Alguns samples: canção e teatro

1 – Anotações que são feitas no processo de trabalho1 Durante a criação de Valor de Troca: um experimento lírico, leitura cênica apresentada pela Companhia do Latão em 2002, os dramaturgos Márcio Marciano e Sérgio de Carvalho reuniram o material de trabalho em um arquivo com 13 páginas, quando o processo ainda estava incipiente. Há trechos da notícia de jornal que inspirava a leitura cênica, há rascunhos de falas e de letras de canções, há “temas e imagens”, há uma ficha técnica (nem todos e nem todas acabaram participando da montagem), há passagens “sobre o valor” de Cícero, de Thomas Hobbes e de Karl Marx. Na última página, leem-se as seguintes anotações:
Forma do canto: o cantor, isolado nas sensações, que já não partilha daquela música do passado; ou o exercício do canto coral, não necessariamente positivo; ou melodias com rupturas e descontinuidades, a fala interrompendo o canto (tudo que põe em questão a música como encontro de celebração apaziguadora). Problemas outros: para quem? E quando é feito para um grupo do MST, ou num encontro do Fórum Social Mundial? E a música épica? A narração? Pôr a cultura em cena.
Sempre retorno a essas anotações quando inicio um novo projeto. É certo que possivelmente foram digitadas na sala de ensaio, frente à urgência de organizar aquele material que não passava de um esboço. Mas a pergunta sobre o público, que não deve ser confundida (não custa dizer com todas as letras) com pesquisa de mercado, se repõe de modo crítico em tempos de difusão pela internet. E os três itens referentes à forma do canto apresentam questões que interessam discutir. Partilhar da música do passado, ou seja, identificar-se com aqueles sujeitos da canção popular brasileira que tinham um estado d’alma ou uma história especial a expressar significa ignorar que “isso é impedido pelo mundo administrado, pela estandardização e pela mesmice”, parafraseando T. W. Adorno2. O que não quer dizer que se deva abandonar a criação de canções líricas ou épicas, mas sim que a lírica e a épica devem pôr em cena, de modo concreto, as relações culturais – Sobrevivendo no inferno, disco do Racionais MC’s, e Encarnado, disco de Juçara Marçal, são dois exemplos de obras muito bem-sucedidas3. Na mesma linha, o canto coral não necessariamente positivo, bem como as rupturas e as descontinuidades trabalhadas nas composições almejam configurar canções que se negam a atuar como cimento social. Numa tentativa de síntese: o exercício a ser feito é o de transformar esses problemas em elementos da própria forma; o que só é possível caso a caso, ou retornaríamos à estandardização e à mesmice. Memórias de um cão — Coletivo Alfenim 2 – “Decálogo da mercadoria”4 No primeiro semestre de 2003, o processo de criação da peça O mercado do gozo pela Companhia do Latão incluiu a oficina do Núcleo Musical do Latão. Além de gerar material para a peça, a oficina desenvolveu um repertório para apresentações do próprio Núcleo. O trabalho se baseou em quatro ações articuladas:
  1. questionar a produção cancional que visa a atender supostas expectativas do mercado hegemônico de entretenimento;
  2. por meio do processo coletivo de criação, desmitificar a composição de canções;
  3. questionar a relação de consumo que hegemonicamente se mantém;
  4. por meio de shows totalmente acústicos e gratuitos, estabelecer novas referências para o público.
Fiquei responsável por dois dos shows do Núcleo. Convidei Helena Albergaria, Izabel Lima, Victória Camargo, Beto Matos e Emerson Rossini (atrizes e atores da Companhia); Susan Grey e Claudia Rato (oficinantes); Alessandra Fernandes, Luis Felipe Gama e Juliana Amaral (integrantes do Núcleo Musical do Latão); Juçara Marçal (cantora) e Ney Mesquita (cantor). Na busca por uma nova forma de apresentação e, por conseguinte, de recepção, intercalei às canções dois fragmentos do que chamei “Decálogo da mercadoria”. Em um daqueles shows, foram lidos por Beto Matos; em outro, por Juçara Marçal: Decálogo da mercadoria, um fragmento:
  1. A felicidade deve ser vendida como a mais preciosa das mercadorias.
  2. A mercadoria não deve parecer real, pois ninguém quer possuir nada real hoje em dia.
  3. “O gozo prometido pela imagem da mercadoria requer, em algum momento, que o comprador experimente a sensação de ser superior aos que o cercam.”5
  4. A marca publicitária deve funcionar como um antidepressivo de última geração.
  5. “A função de mostrar ao consumidor o que ele mesmo tem por dentro é uma das atribuições mágicas das grifes que se colam ao corpo.”6
Decálogo da mercadoria, fragmento final:
  1. Olhar a vitrine de uma loja deve ser sempre “uma experiência perfeita”, comparável a “uma sinfonia, um haicai, uma jogada que termina em gol”; comparável “a sexo”7.
  2. Se qualquer um pode vender casas, carros e outras coisas de sua propriedade, por que qualquer um não poderia vender as coisas que são mais verdadeiramente suas – como sua opinião, sua palavra ou sua própria consciência?8
  3. Bem disse um personagem de José de Alencar: “O que é esta vida senão uma quitanda? Os ricos alugam os seus capitais; os pobres alugam-se a si, enquanto não se vendem de uma vez, salvo o direito do estelionato”9.
  4. Luta de classes? Isso não existe!
  5. Utopias revolucionárias não são alimentadas pela pobreza, pela marginalidade ou por quaisquer condições sociais e econômicas degradantes. Utopias revolucionárias são alimentadas por botocudos utopistas.10
Memórias de um cão — Coletivo Alfenim 3 – Notas e materiais: Encarnado O disco Encarnado foi gravado por Juçara Marçal, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Thomas Roher e Thiago França em apenas três dias. Seria muito ingênuo, no entanto, imaginar que um trabalho como este surge de uma hora para outra. Sem falar no tempo necessário para os ensaios, sem falar na mixagem e na masterização, sem falar na gravura, na arte gráfica, na produção do site – sem falar em nada disso, como saber quantas experiências e quais estudos construíram o repertório, a voz e os instrumentos gravados naqueles três dias? 3.a – Sobre o tema da morte Romulo Fróes, “Não diga que estamos morrendo. Hoje não!”, texto de apresentação de Encarnado, 2014:
Em sua definição espiritual, encarnado é o espírito que ocupa temporariamente um corpo humano. Encarnado também significa torna-se carne. Não por acaso, Encarnado, o disco de Juçara Marçal, tem seu repertório todo marcado pelo tema da morte. No entanto, mais que finitude, parece indicar uma busca por renovação, renascimento, um desejo por um “outro corpo”, uma “nova carne”.
Juçara Marçal, mensagem por e-mail que recebi em 5 de maio de 2005:
Agora me veio à ideia aquilo que você falou da música… da sua fugacidade… Talvez o que haja de tão impressionante na fugacidade da música (e na própria música) seja justamente essa proximidade com a sensação de algo que perdemos, algo de morte. Dá até pra dizer que quando fazemos música estamos constantemente trabalhando o luto?! A gravação linda que se perdeu, a nota firme que ficou lá atrás presa no tempo… e mesmo que tenhamos a respiração, a nota, a inflexão exata recolhida num CD ainda assim algo se perdeu… Filosofando, hein?!…11
3.b – Sobre o samba à paulista ou para (re)ouvir “João Carranca” Em setembro de 2012, recebi a mensagem de um estudante de jornalismo com uma “única pergunta”: “Vinicius de Moraes falou que ‘São Paulo é o túmulo do samba’. Por que é tão difícil mudar a ideia de que São Paulo não tem samba?”. Walter Garcia, mensagem por e-mail, 11 de setembro de 2012:
Não sei se, nos termos da sua pergunta, é possível responder “Por que é tão difícil mudar a ideia de que São Paulo não tem samba”. De todo modo, penso que você deva pesquisar o contexto em que a frase de Vinicius de Moraes foi dita. Ao não indicar esse contexto, ao nem mencionar que ela surgiu como defesa de Johnny Alf, você parece dar uma pista sobre a dificuldade de mudar tal ideia. Procure a história dessa frase, por exemplo, no livro Chega de saudade, de Ruy Castro. Não procure na internet, procure nos livros. O jornalismo tem piorado muito ao confiar tanto na internet e ao ter tanta preguiça de consultar os livros (quem diz também se formou em jornalismo). Penso ainda que você deva conversar com Kiko Dinucci. Se alguém é capaz de responder essa “única pergunta”, creio que seja ele, para quem esta mensagem segue com cópia.
