A + B = C (2015), de Steffi Braucks

filme.sucata Filmes de arquivo geralmente solicitam um olhar rigoroso e crítico das realizadoras para o passado (o que nem sempre acontece). Dito isto, devemos nos atentar para certas características formais de A+B=C (2015) que situam o curta-metragem num lugar (positivamente) anômalo. Um filme sem casa, uma simples equação de esquecimento que, sob um olhar comparativo, nos parece propor um gesto bastante original. Ao invés de construir um discurso crítico sobre o passado – procedimento de Histórias que o nosso cinema (não) contava (2016), de Fernanda Pessoa, para ficar com apenas uma produção recente –, Steffi Braucks se debruça, em A+B=C, sob o refugo do agora. ***

O filme reorganiza o refugo através de um trabalho de escavação, lançando um olhar atento aos restos de filmes contemporâneos (1) para esboçar um discurso sobre o esquecimento – incompleto como o rememorar. Tudo aquilo que ficou fora do corte final interessa a realizadora. “Algumas imagens nunca encontram os olhos”, mas, parafraseando Walter Benjamin, nada do passado está perdido para o agora – ainda que sob uma forma fragmentária. Desse modo, o curta-metragem de Steffi Braucks produz um exercício de braçadas no rio do esquecimento, gesto que, no fim das contas, nada mais é que pura rememoração. A originalidade dos procedimentos estéticos em jogo nessa obra anômala está no processo de escavação cinematográfica da memória dos outros – o que aproxima o filme muito mais de Filme dos outros (2015), de Lincoln Péricles, do que da obra de Fernanda Pessoa mencionada acima. 

A fragmentação ontológica do rememorar se inscreve na forma do filme, desde as sequências de imagens de arquivos pessoais dos cineastas, que correm em fluxo quase indissociável – se não fossem as paradas ritmadas (metonímia que nos aponta o correr de um rio, talvez o próprio esquecer) –, passando pelas entrevistas com os cineastas (na tentativa de uma reflexão sobre o jogo entre lembrar e esquecer relacionado a essas imagens vestigiais), até a própria estrutura do filme, que se aproxima do gesto da sucateira.

A proliferação da sucata no contexto industrial e comercial produz suspeita, repressão e, o que é o caso desse filme, silêncio. Se considerarmos que a sucateira realiza “pequenos “golpes” no terreno da ordem estabelecida”, isso certamente se dá, segundo Michel de Certeau (2), pela trapaça prazerosa que ela instaura ao “inventar produtos gratuitos destinados somente a significar por sua obra um saber-fazer pessoal” (p. 82). Este é um registro de invenção menor, que se choca com as estratégias comerciais ou industriais. Contudo, evocamos a imagem da sucateira pela proximidade entre os gestos desta e da realizadora de A+B=C, uma vez que, na recomposição proposta por Steffi Braucks, o que salta aos olhos é a simples exigência de criar algo a partir do que foi negado, o que restou. A inscrição do poema de Paulo Leminski na montagem alude, nesse novo contexto semântico, o próprio gesto do filme: fazer do silêncio a sua obra. Com uma simples conversão, temos a súmula de uma obra difícil por sua simplicidade.

Em termos industriais ou até mesmo artísticos, o gesto desse filme afirma uma “astúcia” bastante original no campo do cinema. Ao reinventar certo refugo da indústria cinematográfica contemporânea, a realizadora se aproxima mais das culturas populares (ou da arqueologia) do que do cinema, dando a ver fragmentos que, em sua forma (ou re-disposição), instauram um jogo vestigial cuja potência estética se encontra num processo de trabalhar o lixo do agora através de conexões heterogêneas. Em suma, o gesto elaborado em A+B=C se situa num lugar contíguo aos mestres esquecidos da sucata: às margens do capitalismo.

(1) Os filmes escavados são: A cidade (2012), de Liliana Sulzbach; Bailão (2009), de Marcelo Caetano; Olhe para mim de novo (2012), de Kiko Goifman e Claudia Priscila; Oma (2011), de Michael Wahrmann; Os dias com ele (2013), de Maria Clara Escobar; Rio Cigano (2013) e Tarabatara (2007) de Julia Zakia; Tônica Dominante (2000), de Lina Chamie. (2) CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. João Campos

Partimos de uma provocação: “O que acontece com o cinema paulista? A indagação é crítica, mas não depreciativa”. Esta coluna não consiste em resolver este problema. Nosso desejo é desenvolver ao máximo as implicações necessárias desta questão proposta por Francis Vogner dos Reis em importante ensaio sobre o cinema paulista. Aqui, tensionar a questão significa desdobrá-la em análises críticas de filmes paulistas. Somente então, será possível compreender em quais condições este questionamento crítico é mesmo imprescindível. Quinzenalmente, aos sábados, por João Campos e Rodrigo Pinto.

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