A ilusão de poder no videoclipe Mother’s Daughter

Enquanto, na década de 1950, a casa era o foco ideal para o trabalho e atenção das mulheres e o elemento central a partir do qual seu valor era julgado, no novo milênio, essa centralidade foi transferida para o corpo. Tal análise é apresentada por Rosalind Gill para introduzir o conceito de “midriff¹. O termo é o nome dado, em inglês, para se referir à moda de usar roupas que deixam a barriga de fora, como croppeds e topes. Ao pensar na representação de mulheres na propaganda, Gill se apropria dessa palavra para denominar uma mulher jovem, fisicamente atrativa (dentro dos padrões dominantes do que é considerado beleza), que, consciente e deliberadamente, joga com seu poder sexual e expõe-se como estando sempre preparada e disposta para o ato sexual. A posse de um “corpo sexy” coloca-se, hegemonicamente, como a principal fonte da construção identitária das mulheres.

Esse corpo, exposto, disposto, visível, é o que Miley Cyrus passa a edificar ao encerrar a série que a popularizou mundialmente, Hannah Montana, da Disney Channel. No programa destinado ao público infantil, personagem e atriz se confundiam e vendía-se a imagem de uma garota exemplar. A finalização de seu vínculo com o canal de televisão acontece no momento de transição da adolescência para a fase adulta, momento no qual Cyrus passa a buscar a revelação de uma identidade outra. Com uma ênfase nos conceitos de escolha e autonomia, a música/videoclipe de “I can’t be tamed” (Não posso ser domada) marca uma ruptura entre a imagem cristalizada pelo papel de Hannah Montana e uma nova Miley, cada vez mais próxima de uma midriff. O vídeo é construído com base na oposição antes/dentro da jaula e agora/fora da jaula, metáfora para um movimento de busca por autonomia e concretização da decisão de não mais ceder a pressões e imposições de outrem.

Imagem retirada do videoclipe I can’t be tamed

Em uma chave ideológica similar, mas esteticamente muito diferente, a construção imagética de uma identidade autoconfiante, autoeficaz e autocontrolada é o mote de sua última música/videoclipe. Em Mother’s daughter, Miley Cyrus afirma seu poder e liberdade em frases como “Every day of the week / I’mma do yeah like I want ah” (Todo dia da semana / Eu vou fazer como eu quiser). Vestida com um macacão de látex vermelho com forte impacto visual e erótico, ela divide o vídeo com diversos corpos marginalizados. Na tela, mensagens como “toda mulher é uma revolução”, “virgindade é uma construção social” e “o pecado está nos seus olhos” aparecem rapidamente. Uma cantora pop de alcance mundial conclamando o empoderamento de mulheres e de grupos dissidentes às normas sociais de beleza; dominada, contudo, pelos mecanismos de controle ideológicos neoliberais.

Da pornografia ao cinema clássico, não são raros os exemplos nos quais o audiovisual – que constitui-se como mais uma das práticas de poder – colabora para a objetificação das mulheres, designadas para tornarem-se desejadas e atiçarem o prazer de um homem que as olha. Tal olhar é indissociado de uma submissão de quem é olhada, uma vez que restringe o corpo de mulheres (dentro dos padrões hegemônicos de beleza e, em sua maioria, brancas de classe média/alta, estabelecendo recortes não só de gênero, como de raça e classe) à posição de desencadeadoras de desejo, retirando deles a possibilidade de existirem unicamente para si, além de suprimir a possibilidade das mulheres de tornarem-se sujeitos desejantes. Reproduzindo com frequência tal processo nas artes e no audiovisual, mais especificamente, as mulheres existem sobretudo para a satisfação de quem olha. Não é diferente em Mother’s daughter. O videoclipe evidencia a cooptação do discurso feminista pela indústria cultural contemporânea, na qual as pautas de movimentos sociais são apropriadas para vender mais e para apaziguar as lutas, sem que haja transformações disruptivas de fato. Se, por um lado, os ideais de igualdade de gênero popularizam-se, por outro as instituições mantém-se centradas no falo. Trata-se da falácia da Revolução Sexual.

Em Mother’s daughter, frases como “Virginity is a social construction” (Virgindade é uma construção social) e “Sin is in your eyes” (O pecado está nos seus olhos), são transformadas em slogans, enquadrados em outdoors. Em conformação com a ideia capitalista de que tempo é dinheiro e, portanto, tudo precisa ser veloz, essas ideias são estampadas na tela tão rapidamente que é preciso pausar o vídeo para conseguir lê-las. Essas frases aparecem tal qual nas tantas blusas, bolsas e outras mercadorias vendidas a preços irrisórios (que, aliás, ocultam o custo social e ambiental sob o qual foram produzidas), estampadas com “Empoderada”, “Girl power”, “Feminista”. Nesses casos, os slogans referidos transformam ideias atreladas ao discurso feminista em expressões “mídia-friendly”, que eliminam as críticas sobre o sistema e as estruturas de opressão. A suavização do discurso no vídeo é evidente, por exemplo, na aparição de uma mulher com seios desnudos e o escrito “I am free” (Eu sou livre) no corpo. A imagem alude ao famigerado protesto público de queima de sutiãs e o mais recente movimento do “Free the nipple” (Liberte os mamilos). Paradoxalmente, os seios da moça aparecem sem mamilos, retirando da ação toda sua carga política e contestatória. Assim, o feminismo é domesticado e transformado, no videoclipe, em uma commodity, que agrega valor ao produto, mas não ameaça o sistema, na medida em que perde toda sua força social e política.

Imagens retiradas do videoclipe Mother’s daughter

Nessa linha, a ideia “Not an object” (Não sou um objeto), estampada em um dos outdoors, mantém-se apenas no nível verbal, enquanto os procedimentos técnico-formais nos mostram o contrário. O corpo de uma mulher cisgênero é recortado, dilacerado pela câmera. Primeiro sua boca, em seguida mamilos de borracha e por fim a buceta são enquadrados em planos próximos demais para não permitirem ver o todo, apenas expor partes as quais não sabemos a quem pertence. Há, não somente uma autorização formal, como um direcionamento para que se olhe para os pedaços do corpo já culturalmente sexualizados.

Imagens retiradas do videoclipe Mother’s daughter

Enquanto Miley (uma mulher cisgênero, branca, magra, jovem, que se encaixa nas normas estéticas do que é considerado o padrão hegemônico) parece conclamar-se a rainha dos freaks, pessoas social e culturalmente fora do que é considerado a norma dominante aparecem rapidamente. Elas posam quase como estátuas, se movimentando com gestos minimalistas, enquanto Miley é colocada em evidência, dançando e cantando ao longo de todo o clip. Às pessoas minorizadas é reservada apenas a função de serem olhadas, o que é reforçado pela música: “Look at her” (Olhe para ela). Se o sujeito é quem pratica a ação e o objeto é quem sofre, às participações especiais do clipe recai grande parte do peso da objetificação. Elas são portadoras e não produtoras de significado, sendo seu potencial de agência anulado frente ao imobilismo. Sua presença no clipe resume-se ao símbolo: uma representa a maternidade, a outra a negritude, uma outra infância, ou seja, estão ali simplesmente porque simbolizam algo, como se apenas por participarem do vídeo, este já se tornasse, automaticamente, inclusivo, diverso, interseccional. Esses valores, no entanto, não se limitam (e não podem se limitar!) a uma aparição, porque os problemas das pessoas minorizadas expandem-se para além da ausência e exclusão. Como aponta Sarah Banet-Weiser², é importante ter mulheres (e outras pessoas minorizadas, adiciono) na mesa, mas sua presença, sozinha, não desafia as estruturas que constroem e sustentam a mesa, em primeiro lugar.

Imagens retiradas do videoclipe Mother’s daughter

Pensando ainda nessas participações especiais, dois momentos fazem alusão a relações entre duas mulheres. O primeiro é o supracitado plano próximo de dois mamilos de borracha que se tocam. No outro, Miley Cyrus aparece com outra mulher cisgênero, branca, magra, e carícias são trocadas entre elas. Apesar de estarem quase se beijando, a cantora mantém seu olhar para a câmera, para quem ela considera seu amante verdadeiro, o espectador. A dinâmica de olhares cria uma triangulação entre Cyrus, a outra mulher e o público e, como de praxe no audiovisual, há aqui a inserção de um terceiro elemento em uma relação entre duas mulheres. A quebra da quarta parede (o olhar para a câmera) concretiza a participação do público na relação erótico-sexual das duas. Ainda que em um ato de prazer, elas são dispostas de costas uma pra outra ou de lado, o que privilegia um melhor posicionamento para quem olha, e não para o desejo dos corpos representados. Aqui, não é o prazer delas que importa, mas a excitação do terceiro elemento a partir do fetiche consagrado no pornô para homens heterossexuais: o ménage-à-trois, que mantém a representação de lésbicas como atrativo sexual, como espetáculo para o prazer de outrem. A lesbinianidade é construída a serviço da heterossexualidade, não como uma identidade autônoma e independente.

Imagens retiradas do videoclipe Mother’s daughter

Tem-se, no clipe de Cyrus, um exemplo corriqueiro de visibilidade contaminada pelos interesses comerciais. Ela torna-se uma ponte para o lucro e não um meio para a conquista de direitos e avanços sociais concretos. De fato, é o ápice do empoderamento – que, como de praxe, mantém-se atrelado ao discurso neoliberal, com toda sua ênfase nas liberdades individuais. Trata-se de mais um caso no qual o empoderamento não vai além da ilusão do controle sobre a própria objetificação. Esta, ainda que relacionada a um contexto em que a sensualidade e o tom erótico são instigados pela própria pessoa, ou por ela consentidos, quando relacionada a tais dinâmicas de poder (gênero) e interesses comerciais, não se dissocia da submissão.

Construído sob uma lógica heteronormativa, que extrapola a existência da produção, na qual ao homem é dada a agência de olhar e à mulher de ser olhada, o videoclipe em questão enfatiza a noção de mulheres como objetos sexuais, além de reforçar o foco no corpo e, como de costume no neoliberalismo, usar este como estratégia de venda. Mais do que uma música, vende-se, nessa peça audiovisual, a ideia de que tornar-se conivente com tal processo de objetificação é a forma de adquirir valor e poder. 

Não é suficiente discutir a opressão apenas no nível verbal. A linguagem do audiovisual e a representação da realidade também devem ser questionadas. É preciso desatrelar-se da linguagem estrutural do patriarcado e da heteronormatividade, construir de fato novas estéticas disruptivas que subvertam as lógicas de poder e dominação vigentes.

Nayla Guerra

¹GILL, Rosalind. Empowerment/sexism: figuring female sexual agency in contemporary advertising. Feminism & Psychology. Los Angeles, Londres, Nova Delhi e Singapura, v. 18 (1), p.35-60, 2008.

²BANET-WEISER, Sarah; GILL, Rosalind; ROTTENBERG, Catherine. Postfeminism, Popular Feminism and Neoliberal Feminism? Sarah Banet-Weiser, Rosalind Gill and Catherine Rottenberg In Conversation. Feminist Theory, Londres, v. 0, n. 0, p. 1-22, 2019.

Estudante de Audiovisual na ECA-USP, desenvolve pesquisa sobre diretoras brasileiras na ditadura civil-militar. É organizadora do cineclube Cine Sapatão.

2 comentários “A ilusão de poder no videoclipe Mother’s Daughter

  1. Eu nominaria a sua crítica como : um olhar entre pixels. O clip, notadamente, reforçou a ideia de mulher objeto, submissa , erotizada e desvalorizada construída pelo patriarcado e pelos “invisíveis” donos do capital. Empoderamento é para quem busca poder. A nossa maior referência consiste em simplesmente Ser quem somos.

  2. Olá, gostei muito da análise e queria deixar meu agradecimento pelo texto.

    Para além de todo o conteúdo com o qual estou alinhada, gostaria de deixar um pequeno feedback, que não precisa nem ser postado como comentário.

    Ao analisar a relação de Cyrus com a outra pessoa, que aparenta ser uma mulher cis, ainda que “we never know”, senti um apagamento da pansexualidade/bissexualidade.

    Digo isso, pois as mulheres cis pan/bi também estão inclusas dentro dessa fetichizaçao heteronormativa e não nos ver contempladas dentro de uma análise com essa força traz à tona feridas antigas que seguem abertas dentro da comunidade queer.

    E essa inclusão não precisaria nem mencionar o quanto as transas múltiplas fazem parte da nossa comunidade, pois entendo que, na representação audiovisual, a problemática não é o ato em si, mas para quem ele é dedicado, enfim.

    Gostei tanto do texto que precisei me manifestar, muito obrigada por lerem e produzirem conteúdo.

    Até mais!

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