A terra nos é estreita

Esse texto integra a cobertura do Rastro – Festival de Cinema Documentário Online 2020

“E se somos Severinos

iguais em tudo na vida

morremos de morte igual

mesma morte severina”

 

O icônico trecho de apresentação do narrador de Morte e Vida Severina é exemplo cristalino da importância dos nomes como símbolos fundantes de uma identidade. As características subjacentes implícitas a um nome, compartilhado por várias pessoas, são indicadoras da forma como se inscreve social e culturalmente cada sujeito. Recém exibido no Rastro – Festival de Cinema Documentário, Palestina do Norte: O Araguaia passa por aqui introduz, no título da obra, o nome de um lugar. O nome da cidadezinha no norte do Brasil não é mera coincidência, seus relevos históricos e simbólicos levam a uma vida palestina. Assim como na Palestina médio-oriental, os ribeirinhos de lá tornaram-se refugiados em seu próprio território quando a vila sediou o conflito entre militares e guerrilheiros do Araguaia. Ao assumir esse vínculo histórico e político na escolha do título, a diretora piauiense Dácia Ibiapina calca a identidade de uma gente a quem é negada a memória.

A linguagem é aquilo que “entrega o homem à consciência de sua temporalidade, isto é a consciência de sua transitoriedade e de sua finitude”, escreve Jeanne Marie Gagnebin. O tempo corre e por isso tem como metáfora consolidada o rio, que aparece no título como contraponto à terra firme: o Araguaia passa por ali. O filme começa com a reencenação bastante teatral da perseguição mata adentro de Oswaldão, um importante guerrilheiro desaparecido. O discurso de exaltação do antigo regime empresarial-militar é abafado por um enxame instrumental, sucedido pelo desarranjo ruidoso do helicóptero. A cena não tem voz. Agora distante, de fora da floresta, a câmera sobe, acompanhando o corpo dependurado ao céu. O homem é lançado à vastidão, representada pelas infinitas possibilidades do fora de quadro.

 

A cena cria um espaço para a morte do militante – que apesar de pressuposta, nunca pode ser esclarecida – se realizar e evoca o rio, que beira a mata, como a própria matéria constitutiva, corrente e submersa, do passado. Não apenas os desaparecidos, mas a dor e o trauma também foram relegados ao esquecimento e afogados no silêncio. Impedidos de superar o passado, que fica instituído como eterno assombro do presente, os moradores do Araguaia lutam incessantemente contra o medo de lembrar. Como instrumento que busca criar um espaço para a possibilidade de elaboração do medo, da tortura e da violência, o filme coloca-se a serviço da escuta, mesmo que de uma narração incompleta e esburacada.

 

Além do caráter metafórico, para as populações ribeirinhas o rio organiza a vida cotidiana e as formas de trabalho. Isto é, as águas que ali correm – quer a entendamos como a continuidade do sofrimento no curso da história, quer como o lugar concreto, aonde se esconderam tantas mortes – rodeiam o povoado de um tormento; a impossibilidade de realização de um processo de luto e de libertação do passado. A cristalização da ideia de uma fronteira delimitada apenas entre militares e guerrilheiros sedimenta a versão corrente da história, que trata o embate que se deu ali como suspenso da realidade e considera o povo brasileiro como abstrato e irrelevante para os acontecimentos históricos. Ao inscrever como narrador do período esse terceiro personagem (as palestinas do Norte), além dos guerrilheiros e dos militares, o filme corrompe a história dominante, reconhece a existência dos renegados como força impossível de ser plenamente calada e a continuidade da mesma disputa pela construção da história. Com o massacre dos combatentes extinguiu-se a guerrilha. E, teoricamente, com o fim da ditadura, acabou a militarização do país. Mas os problemas cruciais que se apresentavam no período permanecem.

Os relatos são curtos, incompletos e carregam as marcas dessa repressão. As mulheres assumem o lugar do outro, do espectador. Muitas vezes se eximem das respostas hesitando se devem dá-las ou não. Usam o pronome eles, sem especificar a qual dos “estrangeiros” se referem.  Algumas ainda sentem a absoluta necessidade de atestar a inexistência de qualquer relação com os guerrilheiros. “Num tive convivência com essas pessoas não, nem de outra pessoa também, não lembro”, diz Rita. No entanto, a memória e o trauma são assumidos como próprios, elas viveram a guerra e a brutalidade do controle militar. A mesma Rita diz: “Vê mesmo a gente não viu, mas ouvia, maltratando as pessoas daqui mesmo. Palestina”. Pela condução das entrevistas, o passado desdobra-se em presente. A mesma fratura e insegurança os une: “Raimunda, cê tem medo de falar sobre isso? / Eu tenho medo / Por que? Porque eu tenho medo deles voltar”.

 

Não se trata de um documentário sobre o passado, um filme documento sobre a ditadura militar. Trata-se de um filme sobre o presente, as testemunhas estão vivas. Estamos diante de um instrumento de elaboração do trauma e de apropriação da construção de seu sentido por aqueles mesmos que foram renegados por ele. O passado espreita. A impossibilidade real dessa reminiscência prende todas as mulheres que falam, sob seu assombro. Como não há espaço verdadeiro para o passado se libertar, ele permanece, sob outras aparências. Talvez por isso, os homens não falam. Afinal, nada garante que a tortura, a violência e o assassinato não voltarão. Nem os vivos, nem os mortos estão a salvo. Seria preciso sepultar nossos mortos, física e simbolicamente. Seria preciso contar e compartilhar o inexplicável terror, enterrar os mortos e reconhecer os torturados.

Seria preciso que a tortura e a morte se apresentassem não apenas pela ficção, mas se inscrevessem no mundo dos vivos. O inenarrável para aquelas trabalhadoras é aquilo que é constantemente perseguido e escapa ao filme. Durante os relatos, a montagem deságua de novo no rio. Dessa vez as mulheres navegam em silêncio. Em meio às palavras está o escuro, a ausência, a impossibilidade submersa na história profunda.

O rio conduz o filme, que parte e termina nele. O movimento do documentário é uma reflexão sobre uma temporalidade ensimesmada, que consome a si mesma, na ausência de um rumo que a permita romper com a inércia. Quando o título especifica o Norte, deixa em aberto a existência de outras Palestinas pelo Brasil. Por isso, ele nos é contemporâneo e segue desde de 1998 – data de sua produção – apontando para nosso exílio histórico. A aparente simplicidade que segue a serena mansidão do Araguaia se torna cada vez mais complexa: o rio deve se apropriar de sua correnteza para romper seus limites, reconstruir suas margens e renovar seu curso. O Araguaia sustenta o lamento dessas vozes que cantam:

“Êh! Marabá,

Altamira e Estreito olhem lá

Ainda grita até hoje

A vida do povo

Que morreu por lá”

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