplo o louvor ao Realizador – a equipe não sai na fotinho. Por isso, esse texto. Por achar que se pode encontrar gente em todos os espaços, então também é uma resposta a indivíduos que trabalharam pra que a gente colasse e fizeram esforços pra conseguir colaborar e dar o mínimo de estrutura pra que a gente pudesse ir ao Rio. “Quem é, não comenta” é uma máxima na nossa quebrada. O motivo principal disso aqui é uma explicação da ausência da nossa equipe no festival. A explicação: LUTA. Estudantes secundaristas do estado de São Paulo ocupam suas escolas porque elas são deles. Nesse momento em que acreditamos estar acontecendo algo muito forte e bonito por aqui, não poderíamos nos afastar da prontidão de ajudar no que for preciso nessa luta cujos protagonistas são os filhos da classe trabalhadora. Nós, como fazedores de cinema e filhos também dessa classe, sabemos o que cotidianamente pulsa em nossas veias: REVOLUÇÃO. A média de idade da nossa equipe é 25 anos e negamos a ideia de que não sobrou rebeldia à nossa geração ou que a utopia e mudança do mundo é um sonho distante. Não esmagamos nossa rebeldia nas palavras fáceis que durante a história da arte e do mundo foram usadas para acalmar e matar corpos do povo em fúria, palavras tais como: “afeto”, “periferia” ou mesmo “arte”. Essas e outras palavras queremos usa-las com toda força assim como usamos, stricto sensu, tudo o que temos, para fazer nossos filmes como são. Não ao “afeto” burguês que é gênero e grife! Sim ao afeto-consciência-de-classe! Não à “periferia” nomeada e estimulada ao consumo pelo burguês! Sim ao nosso espaço-periferia de luta! Não à “arte” biscoito fino da burguesia! Sim à arte de invenção e risco! Não a tudo que nos oprime! Os estudantes secundaristas de São Paulo estão tomando o que é deles e isso nos mostra o que não é nosso: o cinema. Mas o fazemos. Como esse monte de gente que o faz, agora nós o fazemos. Tosco, estranho, inventando: o fazemos. Quem nega isso assume um lado, quem ignora isso também assume um lado. Não estamos presentes no festival mas nosso filme está. Que isso seja claro: vejam nossos filmes! Eles gritam como sempre gritamos! Eles pulsam como o último pulsar revolucionário antes de morrer de Dandara, Domingos Passos e Carlos Marighella! Eles existem! Filhos da classe trabalhadora, estão tomando o que é deles. Nós estamos aqui pra dizer que nosso filme vem disso: da distância imposta, da luta, da vida. “Aluguel: O Filme” é só mais um deles, antes tinham outros e virão mais outros. Como gesto de negação a qualquer cobrança, $$$de ingresso pra entrar na sala de cinema ou ingresso pra entrar no próprio tal cinema$$$, mesmo sabendo da cobrança que se esconde por trás da liberdade de se ter um vídeo na internet, assumindo a ironia e avacalhação que nos é necessário, nosso filme sem CNPJ fica online e aberto pra assistir na internet a partir de agora. A luta dos estudantes segue. Apesar da tentativa de desmobilizar promovida pelo jornal falha-folha de São Paulo no dia de ontem e do governo Geraldo Alckmin, que fizeram espalhar a notícia de que haviam recuado em seu projeto de desorganização e fechamento das escolas, apesar das tentativas governistas de siglas e movimentos de se apropriar da luta legítima e espontânea dos estudantes, eles seguem em luta. É importante que se entenda: eles por eles e quem quiser ajudar não atravesse o protagonismo. Isso é bobo e feio. Quem for de ajuda, que ajude. Como um mantra, ou repetição mesmo, com estrutura própria, estéticapolítica, façamos nós mesmos os filmes que se arriscam, que matam ou morrem. Em comemoração ao esquecimento seletivo e farra de rua com vinho barato, cá estamos. Pois “Quem grita não é um urso que dança”, como dizem os poetas. Hoje, estudantes secundaristas do estado de São Paulo ocupam suas escolas porque elas são deles.   Texto escrito direto do expresso periferia Capão Redondo, zona sul. Com colaboração de militantes e parceiros de luta-arte-vida. Assinado: Equipe de “Aluguel: O Filme”. https://

Lincoln Péricles é diretor, fotógrafo, técnico de som, roteirista, montador e professor de cinema. Nasceu e mora no Capão Redondo. Também escreve poesia, faz uns vídeo doido, colagens bêbadas e tira fotos por ai.

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