A cidade esgotada (Pajeú, 2020)

Existe uma fascinação muito interessante do espectador para com aquilo que é hermético. Ainda que hoje em dia exista certo domínio do falsamente difícil, com suas tramas dúbias e finais abertos destrinchados em vídeos no youtube, segue existindo uma grande devoção pelas coisas ditas complicadas. Um filme intrincado, um livro que ninguém entendeu. Faz sentido, se alinha com o espírito competitivo que o ser humano injeta até no seu consumo de arte. Eu, no entanto, me sinto muito mais realizado ao confrontar um objeto que exibe muito claramente todos os seus signos, intenções, e caminhos, num esforço de provar que mesmo auxiliado por uma bússola, ainda existe um caminho a ser percorrido.

É de certa forma o sentimento que atravessa Pajeú (Pedro Diógenes, 2020), a crônica de uma Fortaleza fundada às margens de um córrego e cujo destino é ser um “esgoto a céu aberto”, nas palavras de um de seus personagens/entrevistados. Muito distante do caráter frontalmente panfletário ou pretensamente político que descreve boa parte da produção brasileira dos últimos anos, Pedro Diógenes bebe do formalismo experimental estudado nos anos de Alumbramento, mas também de Inferninho (Pedro Diógenes e Guto Parente, 2019), sua empreitada mais afetuosa e caricata, para tratar de algo tão supostamente cansado quanto a idade de corpo/cidade. Não nos desligamos da cidade ao entrar em nossas casas à noite para descansar, isso está dado. A cidade não é uma só, segue tendo donos, gerentes perversos, segue tendo muros. Tudo isso está dado, as discussões podem ser outras, devem ser outras.

Não é exagerado dizer que Pajeú, córrego que corta Fortaleza, e se viu literalmente soterrado pelo progresso, apresenta uma ideia muito clara de Brasil. Está ali a invasão portuguesa, a falta de planejamento urbano, a negligência política, a especulação imobiliária. O que Pedro decide fazer, ao dramatizar e personalizar esse documento histórico na pele de uma mulher experimentando certo mal estar na investigação de sua ancestralidade é tratar o problema como se deve, e fugir da visão arrogante de cineasta onisciente e salvador. Não há soluções a serem encontradas em Pajeú, mas há um diálogo franco sobre os problemas.

Talvez, e para além de suas pinceladas fantásticas, a construção de Pedro se aproxima um pouco do amargor criado por Adirley Queirós em Era uma vez Brasília (2017). Há uma pesada e sombria sensação de falha, de derrota, mas também um dedo de alívio, por finalmente ver revelada qual a verdadeira origem de sua mazela. No grande e melhor momento de Pajeú, a protagonista conversa com pessoas que visitam a praia e pouco ou nada sabem da história de seu próprio curso d’água original. “Vocês tem medo de sumir?”, ela pergunta, e a maioria deles tem, mas outros respondem que isso é natural, faz parte. Ambos estão corretos.

Felipe André Silva

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