Aldir Blanc e a Santa


O manto da Santa é feito de pano de mesa de bilhar, marcado três vezes por cigarro aceso. E a Santa se desmanta pra cobrir a puta nua, tremendo de frio. A Santa sopra o grão de sujeira enterrado na unha do mendigo.
 
Diz a Santa que seu rumo é outro, que o diabo não tem peito pra sair na mão com você, e que o Céu só prestaria se rolasse uma formação especial de santa ceia: McCoy Tyner, Elvin Jones, Steve Davis e John Jésus Coltrane Christ servindo vinho em copo de plástico – e Elvin lhe passando as baquetas, implorando que desse uma canja.
 
 
A Santa viu Charles Mingus transformar seu contrabaixo em jangada e sentado deslizar pelo rio Maracanã. O mesmo rio onde Heráclito bebeu cólera e saiu com aquele pneu de bicicleta no pescoço, pré-socraticando seu engano e pré-procrastinando a prova empírica.
 
A Santa viu Glen Miller passear de moto na Garibaldi, sem capacete e andando numa roda só. E você na janela. A Santa viu em você Homero, Ibsen, Mallarmé, Dostoiévski.  A Santa riu de almas obesas despedaçando cadeiras e caindo de bunda no salão nobre da Academia Brasileira de Letras, riu do fardão manchado de molho de tomate de caixinha.
 
Fica proclamado silêncio de sepulcro depois do último blush rosicler no rosto da tarde de hoje, nem pássaro bate asas. A praça será nossa. Rosas sentimentais se aglomeram longe dos homens. Ouviremos sua voz no alto-falante estelar solfejando um choro de Pixinguinha e sussurrando My Funny Valentine.
 
A Santa lhe protege, lhe agradece e beija sua mão fria. E beija de brisa netos, bisnetos, filhas, companheira. A Santa é por você. A Santa permite, no íntimo taciturno do confinamento, que cada um de nós se despeça à sua maneira. E a Santa é por nós.
 
A Santa confidenciou por metáfora que você rumou mesmo pra Terra do Nunca, onde a vida não é loteada em condomínios e poesia jorra dos lábios carnudos da terra.
 
A Santa é a Música. E eu já não sei mais escrever versos.

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