Kiko Dinucci, mensagem por e-mail, 12 de setembro de 2012:
Ah, esse poeta… Deixo a resposta em forma de samba, baixe esse disco e ouça com atenção: Plínio Marcos em prosa e samba: nas quebradas do mundaréu. Boa viagem. Indico também os livros: MORAES, Wilson Rodrigues de. As Escolas de Samba de São Paulo. São Paulo: Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1978. VINCI DE MORAES, José Geraldo. Sonoridades Paulistanas: final do século XIX ao início do século XX. Rio de Janeiro: Funarte, 1997. SIMSON, Olga Rodrigues de Moraes Von. Carnaval em branco e negro, carnaval popular paulistano: 1914-1988. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Edusp; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007. MANZATTI, Marcelo Simon. O samba paulista, do centro cafeeiro à periferia do centro: estudo do samba de bumbo ou samba rural paulista. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), São Paulo, 2005. MAXIMO, João; DIDIER, Carlos. Noel Rosa – uma biografia. Brasília: Unb, 1990. MESTRINEL, Francisco de Assis Santana. A Batucada da Nenê e Vila Matilde: formação e transformação de uma bateria de escola de samba paulistana. Dissertação (Mestrado em Música Popular) – UNICAMP – Instituto de Artes, Campinas, 2009. Assista também os filmes: Samba à Paulista Geraldo Filme, de Carlos Cortez Seu Nenê, de Carlos Cortez Pesquise na TV Cultura o programa Ensaio dos seguintes compositores: Geraldo Filme, Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Germano Mathias e Henricão.
3.c – Sobre a letra de “Velho amarelo” Walter Garcia, via inbox do fakebook, 3 de agosto de 2016:
Eu sempre escutei “Velho amarelo” como se o personagem do velho amarelo é que cantasse a primeira estrofe. Daí, na segunda estrofe, eu achava que a cantora/ o cantor saísse do papel e comentasse a cena, quer dizer, narrasse sobre o velho amarelo. E que, na terceira estrofe, a cantora/ o cantor voltasse a encarnar (com trocadilho) o papel do velho amarelo. Mas… encafifei. Estou achando que pode ser isso, mas que também podem ser outras coisas. Assim, a primeira estrofe seria uma cena na qual um personagem falaria para outro ou outra personagem: “Não diga que estamos morrendo/ Hoje não/ Pois tenho essa chaga comendo a razão”. Daí, a segunda estrofe seria outra cena, talvez lembrada por aquele que falava; nessa cena, veríamos/ ouviríamos o velho amarelo. E, na terceira estrofe… bom, ou voltaria o primeiro personagem dizendo quando, como e onde queria morrer, ou continuaria falando o velho amarelo.
Rodrigo Campos, via inbox do fakebook, 3 de agosto de 2016:
Interessante, podemos ficar com suas interpretações também. Mas pensei num único narrador/ protagonista, haha. Penso num cara na frente do pelotão de fuzilamento. Velho é o “carrasco”. O cara pensa tudo aquilo no paredão. Ele vê o velho mirando com seu parabelo, pronto pra atirar. O velho assume a voz no meio da estrofe, como se conversasse com a bala que está prestes a sair do rifle: “menina dos meus olhos, penetre entre os olhos, não há piedade é só o fim”. O cara que vai morrer pensa tudo isso, não o velho, dá pra entender? Mesmo quando é a voz do velho, nessas aspas, é o cara que vai receber o tiro (do velho) que está dizendo (ou imaginando) o que o velho está pensando ao fazer mira com o rifle. O protagonista também pode estar imaginando o momento da morte, imaginando que seria um velho amarelo que atiraria nele, e que esse mesmo velho conversaria com sua bala ao fazer mira, chamando a bala de “menina dos meus olhos”. Enfim… Hehe…
Walter Garcia:
Pensando em Conversas com Toshiro,12 o protagonista, então, está no Japão, mas desejaria (terceira estrofe) estar na América do Sul, quer dizer, desejaria outro momento/ situação/ local para morrer? Faz sentido, isso que eu escrevi?
Rodrigo Campos:
Exato. O Japão também é metáfora do inconsciente no disco, então ele pode estar apenas sonhando. Mas quem pode dizer, não?
