Aleluia  – O Canto Infinito do Tincoã

Esse texto faz parte da cobertura do 24º forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte

Ajuste bem a saída de som do seu aparelho antes de embarcar nessa viagem sutil e recompensadora. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouçam[1]”.

O primeiro plano do filme vem de dentro do mar, raios de sol adentram águas ondulantes. O segundo plano é um longo travelling pela costa marítima e na paisagem sonora ouvimos ecos de tiros longínquos e violentos. Outro corte e vemos uma imagem de arquivo em P&B de um barco trocando mercadorias na costa. “Existem as continuidades”, diz Mateus Aleluia, centro de irradiação musical e espiritual deste filme que vai além do simples retrato do cantor e compositor, antigo membro do mítico grupo, “Os Tincoãs”.

Se Mateus Aleluia busca atar céu e terra, luz e chão. Se Mateus Aleluia faz com o seu canto a ponte que conecta distintos planos metafísicos, Aleluia – O Canto Infinito do Tincoã, em exibição online no forumdoc.bh, vai tentar também ser ponte entre o visível e o invisível, que aqui é também real. E nesse sentido, destaque para o desenho de som de Beto Ferraz, conduzindo as transições de um registro mais documental para um mais metafórico em segundos, dilatando o tempo e a experiência de fruição do longa, que é curto, pouco mais de sessenta minutos.

Do tempo presente das filmagens com o artista há “sempre um recuo”, seja para o Recôncavo baiano, para Angola (Luanda), ou para as imagens preciosas do grupo “Os Tincoãs” nos anos 70, formado a maior parte de sua existência por Mateus e Dadinho (que recebe destaque como o idealizador primeiro do grupo). Pela montagem não somos levados a uma enxurrada de datas e dados comuns aos documentários musicais, mas convidados a uma singela oração de humildade e doce alegria. Sim, se  a “alegria é a prova dos nove”, Mateus já está lá, lá longe, rindo seu êxtase leve.

“Pra evitar o banzo, canto”, diz Mateus. Aquilo que provavelmente Geraldo Vandré sofrera no exílio, nas palavras do jornalista Jorge Fernando dos Santos: “aqueles que conviveram com o cantor longe do país sabem que ele (Vandré) adoeceu de banzo, a saudade que matava os negros cativos nos tempos infames da escravidão [2]”. “Pra evitar o banzo, canto”, diz aquele que não só tem nome de discípulo de Jesus, mas que foi batizado também com “Aleluia”. Termo que vem do hebraico, “aleluia”, dai louvor!

Espécie de espasmo santo, suas canções são mais que canções, poderiam talvez ser aquilo que Paul Gilroy chama de slave sublime, referindo-se à combinação de dor e prazer que o autor considera uma característica distintiva dos modos de combinação próprios das culturas construídas pelos escravos e seus descendentes vindos do Atlântico [3]. A voz de Mateus é a voz dos exilados. Sua música celebra a arte como algo efêmero, “que se faz”. Nesse sentido, preciosos os momentos dele gravando em estúdio. Literalmente recebendo versos da inspiração.

Que Exú abra caminhos para o forumdoc.bh que vai até dia 29 de novembro [4], lá canta o povo negro. Lá cantam os povos originários (exilados em sua própria terra). E que o modo de sessão online não nos faça perder a imersão de culto que tínhamos na tela grande, em tribo, mais própria ao rito.

Amém.

[1] Mateus 13:43.

[2] SANTOS, Jorge Fernando dos. Vandré: o homem que disse não. São Paulo: Geração Editorial, 2015.

[3] GILROY, Paul. O Atlântico Negro. São Paulo. Editora 34, 2012. p. 13.

[4] Aleluia – O Canto Infinito do Tincoã fica online só até dia 23!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *