Celebes, 1921 (Ernst) ou Breve gesto com Luva Vermelha

Escrito em João Pessoa (07/11/14)   I Um céu com texturas compostas de tonalidades variadas de azul denuncia, por oposição, a terra desolada. Apesar de a imagem estar preenchida em quase toda a sua totalidade por uma criatura-estrutura gigantesca e singular, temos a impressão que a área ao seu redor, caso pudéssemos vê-la à distância, […]

O Mês das Vindimas, 1959 (Magritte) ou Do Lado de Fora de Mim Mesmo

Existem dois homens iguais ao meio de cinco homens iguais. Eles se vestem de preto.

Personagem a uma Janela, 1925 (Dali) ou Uma ideia extravagante

  I             As ondas do mar, a passagem das nuvens no céu, o vento a produzir vincos nas cortinas, o movimento do vestido, tudo isso foi pintado apenas para combinar com os cachos do cabelo.   II   Ela é bela. E seu retrato é feito às avessas. Em um retrato pode ser […]

Rrose Sélavy, 1920/21 (Duchamp/Man Ray) ou Mulher de Tempo Lento

  I            O chapéu é por demais inusitado, personalíssimo, e chega mesmo a ser ousado, quase insolente, se levarmos em consideração o fato de que é composto basicamente por figuras geométricas dispostas de uma maneira aparentemente aleatória. Claro que isso já é uma forma de impostura, uma vez que toda geometria que se […]

A Reza, 1930 (Man Ray) ou Como Contar os Dedos do Pé com o Próprio Cu

  Entre o claro e o escuro há um pouco de corpo. No escuro, nada podemos ver; no claro, vemos demais. O erotismo é uma arte traiçoeira. Pode parecer, à primeira vista, que consiste em mostrar sem revelar a imagem por completo, mas, na verdade, consiste em um jogo de esconder. É o que se […]

Canção de Amor, 1914 (de Chirico) ou Gesto com Luva Vermelha (variação nº 2)

  Talvez se o busto de Apolo estivesse completo, com ombros e tudo, a luva cirúrgica não precisaria ficar pregada na arquitetura de uma construção geométrica. Não seria, obviamente, possível colocar a luva na escultura, afinal, bustos não têm mãos, mas pode ser que a luva vermelha ficasse solta nos ombros invisíveis de Apolo. A […]

Golconda, 1953 (Magritte) ou Chuva de Mim Mesmo

I   Um dia desses, essa quase interminável chuva de mim mesmo, essa intempérie inesperada promete acabar e poderei verdadeiramente flutuar de forma livre ainda que fragmentado em gotas de mim – serei composto de partículas bojudas que não cairão mais das alturas, mas ficarão suspensas como balões estáticos. Inertes. Simplesmente pairando em pleno ar. […]

Roda de Bicicleta, 1913 (Duchamp) Ou À Sombra da Arte de Obra

    I   A arte é tudo que for o caso. Esta roda de bicicleta disposta sobre um banquinho branco é perfeitamente inútil. Este banquinho branco sob uma roda de bicicleta é perfeitamente inútil. Talvez tivessem utilidade prática como objetos de indústria se estivessem separados, mas daí não fariam uma sombra, dependendo do ângulo […]