Memórias de um cão — Coletivo Alfenim 4 – Composição e trabalho coletivo13 Em maio de 2014, Márcio Marciano convidou Marília Calderón e a mim para o processo de pesquisa de Memórias de um cão, que o Coletivo de Teatro Alfenim então iniciava. Enviou-nos a sugestão de cinco letras, por ele criadas a partir do romance Quincas Borba, de Machado de Assis. Levamos para o trabalho em João Pessoa duas canções, “Sobre o princípio perene da natureza humana” (música composta pela Marília) e “Gira o Gira” (música composta por mim). Em janeiro de 2015, acompanhei um ensaio de Memórias de um cão na Casa Amarela. “Sobre o princípio perene da natureza humana” e “Gira o Gira” estavam integradas ao espetáculo. E já não eram as mesmas composições. A harmonia e o acompanhamento instrumental da primeira haviam sido modificados, a parte final da segunda canção fora suprimida, mas esses são apenas detalhes. Já não eram as mesmas composições porque eram materiais com que as cenas se construíam: todos e todas haviam se apoderado delas com o respeito e a sem-cerimônia com que se carrega uma cadeira no palco.   Memórias de um cão — Coletivo Alfenim   Notas  
  1. O tópico integra o meu artigo “Notas para o exercício da canção no teatro dialético”. Cf. Adriano CABRAL, Márcio MARCIANO, Paula COELHO (org.). Memórias de m cão: caderno de apontamentos. João Pessoa: Coletivo de Teatro Alfenim, 2017, pp. 65 a 67.
  2. Cf. Theodor W. ADORNO, “Posição do narrador no romance contemporâneo”. In: Notas de literatura I. Trad. Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades/ Editora 34, 2003, p. 56.
  3. Cf. RACIONAIS MC’S. Sobrevivendo no inferno.

    Cosa Nostra/ Zambia, CDRA 001, 1997. Cf. Juçara MARÇAL. Encarnado. Independente, 2014.
    /
    http://www.jucaramarcal.com.br/encarnado.html. Acesso em 19 mai. 2017.
  4. Este outro tópico também integra o meu artigo “Notas para o exercício da canção no teatro dialético”. Cf. Adriano CABRAL, Márcio MARCIANO, Paula COELHO (org.). Memórias de um cão: caderno de apontamentos, edição citada, pp. 67 a 69.
  5. Cf. Eugênio BUCCI, “Crítica: As drogas e o consumo do gozo”. Folha de S.Paulo, caderno TVFolha, 19/5/2002, p. 2. Não julguei cabível dispensar as aspas, apesar de haver alterado o texto de Bucci: substituí “televisão” por “imagem da mercadoria” e “telespectador viva” por “comprador experimente”.
  6. Cf. Eugênio BUCCI, “Crítica: Hic!”. Folha de S.Paulo, caderno TVFolha, 8/12/2002, p. 2. Novamente não julguei cabível dispensar as aspas pois, embora a frase não apareça exatamente dessa forma no texto, retirei todas as palavras de uma mesma passagem. Em tempo: os itens 1, 2 e 4 do “Decálogo da mercadoria” foram inspirados nos dois textos de Bucci aqui citados; e também em Eugênio BUCCI, “Crítica: ‘Seja feliz! Isto é uma ordem’”. Folha de S.Paulo, caderno TVFolha, 29/12/2002, p. 2.
  7. Os termos entre aspas foram retirados de Erika PALOMINO, “moda/pra começar”. Folha de S.Paulo, encarte moda, 13/12/2002, p. 3. No texto, a jornalista se refere ao que, “para um fashionista”, seja “assistir a um bom desfile”.
  8. Paráfrase de MACHADO DE ASSIS, “A igreja do diabo”. In: Contos, uma antologia, vol. II. Seleção, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 16.
  9. Cf. José de ALENCAR, Senhora. 34ª ed., 12ª impressão. São Paulo: Ática, 2009, pp. 49-50. Suprimi frases da passagem.
  10. A forma dos dois últimos itens se baseou no “Decálogo do Senador Goldwater”. In: Millôr FERNANDES, O homem do princípio ao fim. Porto Alegre: L&PM, 1982, pp. 37-38.
  11. Juçara Marçal estudou o tema da morte na sua dissertação de mestrado, Rito, morte e memória: elementos para uma análise do ponto de vista narrativo de Pedro Nava. A dissertação, orientada por José Antonio Pasta Júnior, foi defendida na área de Literatura Brasileira da FFLCH-USP em 2000. Quem se propõe a avaliar em que medida o mestrado contribuiu para o disco, se é que contribuiu mesmo?
  12. “Velho amarelo” foi composta por Rodrigo Campos durante o processo de criação de Conversas com Toshiro, disco lançado um ano após Encarnado. Cf. Rodrigo CAMPOS. Conversas com Toshiro. Publicado em 25 set. 2015. Acesso em 19 mai. 2017.
  13. Com algumas modificações, este tópico integra o meu artigo “Notas para o exercício da canção no teatro dialético”. Cf. Adriano CABRAL, Márcio MARCIANO, Paula COELHO (org.). Memórias de um cão: caderno de apontamentos, edição citada, pp. 72 a 73.
 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *