“ACASOS”

       Ser um aprendizado profundo do feminino. Ser maior que a imutabilidade política do país. Isto é, ser mulher como expressão de sonhos e afetos conhecidos. Ainda assim, ameaçadores. Talvez viver seja estar só para melhor se apropriar do conhecimento que nos escondem. Esconder o saber e o prazer como sendo nossa fraqueza maior, dando-se então,  expressão ao velho fascismo da ordem. E no esquecimento de uma história do horror, cultua-se o avanço da técnica. Mas para quê? Para que serve?        Na falta de dimensão do desejo, do gozo e da paixão, o que fazer do casamento burguês? Ora, como anular o potencial agressor do mundo externo? Por que essa desejada compulsão regressiva à barbárie? E na violência que nada explica, a estetização mórbida de Hollywood. Ainda ontem as guerras infindáveis. Hoje, os ganhos inescrupulosos com a miséria potencialmente espetacularizada. Ora, existe sim, um desaparelhamento do saber com o vazio tornando-se objeto do desejo.        George Orwell num dos seus ensaios sobre política disse com muita propriedade: “ Em nossa época, o discurso político é em sua maioria a defesa do indefensável… A linguagem política – e, com variações, isso é válido para todos os partidos políticos, de conservadores a anarquistas – é destinada a fazer mentiras soarem como verdades e o assassinato parecer respeitável, assim como dar uma aparência de solidez àquilo que é puro vento.” Ou seja, manipular e repadronizar tudo com promessas mil de sucesso.        Então comprar seja lá o que for, como satisfação do desejo. O consumo como parâmetro de um gozo sem fim nessa cultura de mercado. E com isso o progresso cada vez mais próximo do inferno onde “todas as coisas flutuam com igual gravidade específica na corrente constante do dinheiro.” E entre os semideuses do sucesso: de um lado a perversão como distorção do afeto. E do outro, a fome e ignorância como fabricação dos vencidos expostos pelos bufões da comunicação.        Digamos que o “parque dos dinossauros” é aqui! Basta que observemos bem o rosto de um político, empresário ou religioso na TV. Portanto, apenas potencializa-se o céu estrelado de nossas elites, desprezando e culpando as tantas subjetividades dos poucos que ainda se permitem pensar, viver, criar e amar. Viver a vida além dos shoppings, do conservadorismo, da religião espetacularizada na TV e da política que tudo aliena e faz apodrecer! Alienação vivida no seu grau máximo de poder. Ainda assim, poder a ser dessacralizado pelo gozo que nos transformará para melhor, nessa fusão de linguagens amorosas.        Não mais excessos ou sacrifícios, e sim uma descapitalização do horror que nos infantiliza à todos nessa regressão à barbárie despolitizada por uma democracia duvidosa de sabujos, traidores, burocratas e ratos. Então, morte à todos! Morte ao yuppismo de uma cultura da classe dominante! Foda-se o vazio político que nada explica! Queremos superar a parafernália econômica que tudo justifica para que nada se modifique. O fim da onipotência, numa volta aos excessos de prazer e do gozar.        Gostar e gozar implica em trocar, numa radical postura do fim das hierarquias! Então uma vez mais, todo esforço na recuperação do prazer e da beleza numa inversão dos muitos discursos que nada dizem. E, “se há um pecado contra a vida, talvez não seja tanto o de desesperar dela, mas o de esperar uma outra vida, furtando-se à implacável grandeza desta.” E se tudo é intenso porque é passageiro, só nos resta a certeza das dúvidas onde o incompreensível torna-se a melhor referência.        “Afinal – diz Pascal – o que é o homem dentro da natureza?  Nada em relação ao infinito, tudo em relação ao nada, um meio termo entre nada e tudo. Infinitamente longe de poder compreender os extremos, o fim das coisas e seu princípio lhe estão irresistivelmente num segredo impenetrável, e é igualmente incapaz de ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve.”        Ou seja, dê-se então expressão a intensidades poéticas que nos fazem sair desta obstinação pelas certezas que nos servem de âncora a um moralismo religioso avesso ao prazer e ao gozar. Ora, de que nos serviu e nos serve totalitarismos e idiotismos? A onde nos levará esta infindável especulação financeira tão necessária ao capitalismo? Mas não é pobre essa hiperexcitação com o dinheiro? Dinheiro que anula toda e qualquer experiência calcada na subjetividade dos corpos nus, que se juntam numa espécie de infinitude dos afetos.        Então, que se abra espaços para gozar! De que nos serve o energúmeno religioso, político, ator ou comunicador falando na TV? Dá-se relevância à quê? A uma constante “monumentalização da irracionalidade dos sistemas”, ou o gozo civilizatórios dos encontros e encantamentos? Portanto querer ser feliz, não é ser feliz.        E entre um estado e outro discursos, ausências, controles, paranóias, medos, banalidades, grosserias, fascismos, burocracias, derrotas, ameaças, preconceitos, silêncios, extermínios, violências, espetáculos, cinema, caretice, melancolia, poderes, promessas, choros, lágrimas, mal-estar, sublimações, esperas, deformações, drogas, mecanismos, religião, armas, discursos… com tudo incubando a baixeza e a barbárie como essência desta civilização que ao hierarquizar os horrores consolidou o não-gozar. E uma civilização que não goza, não cria e desaparece.                                        FIM __________________________________________                  LUIZ ROSEMBERG FILHO/RÔ                                 RJ, 2016/2017    

Luiz Rosemberg Filho é cineasta, artista visual e ensaísta. Sempre contestador, realizou seus primeiros trabalhos em meados dos anos 60 e segue ativo com uma produção incessante que já conta com mais de 60 títulos, entre curtas, médias e longa-metragens, boa parte deles realizada em vídeo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *